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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Baelor: o dia em que a HBO separou homens de crianças



Quem acompanha a série Game of Thrones, da HBO, está perplexo ou mesmo relutante em acreditar nos acontecimentos apresentados em Baelor, último episódio do seriado, exibido no domingo passado nos Estados Unidos. Não apenas os “leigos” como a grande maioria de nós, mas também críticos especializados em TV e entretenimentos do gênero são unânimes em enumerar este fatídico episódio como memorável, aterrador, sublime e diferente de tudo que a televisão havia trazido até então.

Mas o que fez de Baelor um episódio tão marcante e especial a ponto de fazer legiões de fãs ao redor do mundo comentarem, lamentarem e até gravarem suas reações ao assisti-lo e colocarem seus vídeos na internet? Não foi o excelente roteiro de David Benioff e D. B. Weiss (criadores da série), que transmitiu um clima de guerra sem mostrar uma única cena de batalha. Também não foi a evolução nítida dos personagens, muitos deles em seus momentos mais cruciais (Robb em sua primeira batalha, Daenerys e seu amado a beira da morte, Tyrion contando segredos obscuros de sua vida). Tampouco foram as revelações surpreendentes de Meistre Aemon e o temível dilema de Jon Snow, que terá de escolher entre o amor à sua família e o dever junto à Patrulha da Noite. Baelor, nono episódio da primeira temporada de Game of Thrones, quebrou o paradigma por matar Eddard “Ned” Stark, Lorde de Winterfell, Senhor do Norte, protagonista do seriado.

Talvez a palavra “matar” não seja apropriada para o que vimos em Baelor, pois Ned Stark não foi apenas “morto”. O que testemunhamos ao longo de toda a série, culminando neste último episódio, foi a completa estruturação e destruição de um personagem, física e psicologicamente. Vimos Ned “nascer” em Winter Is Coming como o sisudo patriarca dos Stark, regente do lugar mais gelado dos Sete Reinos e, graças a isso, executor das penalidades daquela região. Um sujeito que, desde o primeiro momento, acreditava que as leis, a verdade e a honra deveriam prevalecer a tudo e a todos, doesse a quem doesse (como esquecer do desertor que Ned teve de decapitar, a contragosto, na primeira cena na qual apareceu?). Conseguimos acompanhar as andanças de Ned em um mundo traiçoeiro, cruel e insano, onde tentou transmitir valores dos mais nobres, desafiando até mesmo o Rei, no intuito de preservar a sua ética inquestionável.

Como personagem mais correto de Game of Thrones, Ned também angariou uma série de inimigos, dentro e fora das telas. Em Westeros, o achavam justo, de caráter inabalável, por vezes até ingênuo ao pensar que a justiça era o melhor caminho para qualquer coisa. Aqui, no mundo real, há quem o achasse chato, enfadonho e até “certinho demais”, alguém que não se mexia diante de tantos acontecimentos canhestros (basta lembrar de sua passividade ante as acusações de Catelyn sobre o atentado a Bran). O que qualquer pessoa que se preste a analisar narrativas com seriedade não pode dizer é que Eddard “Ned” Stark, com toda sua força, carisma e poder de decisão, não era um personagem fascinante.

Sim, vimos Ned nascer de uma forma autoral e vívida, muito mais intensa que sua contraparte nos livros de George R. R. Martin (que, segundo os que leram a obra, se encarrega de distribuir o foco da história para todos os personagens hermanamente). Se nas páginas de As Crônicas de Gelo e Fogo existe esta ressalva, no seriado não há discussão acerca do protagonismo de Ned, uma vez que todas as decisões tomadas em Westeros são baseadas nos movimentos do Lorde de Winterfell. Sempre foi assim porque os responsáveis pela série da HBO queriam que fosse assim. Eis a diferença.

Assim como presenciamos todas as escolhas honradas de Ned ao longo da série (escolhas que consolidaram seu caráter, suas convicções e tudo que se espera dele), chegamos em seu derradeiro dilema, apresentado pelo Rei Joffrey em The Pointy End: Eddard Stark, prisioneiro por traição, deveria se ajoelhar perante o jovem monarca, pedir perdão por seus “crimes” e reconhecer o direito de Joffrey ao Trono de Ferro. O problema é que Ned seguia uma recomendação do Rei anterior (que a fizera em seu leito de morte) e Joffrey NÃO é realmente herdeiro do trono; o patriarca dos Stark reconhecer algo assim seria o mesmo que renunciar aos seus ideais de honra e defesa da verdade, seria contrariar sua natureza. Em suma, esperava-se que Ned Stark não sucumbisse às ameaças.

Mas eis que surge o elemento familiar na trama, e a perspectiva se altera: Sansa, filha de Ned, se encontra em poder do novo Rei e fica claro que, se a confissão não ocorrer, a moça sofrerá as conseqüências. Também fica claro que se o Senhor do Norte confessar, terá a misericórdia real e será apenas exilado. Esta condição e a soma dos elementos comporta a possibilidade de Ned vender sua alma, passar por cima de seus princípios em prol da segurança da filha e de sua própria. O personagem perderia sua essência, mas viveria. Uma troca justa, se o Rei Joffrey fosse justo.

Em uma cena magnanimamente orquestrada por Alan Taylor (um dos mais proeminentes diretores de TV da atualidade), Ned Stark “morre” pela primeira vez ao sacrificar sua dignidade, se declarando culpado das acusações de traição e reconhecendo Joffrey como o Rei legítimo. Ele se destrói por dentro para garantir a segurança de Sansa, salvar a própria pele e para recompensar nós, telespectadores, com seu suposto prosseguimento na série (e, quem sabe, uma eventual vingança contra os Lannister pela humilhação). Contudo, não é isso que acontece: inebriado pelo poder e pela necessidade de mostrar serviço, Joffrey volta atrás no “trato” e manda executar Ned Stark, para a surpresa do condenado, de sua filha Sansa (e de Arya, que observava de longe), da própria Rainha Cersei (que sabia do golpe fatal que seria esta execução para a paz no reino) e de nós, telespectadores, que tivemos de assistir a horripilante e inexorável seqüência onde, através de uma belíssima montagem de imagens e atuações impecáveis de Sean Bean (Ned) e das atrizes Sophie Turner (Sansa) e Maisie Williams (Arya), o personagem principal de um seriado é executado. Para quem não acompanha a série ter uma vaga noção, é como assistir 24 e House M. D. e Jack Bauer ou o doutor manco serem assassinados em seus respectivos programas.

Se este procedimento de sacrificar protagonistas parece ter precedentes na ficção (Jack Shepard morre no final de Lost, William Wallace é executado em Coração Valente, Romeu e Julieta se envenenam, entre outros muitos exemplos), no seriado Game of Thornes este panorama se complica não apenas pela morte moral de Ned (lembre-se que, no filme de Mel Gibson, o escocês não abre mão de suas convicções), mas pelo fato de que a série está praticamente em seu início e terá de sobreviver a esta tragédia, enquanto as outras obras citadas findaram sua narrativa junto com seus heróis. Esta decisão, que para muitos pode parecer partir do material original da história, é obra única e exclusivamente da HBO, não apenas por decidir adaptar a obra de Martin (um autor que foge do convencional), mas por manipular a história a ponto de nos entregar um protagonista cativante e nos tirá-lo abruptamente, despertando um misto de sentimentos poderosos no espectador, além de uma experiência única.

Mas engana-se quem pensa que a morte de Ned Stark é ruim. A partir dela teremos novas ramificações na trama, e sua partida possibilitará que os outros personagens de Game of Thrones cresçam de uma forma muito mais orgânica e consistente, desta vez, com um motivador como nunca se viu e não se verá tão cedo em outros programas. Eu gostava de Ned e fiquei estarrecido ao assistir Baelor, mas agradeço à HBO por me surpreender e me proporcionar momentos que jamais esquecerei.

Ned morreu, mas a vida continua.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Fundação de Papai Noel

Em sua primeira imagem, publicada em 1863 na revista Harper's, de Nova York, Papai Noel - chamado de Santa Claus - era um gnomo gorducho entrando numa chaminé. Nasceu da mão do desenhista Thomas Nast, vagamente inspirado nas lendas de são Nicolau.

No natal de 1930, Papai Noel foi contratado pela Coca-Cola. Até então, não usava uniforme, e em geral preferia roupas azuis ou verdes. O desenhista Habdon Sundblom vestiu-o com as cores da empresa , vermelho vivo com filetes brancos, e deu a ele os traços que todos conhecemos. O amigo das crianças usa barba branca, ri sem parar, viaja de trenó e é tão rechonchudo que não se sabe como consegue entrar pelas chaminés do mundo, carregado de presentes e com uma Coca-Cola em cada mão.

Tampouco se sabe o que ele tem a ver com Jesus.

(GALEANO, Eduardo. Espelhos – uma história quase universal. Tradução de Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 67\68)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Conversa de gente grande.

O que aconteceria se um dos maiores diretores do século XX conversasse com o maior mestre do suspense de todos os tempos, em uma entrevista com mais de 50 horas de duração?

Descobri nessa sexta passada, ao terminar de ler Hitchcock/Truffaut, uma transcrição absurdamente bem acabada e completíssima do ciclo de entrevistas que François Truffaut fez com Alfred Hitchcock durante quatro anos, abordando a obra e a carreira do diretor inglês de forma completa, incisiva e analítica.

Hitch e seus bichinhos de estimação.

Fã confesso do Estilo Hitchcock e grande amigo do cineasta, Truffaut guiou a entrevista através de uma linha de tempo baseada em cada um dos mais de 60 filmes de Hitchcock, começando pelo período do cinema mudo, quando Alfred era apenas um desenhista de títulos (quem desenhava e escrevia o que os atores falavam naqueles cartões pretos que apareciam na tela, para substituir o som das palavras) com pouco mais de vinte anos de idade. É fascinante como, desde cedo, Hitchcock manifestou um interesse extremo por todas as ferramentas do cinema (principalmente o americano): começou fazendo letreiros e passou por quase todas as funções dos bastidores, sempre assimilando o que aprendia e implementando sua perspicácia. Não demorou muito para que o chamassem para funções maiores, até que ascendeu para a assistência de direção e, em seguida, para a direção (na mesma época em que conheceu e cortejou a continuísta e editora Alma Reville, que veio a tornar-se sua companheira até o fim).

Com o peculiar senso de humor que o tornou tão famoso, Hitch enumera todas as agruras e curiosidades de cada um dos filmes, as maquinações e saídas criativas para trazer ao público efeitos nunca vistos até aquele momento. Temos, por exemplo, o teto de vidro onde o espectador podia ver o ator Ivor Novello andando de um lado para o outro no quarto acima (como o filme O Inquilino Sinistro era mudo, foi a saída que Alfred descobriu para mostrar a tensão dos passos acima das cabeças dos preocupados moradores do pensionato).

Teto de vidro: o inquilino sinistro caminha no quarto acima...

Outras curiosidades
como o fato de Hitchcock ter dirigido o primeiro filme sonoro britânico ou as manias perfeccionistas do diretor (como a de desenhar storyboards de cada tomada, tornando o filme hermeticamente planejado), ou mesmo o hábito de Alfred em fazer aparições em todos os seus longas, são colocadas na mesa por um astuto Truffaut, que relembra as cenas e peculiaridades dos filmes do entrevistado e aborda, com ganho de causa, nuances cinematográficas de cada um deles. Os dois diretores colocam em pauta as motivações dos personagens, a linguagem de câmera, o famoso “MacGuffin” (termo criado por Hitch para descrever um elemento da história que serve como impulso narrativo: crucial para o personagem, mas irrisório para o espectador), os problemas de recepção pelos críticos americanos e a notoriedade entre os europeus, inúmeros pontos que permitem que o próprio Hitchcock faça sua auto-crítica.

Para Hitchcock, cinema era um assunto sério.

A medida que a entrevista avança e a carreira de Hitchcock chega em Hollywood, o bom humor é amenizado – e por vezes anulado – por uma análise poderosa e imparcial de cada um de seus filmes e atores. Alfred fala das pessoas com as quais trabalhou, quem queria para determinado papel, e quem o estúdio o fez engolir. Sana o “mal-entendido” da famosa citação “Para mim, os atores são como gado” e atribui alguns de seus fracassos à suas fraquezas e à fraqueza de alguns outros (por exemplo, quando enumera que Um Corpo que Cai não fez o sucesso devido na época por causa do aspecto decadente de James Stewart, que já não era mais nenhum garotão.

O enxerido L.B.Jeffries está prestes a entrar numa fria em Janela Indiscreta.

Embora seja crítico e, por vezes, severo com suas próprias pérolas (e tenha sobrado até para Truffaut, quando Hitchcock diz que ficou constrangido com uma das cenas de Jules e Jim), percebe-se por toda a entrevista o lado terno e sentimental de Alfred Hitchcock, um homem que defende a idéia de usar o cenário para matar algum personagem e, no entanto, consterna-se quando encontra um subalterno de estúdio que, outrora, negou-lhe um emprego como desenhista de título. Demonstra o paradoxo de um diretor que mostrou como ninguém o romance, a malícia e o assassinato na tela e, mesmo sendo mestre nisso, casou-se virgem aos 25 anos e nunca conheceu outra mulher que não fosse sua esposa. Com a profundidade e extensão da entrevista, o próprio Hitchcock desabafa suas frustrações (como a de nunca ter ganhado um Oscar), seus medos (da Polícia, ou de ser agredido), e suas incapacidades (como a de nunca ter conseguido escrever com afinco, ficando sempre a mercê de outro roteirista).

Minha cena predileta de todos os filmes de Hitchcock:
Roger Thornhill fugindo de um aeroplano assassino em Intriga Internacional.


Além de informações cruciais, milimétricas e interessantes acerca de filmes como Janela Indiscreta, Intriga Internacional, Psicose e Os Pássaros (entre muitos outros), o livro traz também inúmeras fotos de bastidores, stills (inclusive dos filmes mais raros) e uma filmografia completa no final (junto com uma lista gigante de nomes de colaboradores, referenciados com números de página), além, claro, de fotos da própria entrevista, onde vemos Hitchcock gesticulando, argumentando, fazendo caras, bocas e fumando seu charuto, e vemos também um atento Truffaut que, mesmo sendo um ícone do cinema francês e mundial, tem a admiração e emoção de um garoto estampados no rosto.


François Truffaut concluiu este livro narrando seu ponto de vista sobre os últimos anos de Alfred Hitchcock, quando o mestre do suspense já se encontrava frágil, debilitado e havia fechado seu escritório na Unive
rsal Studios, vindo a falecer em seguida, no ano de 1980 (com seus 80 anos). Curiosamente, o próprio Truffaut viria também a falecer 4 anos depois de Hitchcock, vítima de um tumor no cérebro, aos 52 anos.

Hitchcock/Truffaut trata-se de uma fascinante e emocionante viagem pelo mundo do cinema em sua forma mais pura. É uma referência para quem gosta de cinema. É imprescindível para quem faz cinema. É descompromissado, divertido e, mesmo assim, é um legado contundente e emocionante de alguém que atingiu a plenitude de sua arte, que amava o cinema e alegava que seu amor por ele sobrepujava qualquer moral.


***

Dica de Livro:

Hitchcock/Trufautt - Entrevistas: Edição Definitiva

Autor: François Truffaut
Pág: 368
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2004

Já enumerei o quanto este livro é obrigatório, então prefiro encerrar com uma excelente frase do homem:

"Alguns diretores filmam fatias de vida, eu filmo fatias de bolo."

terça-feira, 21 de julho de 2009

Você está olhando atentamente?

Neste fim de semana, minha namorada e eu resolvemos aderir a um antigo hábito que vem se extinguindo com o advento da banda larga e dos torrents da vida: alugamos alguns filmes.

Devo dizer que a ação de ir até uma vídeo locadora e procurar pelas prateleiras era algo que não fazia parte da minha vida há ANOS, e que eu não pensava que fo
sse me bater uma certa dose de saudosismo ao, de uma hora para outra, estar deliberando com a minha gata sobre que filme seria mais interessante para preencher nosso fim de semana (com 10 capas de DVD’s nas mãos para escolher). Não que eu tenha ressalvas com a praticidade (e economia) que a internet proporciona, mas tenho que admitir que este costume da procura real e tangível de um filme em uma locadora tem seu charme, principalmente se você estiver bem acompanhado, o que era o meu caso.

Devaneios à parte, eis que escolhemos dois filmes. Um deles foi Os Cinco Sentidos, uma espécie de drama/romance honesto – mas não memorável – sobre um punhado de pessoas que vivem no mesmo prédio e que têm suas vidas mostradas em torno do sumiço de uma menina. Nada pesado, nada tãããão leve, mas certamente ofuscado pelo outro filme que escolhemos.

Eu já me cobrava de não ter dado uma verificada em O Grande Truque desde sua estréia, em 2006, já que nunca tive oportunidade ou um interesse mais intenso a ponto de baixar esta pérola do diretor Christopher Nolan (o mesmo responsável por Batman - O Cavalheiro das Trevas). Como estávamos procurando um bom filme de suspense e a prateleira de lançamentos não estava muito sortida, acabamos por optar pela adaptação do livro de Christopher Prier, The Prestige, que conta a história de Robert Angier e Alfred Borden, dois mágicos londrinos que, após um número de mágica que termina em tragédia, tornam-se inimigos declarados.

A rivalidade dos ilusionistas vai tomando proporções severas, até que Borden surge com “o Grande Truque” do título em português (o filme, assim como o livro, chama-se The Prestige, uma apologia ao terceiro ato de um show de mágica, onde o primeiro ato consiste na introdução – The Act, o segundo consiste na apresentação do número em si – The Turn, e o terceiro é a resolução do show de mágica – The Prestige), um número impossível cuja resolução torna-se a obsessão de Angier.

Nolan, que lançou-se ao estrelato com o impressionante Amnésia, retorna ao suspense metódico, de referências. Vale a pena assistir ao filme atentamente, pois as pistas para um final surpreendente e aterrador estão todas lá, jogadas em cada situação, em cada quadro. Crédito também para as ótimas atuações de quase todo o elenco: embora Christian Bale esteja muito bem no papel do engenhoso Borden, os méritos desta química ficam por conta de Hugh Jackman (no papel do mágico transtornado Angier) e seu fiel escudeiro Michael Caine (sempre ótimo) como Cutter, o homem responsável pela maioria das engenhocas utilizadas pelo mágico. A bela Scarlett Johansson complementa o elenco, mas não serve para muito mais do que apenas embelezar a tela (aliás, a considero superestimada), que também é enfeitada por uma excelente Direção de Arte e Fotografia (ambas indicadas ao Oscar). Um exemplo disso é o laboratório de Nikola Tesla (uma participação pra lá de especial de David Bowie), que é visitado por Angier quando este vai aos EUA: o lugar é remontado à exatidão de fotos e gravuras da época.

Embora O Grande Truque tenha tido uma singela bilheteria, trata-se de um filme já cultuado entre os cinéfilos e amantes de bons suspenses. Seu roteiro (escrito pelo diretor, ao lado do irmão Jonathan) utiliza de flashbacks para costurar uma intrincada narrativa, calçada na rivalidade e nas sutilezas do mundo do ilusionismo, e envolvendo o espectador como em um ótimo número de mágica. Aprovado.

***

Dica de filme:

O Grande Truque (The Prestige)

Diretor: Christopher Nolan

Elenco: Hugh Jackman (Robert Angier), Christian Bale (Alfred Borden), Michael Caine (Cutter), Scarlett Johansson (Olívia Wenscombe), David Bowie (Nikola Tesla)
Duração: 128 minutos
Gênero: Suspense
Ano: 2006

Como qualquer filme de Christopher Nolan: ba-ca-na!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Ser ou não ser...um vulcano.

Depois de me divertir com as memórias de William Shatner relativas à produção da série clássica de Star Trek, o segundo livro biográfico Trekkie que meu colega de trabalho me emprestou não deixou por menos: Eu Sou Spock, escrito pelo ator Leonard Nimoy, tem um título pra lá de intrigante e, claro, chamativo. Curiosamente, ele foi escolhido pelo autor para solucionar um mal entendido que vinha perdurando desde 1975, quando escolheu intitular seu livro anterior como Eu Não Sou Spock, a fim de não se deixar estigmatizar pelo célebre personagem de orelhas pontudas.

Graças a esta (infeliz) decisão, Nimoy angariou toda sorte de infortúnios que a má escolha de um título poderia proporcionar. Era para ser uma análise simples e direta, enumerando que Leonard Nimoy existe e é um homem de carne e osso e que Spock, embora amado por milhões de pessoas, é apenas um dos muitos personagens que o ator é capaz de interpretar, porém, Eu Não Sou Spock atraiu a fúria de grande parte dos Trekkies da época e colocou uma série de dúvidas nas cabeças dos executivos da Paramount, que pensavam em produzir uma nova série de Star Trek (a Phase II), mas tinham certeza absoluta de que Nimoy odiava Spock demais para querer reprisar o papel.

Para fazer as pazes com os fãs que ainda tinham dúvidas de seu afeto pelo vulcano e nos trazer uma série de informações sobre sua carreira como ator e diretor, os bastidores de Star Trek (da série clássica, até os seis primeiros filmes para o cinema) e suas concepções acerca da criação e manutenção do personagem Spock, eis que Leonard nos brinda com Eu Sou Spock, 20 anos depois de sua gafe literária.

Logo na primeira frase do livro, Nimoy nos confidencia algo perturbador: ele fala sozinho. E não é só isso: a voz que lhe chama e conversa com ele praticamente todos os dias é lógica, ponderada e isenta de emoções. O ator admite que, desde o dia em que deu vida a Spock até o fechamento do livro, o vulcano tem se tornado parte de sua psique de uma forma implícita, mas muito presente em sua vida. Não era raro pegar-se pensando de maneira fria e até falando como E COM Spock. Estas conversas que tem com seu alter ego são ilustradas em divertidos diálogos espalhados por todo o livro, que nos dão uma idéia de como o ator lida com o seu alienígena interior nas mais inusitadas situações.

É curioso notar que, embora Spock seja um personagem lógico, incorruptível e competente no que faz, o próprio Leonard Nimoy carrega essas características na sua vida pessoal e profissional (e, claro, muito disso foi levado para a criação do vulcano). Cito o exemplo da jovem que roubou o carro da mãe e gastou mais de 1500 dólares em cheques roubados para chegar até Holywood e poder ver Leonard Nimoy de perto. Nas palavras do próprio ator: “é claro que fiz questão de não vê-la, afinal, não queria encorajar aquele tipo de comportamento”.

O acuro com o qual o ator lidava com suas falas e os roteiros dos episódios de Star Trek - The Original Series (ou TOS, como é conhecida), demandavam memorandos e mais memorandos de dicas e reclamações. Um ótimo exemplo disso é um memorando carinhoso que o ator enviou para os produtores de TOS, relativo ao episódio Whom Gods Destroy, dizendo que não tinha know-how para interpretar “palermas” (no referido episódio, Spock encontra problemas em identificar o verdadeiro Capitão Kirk de um farsante e chega a ser desarmado pelo mesmo, que estava de mãos vazias). Claro que haviam também ótimos memos de outros engajados na série que foram ilustrados no livro, como o famoso memo que Bob Justman, Co-Produtor da Série Clássica, mandou para Gene Roddenberry, sugerindo que todos os vulcanos machos deveriam ter seus nomes próprios com cinco letras ao todo, começando com SP e terminando com K, e relacionando exemplos hilários, onde pérolas como Spruk e Sperk figuravam numa lista maluca de nomes.

A maneira polida, mas enfática, de Nimoy requisitar melhorias para poder executar melhor o seu trabalho, também renderam ótimos relatos e espelham, no livro, o quanto era árduo o dia-a-dia nos estúdios da Desilu, com todo tipo de cerceamento de verba que a NBC podia exercer (já que a mesma não acreditava no programa) e uma carga horária bem puxada: o dia de Nimoy começava às 6 da manhã na cadeira de maquiagem (lamento ser eu a dizer isso, mas aquelas orelhas pontudas eram falsas) e terminava, pontualmente, às 18h18min, quando os encarregados do estúdio desligavam as luzes (isso era religioso: não importava se estavam no meio de uma filmagem ou não, as luzes se apagavam naquele horário).

Além de abordar sua participação na série e os efeitos da popularidade de Spock em sua vida (como, por exemplo, multidões lhe perseguindo e planos de contingência para entrar num restaurante para comer) e na amizade que tinha (e ainda tem) com William Shatner, Nimoy faz um apanhado de sua carreira nos palcos e, principalmente, atrás das lentes. Curiosidades de como pegou a direção de Jornada nas Estrelas III – À Procura de Spock, e de como a Paramount tentou de tudo para colocar Eddie Murphy (?) no 4º filme da franquia estão lá, contadas nos mínimos detalhes. Suas experiências na direção de O Preço da Paixão e Três Solteirões e um Bebê também estão no livro.

A narrativa segue até a participação que fez no episódio duplo Unification de Star Trek – The Next Generation (ou TNG, como é conhecida), onde os tripulantes da Nova Geração se encontram com o vulcano (que, vale lembrar, pertence à cronologia da Série Clássica, que se passa no ano de 2266, enquanto o 1º episódio da Nova Geração se passa em 2364, evidenciando a longevidade dos vulcanos). Aqui, o ator abre um parênteses para dizer que mordeu a língua ao conjeturar o fracasso de uma nova série que não fosse protagonizada pela velha tripulação (referindo-se, claro, ao lançamento da Nova Geração), pois não acreditava que pudessem capturar o gênio na garrafa duas vezes (felizmente, vimos que Nimoy estava errado: TNG foi um grande sucesso, rendendo 7 temporadas e 4 filmes para cinema).

O livro foi finalizado próximo ao lançamento do filme Generations (no qual o ator recusou-se participar, pois Spock não tinha função efetiva na trama), mas a obra de Leonard Nimoy não encerrou-se por aí. Além de participação em alguns seriados e de sua carreira fotográfica, podemos conferir o retorno do ator, de forma graciosa e emocionante, ao papel que marcou sua vida no novo Star Trek, de J.J. Abrams. Como um bom roteiro sempre foi pré-requisito para a participação de Leonard Nimoy em algum projeto, eu sabia que o filme de Abrams não ia decepcionar, e eu estava certo (como você pode ler aqui).

Com seu peculiar sendo de humor e todo o saudosismo que um ótimo livro pode transmitir quando está na última página, Eu Sou Spock se despede com o caso verídico do engano mais certeiro que alguém já cometeu ao trocar os nomes de uma celebridade.

“- Claro que sei quem você é. É o Sr. Leonard Spock”.

***

Dica de Livro:

Eu Sou Spock

Autor: Leonard Nimoy
Pág: 290
Editora: Mercuryo
Ano: 1997

Ao contrário de seu capitão, Nimoy não precisou de um co-autor para reunir os predicados de um livro informativo, curioso e muito bem escrito. A leitura flui e cativa, tanto para Trekkies quanto para pessoas... normais.=P

terça-feira, 2 de junho de 2009

Memórias de um Capitão.

JustificarAproveitando um pouco a renovada Onda Trekkie (ou Trekker), um colega de trabalho me disponibilizou, há umas duas semanas atrás, o livro Jornada nas Estrelas: Memórias, escrito em 1993 pelo ator William Shatner (e co-escrito por Chris Kreski). O livro tinha pretensões de ser uma espécie de “diário definitivo” dos bastidores de Star Trek: The Original Series, narrado pelo próprio interprete do Capitão Kirk que, segundo nota de capa, tinha uma visão privilegiada de toda a função que foi colocar Star Trek na bitolada TV de 1966, e mantê-la no ar por três temporadas.

Se este é mesmo o diário definitivo de como o fenômeno trekkie foi criado, eu realmente não sei (não li outros impressos que também tomam para si esta função, mas sei que existem), porém, é inegável que Shatner estava mesmo em uma posição apropriada para a coleta de dados, e a gama de informações fascinantes que o livro traz, sob a ótica fanfarrona e irreverente do ator, não me deixa mentir.

As duas primeiras páginas soam como uma tentativa de Shatner em colocar sua veia autoral no papel: com literatura mediana (algo no estilo “como escritor, ele é um bom ator”), o eterno Capitão Kirk narra suas primeiras ações de um dia de trabalho em uma manhã de 93. Seus pensamentos, no entando, se arremessam para um evento anterior, no qual ele e o restante do elenco da série original deixaram a marca de suas mãos no Moon Theater. Informações sobre como George Takei (Sr. Sulu) parecia ter problemas nos dedos de tanto cumprimentar o povo com o famoso cumprimento vulcano, ou de como DeForest Kelley (Dr. McCoy) errou o próprio nome ao escrevê-lo no cimento, eram apenas pequenas curiosidades que serviram de gancho para Shatner relembrar o início desta longa e profícua viagem, na distante década de 60.

Após os acessos “literários” (que resume-se a 5 páginas, no máximo), o ator nos presenteia com inúmeras informações de bastidores, tanto técnicas, quanto curiosas, embasadas em depoimentos de pessoas próximas à produção, equipe e elenco de Star Trek. Shatner conta, por exemplo, como Gene Roddenberry (o criador da série) entrou em um bar, vestido de policial rodoviário, com um roteiro embaixo do braço e, literalmente, intimou um famoso agente hollywoodiano a ler seus rabiscos. Toda a luta de Roddenberry para vender seu programa de ficção científica, os dois pilotos, as loucuras exigidas pela NBC, as condições precárias dos Estúdios Desilu (e as soluções mais que engenhosas dos produtores), bem como as relações interpessoais entre os atores e a equipe, são apenas uma parcela das muitas pérolas que William Shatner conta, intercalando com fotos (e alguns comentários engraçados nos créditos das mesmas) e desenhos de cenários (cortesia do Diretor de Arte Matt Jefferies). Além disso, comentários e curiosidades relativos a vários episódios são contados e indicados para uma análise posterior, quando o leitor quiser rever o tal episódio (como o olhar de terror real de Kirk em The Naked Time, quando George Takei, fora de controle, investe contra Shatner munido de um florete).

Shatner descreve também algumas peculiaridades de sua relação com seu colega de cena e amigo Leonard Nimoy, bem como a relação de ambos com as alegrias e agruras do programa. Os memorandos polidos e ácidos de Nimoy para seus produtores, implorando para que seu personagem (Spock) fosse respeitado pelos roteiros ruins da 3ª Temporada, são transcritos com toda a sua sutileza. Os trotes que Shatner dava no amigo, bem como as famosas brincadeiras de Roddenberry com todo mundo (nem o alfaiate chato da esquina escapava) também são narradas, conferindo ao livro um clima saudosista e familiar (essa palavra é usada inúmeras vezes por Shatner para descrever a relação que todos os envolvidos no programa tinham entre si).

Curioso também que o ator/autor leva a narrativa de um jeito brincalhão e, muitas vezes, egocentrista (conforme sua própria fama de “estrela”), mas de uma forma claramente chacotesca consigo mesmo (como na passagem onde diz que o Capitão Kirk foi criado para ser um homem quase perfeito, atuado por um homem que ERA perfeito). As brincadeiras que faz acerca do personagem X ator são mais que bem vindas, e mostram um William Shatner que visivelmente amadureceu de um galã e astro de ficção científica para alguém que consegue olhar além de seu próprio umbigo.

Esta característica de estrelato é admitida pelo próprio Shatner ao contar que, em dado momento, o sucesso estrondoso de Spock e a visibilidade que Nimoy havia atingido a partir do 6º mês de programa o incomodava...e muito. Tanto que chegou a ir falar com Roddenberry sobre o assunto, requisitando algumas modificações para que o amigo tivesse menos tempo em tela e coisas do gênero. É claro que Gene deu uma resposta amável, mas a altura, e Shatner voltou ao programa com o rabo entre as pernas, percebendo o quanto soou infantil. Este episódio aliado à mea-culpa que faz com outras pessoas do elenco no final do livro (onde entrevista cada um e eles lhe dizem, cara à cara, por que o desprezam como pessoa e profissional), não deixam dúvidas de que este livro, mais do que um valioso registro documental, foi uma forma que o ator encontrou de enfrentar seus fantasmas. Se foi jogadinha de marketing ou arrependimento real, eu ainda não sei, mas admito que, se já simpatizava com William Shatner e considerava o Capitão Kirk como melhor personagem da série, este livro consolidou este status.

Enfim, além de leitura obrigatória para quem curte a Mitologia Trekkie, Jornada nas Estrelas: Memórias é também um livro interessantíssimo para quem trabalha com produções de audiovisual (como eu) e constata como esse pessoal driblava as adversidades (muitas vezes usando táticas que hoje adotamos no cinema de guerrilha). Para os menos informados, é um livro que conta, em linguagem muito simples e de forma bem humana, uma história de trabalho árduo e familiar, com problemas e resoluções, alegrias e tristezas. Não é um épico literário, mas é uma excelente leitura de entertenimento e de entendimento do mito Star Trek.

***

Dica de Livro:
Jornada nas Estrelas: Memórias
2ª Edição
Autor: William Shatner
Co-Autor: Chris Kreski
Pág: 350
Editora: Nova Fronteira
Ano: 1995

Próxima parada: Eu Sou Spock.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Uma terra de deuses.

Terminei de ler, na noite passada, o livro Deuses Americanos, de Neil Gaiman. O romance traz a história de Shadow, um marginal que descobre a morte da esposa na semana em que sai da prisão. Ao perceber que sua liberdade perdeu o sentido, o ex-presidiário se vê às voltas com uma inusitada proposta de Wednesday, um homem misterioso que pretende engendrar uma insólita viagem pelo verdadeiro interior dos Estados Unidos: uma terra pululada por seres fantásticos e deuses milenares que, por um lugar ao sol, estão prestes e entrar em guerra.

Gaiman, escritor inglês de renome e criador de HQs adultas cultuadas como Sandman e Livros da Magia, está em seu terreno ao narrar uma história de cunho fantástico, sem descuidar da descrição precisa da realidade. Costumes interioranos, expressões e inúmeras referências da cultura popular americana e mundial convergem com o clima surreal e personagens que, embora deuses, manifestam-se como meros mortais: fazem torradas, trabalham, prostituem-se, matam e morrem obedecendo às leis da física. Tudo isso em uma terra que o livro insistentemente diz que “não é boa para deuses”. Um lugar onde deuses antigos (e outrora poderosos) definham e caem no esquecimento, e onde deuses novos nascem todos os dias.

Interessantes também são as referências religiosas e mitológicas usadas por Gaiman para ilustrar a história. Podemos encontrar de lendas escandinavas a influências fortes da cultura africana. De mitos judaicos a referências astecas. De divindades indianas a supostos deuses das cavernas. Uma miscigenação que espelha a cacofonia do próprio povo americano, que embora colonizado por ingleses, teve suas origens em toda gama de povos que, ou viram no Novo Mundo uma chance de recomeço, ou foram levados à força nos navios negreiros, ou simplesmente já estavam lá antes do homem branco chegar. E com todos eles, vieram suas esperanças, suas crenças, seus deuses.

Embora as HQs sejam seu chão, o autor não deixa a peteca cair. Foi feliz ao traçar uma narrativa espirituosa e de fácil digestão – direcionada a qualquer público, mas sem subestimar os mais exigentes. Com toques de humor negro aliados à iminência de um grande acontecimento, que incute ao texto o tom sério e lírico necessários, o mesmo tom presente nas demais obras de Gaiman. E como praticamente tudo que ele escreve, é uma leitura inventiva e poderosa, calçada na imaginação infinita do autor.

***

Dica de Livro:
Deuses Americanos
Autor: Neil Gaiman
Pág: 448
Editora: Conrad do Brasil
Ano: 2001
Prêmios: Hugo e Nebula.

Os Agradecimentos no final do livro é um capítulo a parte. Com aquela famosa irreverência inglesa, Gaiman atribui, a cada nome, os motivos pelos quais está agradecendo. Da mulher que emprestou sua casa na condição de que ele espantasse alguns urubus, ao também cultuado escritor de HQs Alan Moore, que lhe emprestou alguns livros para pesquisa.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A Mão Esquerda de Deus.

Encerrou nesta segunda-feira passada a 3ª temporada de Dexter, série do Canal Showtime (exibida, aqui no Brasil, no FX) baseada no livro Dexter - A Mão Esquerda de Deus, de Jeff Lindsay. O seriado nos traz o dia-a-dia nada convencional de Dexter Morgan, um carismático analista forense – especializado em padrões de dispersão de sangue – que trabalha junto à Polícia de Miami. Ao contrário de inúmeros seriados de investigação criminal, o enfoque não é no trabalho de Dexter, e sim em como ele sacia o seu vício de...matar pessoas.

Guiado por um rígido código de conduta que herdou de Harry, seu pai adotivo, Dexter canaliza sua sede de sangue em outros assassinos que, por um motivo ou outro, conseguiram se safar da justiça dos homens. Confesso que, inicialmente, me esquivei de acompanhar esta série justamente por isso: uma “ética” neste assunto me soava forçada, como se houvesse um esforço dos criadores do seriado em justificar o personagem-título e torná-lo “politicamente correto”. Comecei a assistir com um pé atrás e, após alguns minutos, pensei: puta merda, mais uma série da qual vou ter de virar fã.

O episódio-piloto dá a receita do clima que a série nos reserva para a 1ª temporada; um Dexter taciturno, pensativo, tentando descobrir se há alguma humanidade por trás do seu instinto assassino, enquanto veste a máscara do cara solícito e agradável que todos idealizam: ele é um irmão perfeito para sua meia-irmã Deb, uma policial obstinada e de boca suja que tenta seguir os passos do falecido pai, que também foi da Polícia. É um namorado perfeito para Rita, uma mãe solteira traumatizada com seu relacionamento anterior. É um colega de trabalho discreto e amável, que leva donuts para o serviço e distribui hermanamente pelo distrito policial. Mas por trás destes atos, pululam na narrativa os pensamentos de Dexter, que nos são mostrados em OFFs que normalmente destoam de seu sorriso abrasivo. E é este paradoxo, este esforço de Dexter em simular sentimentos que julga serem inexistentes que nos prendem na tela. Vemos ali como um assassino em série se comporta de dia enquanto, à noite, esquarteja desafortunados. Aliando isso a um passado obscuro e ao fato de Dexter usar de seu trabalho tanto para investigar suas vítimas, quanto para cobrir seus rastros, temos os primeiros 12 episódios de um material que só evolui.

Esta característica de evolução da série se estende para as outras temporadas. Se na 1ª temporada tínhamos um Dexter em crise existencial, na 2ª encontramos o personagem desafiando a linha tênue que separa seu lado homicida de uma cadeira elétrica, ao passo que, na 3ª temporada, o vemos ansiar por dividir seu segredo. Michael C. Hall interpreta o protagonista e faz um excelente trabalho, emprestando a dualidade necessário ao personagem em uma atuação sutil e longe de ser esteriotipada: um olhar torto de Dexter nos transmite exatamente o que há em sua cabeça e o quão perigoso aquele homem pacato pode vir a ser de um minuto para o outro. A meticulosidade de Dexter também é ponto alto de sua personalidade, que usa de uma astúcia incalculável para engendrar seus planos homicidas e sair impune, já que a primeira e maior regra do código de conduta de Harry é “Nunca seja capturado”.

A série está concorrendo novamente ao Globo de Ouro, tanto para Melhor Série Dramática, quanto para Melhor Ator de Série – Drama. Com o acuro de produção, a profundidade dos personagens, os roteiros excelentes e o ibope que o seriado levanta por onde passa, diria que não há nada mais justo que essas indicações (bem, talvez só as estatuetas). Se Dexter continuar seguindo esta qualidade, podemos esperar mais corpos vindo aí...