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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Em terra de Artigas - Parte 2.

El Entrevero

Seguindo os relatos das minhas aventuras em Montevideo, vamos falar um pouquinho sobre quem nos trata muito bem quando nós, estrangeiros, estamos por lá: o povo uruguaio.

Como a capital uruguaia vive cada centímetro de suas ruas direcionada para o turismo, nada mais natural que seus habitantes sejam receptivos, amáveis, educados (inclusive, não há UM único uruguaio que não entenda português) e atenciosos. Algumas curiosidades acerca desse pessoal tão bacana vale a pena mencionar, a começar pela forma de se vestirem: nada aberrante e nem fora do normal, com um certo ponto para os homens que, segundo uma amiga minha, conseguem ser mais elegantes por lá. O interessante em suas roupas é que, faça chuva ou faça sol, eles estão sempre munidos de uma camiseta ou camisa, um blusão de lã e um casaco quente. Se fizer 5º ou 35º, eles estarão vestidos desta forma.

Outra indumentária indefectível é o amado mate a tira-colo. Se alguém ainda pensa que o Rio Grande do Sul é a sede mundial do mate, é porque não conhece Montevideo. Lá o chimarrão é tão difundido que há placas do tipo "Proibido Beber Mate" nos locais onde é proibida a entrada de alimentos (como museus, por exemplo).

Mercado Del Puerto

Como prometido, vou abordar uma das grandes motivações para o pessoal (principalmente daqui do sul) ir ao Uruguai: o preço das coisas. Ao contrário do que muita gente acredita (inclusive eu, antes desta viagem), Montevideo não é um lugar barateiro como os freeshops de Rivera o fazem parecer. Alguns artigos até beiram aos valores do Brasil, mas muitas coisas importantes (comida, por exemplo) podem sair bem caras. Tanto que dá pra tentar imaginar como o povo de lá consegue sobreviver com o que eles ganham de salário mínimo (em torno de 3500 pesos). Não que aqui no Brasil seja diferente (um salário mínimo aqui continua sendo um ultraje), mas a comida em Montevideo é exponencialmente mais cara. Para se ter uma noção, paga-se 35 pesos por um cafezinho (por sinal, o café lá é péssimo) e quase 500 pesos por um prato de arroz com entrecot no Mercado Del Puerto. No Supermercado Tata, a situação não é muito diferente: 45 por um refri 2 litros (que aqui saí por 2 real) e esfaqueamento quando o assunto é carne.

Nhoc!

O grande truque dos mochileiros nesta cidade é se abastecer com lanches que, em geral, saem pelo mesmo valor daqui. Uma hamburguesa (espécie de hamburguer com quase tudo dentro) sai a 50 pesos. Não encontrei bons panchos, mas há inúmeros trailers de rua que vendem 2 por 180 pesos. E já que estamos falando de gastronomia, se um dia fores à Montevideo, não deixe de provar um sorvete artesanal nas barraquinhas da La Cigale, a míseros 37 pesos. O de ferrero rocher é, de longe, o melhor sorvete que já tomei na vida.

E se as pessoas da cidade são peculiares, o que dizer dos pombos? Desde que minha namorada e eu chegamos em Montevideo, percebemos que as aves de lá são o que chamaríamos de "tratadas a Toddy". Só no terceiro dia que descobrimos como os uruguaios alimentam seus bichinhos alados.

ATENÇÃO, SE VOCÊ LEITOR(A) FOR MENOR DE IDADE, CARDÍACO (A), GRAVÍDA OU EMO, SUGIRO FORTEMENTE QUE PARE DE LER AQUI, POIS A FOTO A SEGUIR PODE CHOCAR OS MAIS SENSÍVEIS:

Ah, não percebeu do que se trata? Vamos aproximar um pouco mais...

Ainda não sabe o que é? Chega mais perto...

Como diria meu amigo Sapão...CARAAAAAAIII, MEU, OS BICHO COME CARNE! NINGUÉM ME CONTOU, EU FOTOGRAFEI!

Não é a toa que tiveram de mandar robos gigantes para destruir Montevideo...




A seguir: a noite e a máfia.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Em terra de Artigas – Parte 1.

Sim! Minha namorada e eu perambulamos por Montevideo em quatro dias de muito bate-perna, pechincha, cálculos cambiais, e todo um universo e estilo de vida que nos mostrou o quão intrigante e bela é a capital uruguaia.

Acredito que um único texto não permitirá que eu enumere o que vale a pena na cidade, mas tentarei ser sintético e apontar alguns locais bacanas, dicas e, principalmente, as esquisitices de Montevideo. Acreditem-me, há várias...e tenho fotos disso.


Começo avisando que é muito raro, para mim, viajar. As vezes por problemas de grana, mas principalmente por falta de tempo, acabo postergando esse tipo de experiência e, quando se mostra a oportunidade (leia-se: Gol fazendo promoção de 75 pilas a passagem de avião), daí só há duas formas de fazer a coisa:


- Ou você compra um pacote bonitinho e hermético na CVC;
- Ou você vai de mochilão (e arrasta sua namorada no processo).

Este relato serve para pessoas que fazem suas próprias regras na hora de viajar e não se importam em ficar em hotéis de terceira ou de pegar busão para não ser golpeado nas bolas por um taxista estrangeiro. E falando em táxi, tente não cair nessa ao aterrissar no Aeroporto de Carrasco, o único e ermo aeroporto da capital: entre pagar 400 pesos (equivalente a 40 reais) em um táxi chamado (ou o dobro em um táxi do próprio aeroporto), prefira os 25 pesos (R$2,50) que os ônibus da Copsa cobram pra te levar à civilização.

Peso Uruguaio: para saber quanto vale em Real, divida por 10.

Não há muito o que ver nos quase 50 minutos de viagem até o centro de Montevideo, e o ônibus provavelmente será um de velha safra (muitos dos veículos da cidade pararam no tempo, e isso se aplica principalmente à sua frota viária), mas a música do rádio escolhida pelo motorista – certamente – será um bom e velho Rock’n Roll. De início, pensávamos que se tratava apenas do bom gosto do motorista, até que descobrimos que é unânime entre os condutores o hábito de ouvir boas músicas (dos anos 50 aos 80).

Além do rádio confirmado, há uma chance (grande) de um músico entrar no veículo e começar a tocar por uns trocados (como esses artistas de rua). É impressionante como isso é institucionalizado lá (provável efeito da crise uruguaia, que abordarei mais tarde): em uma de nossas andanças via ônibus, por exemplo, um conjunto de três violeiros entraram e deram um show.

Hotel Arapey: parece ou não parece spam de foto mal-assombrada???

O Hotel Arapey merecia um texto inteiro só pra ele, mas como ando preguiçoso, vai ter de se contentar com um parágrafo. O site do hotel já prometia a melhor relação custo X benefício e uma leva de fotos que mostravam um lugar no mínimo kitsch, mas nada prepara você para um hotel cujo elevador não tem porta interna (uma amiga sugeriu que tentássemos experimentar a sensação de escalar paredes – alá Homem-Aranha – enquanto o elevador subia, e logramos êxito), onde a decoração e o próprio prédio pareciam saídos de uma novela de época da Globo, e onde o quarto tinha UM PALCO (o nosso era o único, demos sorte). Nem preciso dizer que só isso já pagava a viagem.

Quando o assunto é arquitetura, o centro de Montevideo é uma mistura de tudo. Vemos edifícios novíssimos (como o da Presidência, situado na Praça Independência), prédios de médio porte em todos os estados de conservação e, claro, casas e prédios antigos, MUITO antigos (do tipo uns 150 anos, pra mais). O Palácio Salvo, por exemplo, foi uma das construções de época (datado de 1925) que mais me embasbacou: não apenas por seu porte e beleza, mas porque ele ainda hoje é um edifício residencial e, mesmo sendo um tesouro, é proibida a entrada de pessoas que não moram lá. Tive de me contentar em perambular pela gigantesca galeria no térreo.

Palacio Salvo: quem, em sã consciência, NÃO moraria num lugar desses?

É fascinante essa aura de conservação histórica e artística que permeia na cidade toda: das placas douradas com nomes de famílias e profissões afixadas nas portas, às praças bem cuidadas, dos estabelecimentos com charme europeu, às milhares de estátuas e obras espalhadas pela cidade toda. Uma estátua, em especial, é praticamente onipresente em Montevideo (e no Uruguai todo, afinal): o imponente José Artigas, montado em seu cavalo, é uma constante de bronze. Sério, devem existir algumas centenas dessas estátuas do militar pela cidade.


A seguir: o povo, os preços e os pombos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Em breve...

...relatos sobre minha viagem à uma terra mágica, onde os bravos fazem fortuna, estátuas surgem do nada, gigantescas construções e seres fantásticos coexistem, e um cavaleiro de bronze vigia incessante.

Aguardem.

P.S: Não, não comi cogumelos.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Balanço...

Não sei se o ano que passou foi tão bom porque 2007 foi um desastre, ou se foi algo relacionado a posição dos planetas (já que meu inferno astral sumiu de março pra cá). Bem, não vou ficar tentando procurar teorias. Apenas comemoro o fim de um ano incrível para mim. Se no início de 2008 eu não queria por nada fazer um balanço do ano anterior, desta vez o faço com o gosto de quem conseguiu mudar algumas coisas na vida, e pra melhor.

Foi um ano de cautela e preparação para a Arquivo Morto. Com o término das filmagens de Os Batedores em maio, era hora da tão aguardada pós-produção: edição, efeitos, trilha, sonorização e a cópia-zero, que deve chegar agora em fevereiro. O que dizer do que vi até aqui? O Diretor/Editor Filipe Ferreira conseguiu agilizar a narrativa de tal forma que fico pasmo que tenha conseguido em apenas 20 minutos de tela (quando terminei de escrever o roteiro, jurei que era material pra 30 minutos ou até mais). Temos um material veloz (sem ser videoclíptico), engraçado (sem ser forçado) e muito, mas muito bem feito. Rendo os devidos créditos à equipe, que se puxou na produção e na arte. As atuações estão fora da casa e, com certeza, surpreenderão. Nós da AM não fizemos mais nada da vida neste ano, mas valeu a pena: 2009 será o ano para colher os frutos de Os Batedores.

Foi um ano de mudanças no meu lado profissional. Comecei trabalhando em uma empresa de sistemas de segurança onde eu me estressava até nos sonhos e terminei trabalhando em uma velha e conhecida parceira da AM. A grana é melhor, o stress é menor e tenho tempo para tocar meus projetos e estudos enquanto trabalho. Parece estranho, mas é exatamente isso: o que faço hoje me possibilita agir paralelamente sem comprometer minhas funções. Este texto, digitado no meu horário de trabalho, é prova cabal disso.

Foi um ano de trabalho para minhas aspirações literárias. Voltei a labutar em alguns projetos e roteiros (aguaaaaaaardem), bem como iniciei a saga O Futuro é Agora aqui no blog (reinventando o clima futuro-apocalíptico-noir-com-tempero-brazuca dos escritos de Tudo é Passado, do extinto G6). É possível que eu a termine na semana que vem. Quanto ao Sem 666 Palavras, ele continua servindo para desopilar o fígado e informar, ponderar e distrair. Desde que instalei o Google Analytics (em outubro de 2008), computei visitas do Japão à Republica Dominicana, da Turquia à Shenzen, na China. É claro que esses desafortunados caíram aqui sem querer, mas há também informes de que tem umas 15 cabeças que seguem esses escritos religiosamente, e para esses, vai o meu abraço (desculpem crianças, não posso mandar um "beijo do gordo", pois não sou gordo).

Foi um ano de descobertas culinárias. Comecei a me interessar pela arte em novembro e venho aprontando todas na cozinha (com uma professora pra lá de especial). Minha primeira engenhosidade foi um Strogonoff Indiano (se é pra começar, começo chutando alto, né)...e foi um sucesso. Minha mãe vai ter um piripaque quando eu chegar em Tubarão mandando ver.

Foi um ano de buscas intensas atrás de uma moradia decente. Comecei 2008 alugando um quarto-caixa-de-fósforo em um apê deprê e passei por mais três moradas, até engrenar neste lugar onde estou hoje: um quarto em um apê muito bacana e super bem localizado, que comporta todo o conforto do qual preciso e tem ALTO ASTRAL (tipo, finalmente moro em um lugar onde me sinto bem em descansar), isso é primordial.

Foi um ano intenso nas minhas relações pessoais. Meus filhos vêm crescendo cada vez mais fofos, espertos e loucos por mim. Melhorei minha relação com meu pai (até cerveja em um bar a gente tomou juntos, veja só). Alguns amigos se distanciaram e outros tornaram-se verdadeiros faróis nas noites escuras (que neste ano foram muito poucas). Renovei laços com velhos comparsas. Reforcei a amizade do meu melhor amigo como nunca. E em uma noite fria de junho, conheci uma pessoa...e descobri o amor.

E nada melhor do que findar este ano tão incrível que foi 2008 na companhia desta mulher tão especial. Nada de fogos, nem badalações, nem exageros. Apenas um hotel retirado em Tapes/RS, em uma pequena praia deslumbrante da Lagoa dos Patos (o último recanto de praia realmente limpa do Estado), com água até onde sua vista alcança. Na virada: frutas, uma garrafa de Moscatel, duas taças e nós dois, em uma tendinha árabe só nossa. Não precisávamos de mais nada. Estava tudo ali, e foi perfeito.

Se 2008 foi tão especial, então ao menos posso dizer que 2009 começou mágico. Como todo mundo, faço votos para que continue sendo tão bom quanto esses dias de renovação, e fico na torcida para que esses tempos, que já são maravilhosos, fiquem ainda melhores...

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Carnaval 2008 – Segunda Parte – A Família

A expectativa era grande na casa dos Pedroso naquela noite de sexta. O primogênito da família (eu) estava pra chegar de uma viagem cansativa, cheia de caminhos tortuosos que serviam para contornar uma BR-101 em obras.

Sete horas depois de sair de Porto Alegre, chego na casa da minha mãe e descubro que a tal expectativa só era grande porque faltava apenas eu para poderem sair e pular o famoso carnaval de rua de Tubarão. Mal tomei banho e já estava na avenida, pulando feito doido uma música que, em outros carnavais, me daria embrulho no estômago. Mãe, irmãs, prima, cunhado, e uma moça muito especial que fazia tempo que eu não via, me acompanhavam na folia. Alguns (como eu), bebendo cerveja atéééé...outros (as) mais recatados (as), apelando para doses moderadas de guaraná.

A festa seguiu bem até um empolgado resolver quebrar uma cadeira nas paletas de um infeliz. Comoção. Galera correndo e brigadianos chegando passivamente, como se fossem foliões fantasiados de PMs e suas viaturas fossem fuscas disfarçados.

Era umas 3 e poucas quando a polícia resolveu cessar o som e mandar todo mundo para as suas casas. É claro que todos ficamos acordados para colocar os assuntos em dia, e não eram poucos:

- Como tá o trabalho?
- Como tá a facul?
- Como tá o Piá?
- Tá namorando?
- Como estão os filmes?
- Tens te alimentado?
- E o lugar onde tu tá morando?
- Como tá teu pai?
- Tens te alimentado?
- Tens te alimentado?

Mães. Sabem como é. Embora muitos por aí tenham rusgas com as suas, eu sempre me dei surpreendentemente bem com a minha. Se tivemos nossas diferenças, daria pra contar nos minutos de uma hora, no decorrer de toda uma vida. Uma boa média, eu diria.

Falamos sobre todo o tipo de assunto possível e eles me contaram as novidades, que nunca são novidades, tendo em vista a cidade onde vivem. Tubarão é o tipo de lugar que cresce apenas verticalmente. Quem tem dinheiro, se dá bem. Quem não tem, não tem e pronto. Era isso. Toda vez que tenho que ir pra lá (e só vou porque minha filha e minha família moram lá), constato que nem um tijolo é mudado na cidade toda. E o sotaque...ah meu Deus, a pior parte e o sotaque.

Curiosamente, o tempo resolveu mudar daquele fim de semana em diante. Passei frio por não levar roupas de outono e a chuva fininha chegava nas piores horas. Isso tudo porque, neste ano, a cidade tinha resolvido fazer carnaval de rua em três dos quatro dias de feriadão. Depois desta primeira noite, passei o resto do tempo em casa.

Mais assuntos em dia, iguarias culinárias feitas pela minha irmã, que tem mãos de ouro para cozinhar (lamento, ela já é casada) e a jogatina inerente aos Pedroso. Sim, somos uma família de jogadores de baralho. O predileto do pessoal é a Tranca, uma espécie de canastra anabolizada onde um “3” pode ser sua salvação ou sua perdição. Certa vez, alguém me disse que a única coisa que me restava na vida era ser “um jogador”. Bem, não posso dizer que jogo mal, uma vez que fui criado em meio a pessoas que “adivinham” as cartas que estão nas mãos dos adversários. Algo do tipo “porque não jogaste o valete que tá na tua mão há quatro rodadas???”

Entre uma carta e outra, toda sorte de pautas eram colocadas pelos jogadores. O mais polêmico sempre foi meu padrasto, que viajava de política para religião num piscar de olhos. Ele é do tipo divertido, com uma visão, eu diria, peculiar sobre as coisas. Tento incutir um pouco de “visão geral das coisas” naquela cabecinha. Nem sempre dá certo. Tente misturar Javier Barden e Crocodillo Dundee e talvez tu chega perto.

Família, filhota, um pouquinho de descanso e uma certa pessoa. Na segunda-feira de noite, fizemos um happy hour numa famosa lancheria da cidade. A família, alguns amigos e ela. Era algo meio de destino. Quando nos conhecemos, foi afinidade a primeira vista: ela havia iniciado o curso de enfermagem e eu recém tinha me casado pela segunda vez. Lembro de tê-la achado especial no primeiro minuto, mas nossa situação de vida nunca havia dado qualquer chance de qualquer coisa. Eu sempre comprometido e ela sempre na correria. Até que justamente nesse feriadão de carnaval, nos descobrimos sem barreiras, sem empecilhos, livres. Toda sua história de vida, personalidade e beleza sempre me foram motivos de admiração. Sabia que ninguém era perfeito, mas acredito que a perfeição, assim como a arte, está nos olhos de quem a vê, então não tive dúvidas. Por mais que o lugar não fosse o mais românico do mundo, não correria o risco de perder a oportunidade de, quem sabe num mundão perfeito, ficar com alguém assim: pedi a moça em namoro. Depois de tanto tempo que eu não fazia isso, tive medo de que eu houvesse perdido a prática.

Ela ficou de pensar.

Voltei para Porto Alegre com aquela sensação de que o ano finalmente daria a guinada que eu esperava tão ansiosamente. Um sentimento de que a vida podia melhorar e o futuro, embora incerto, tinha perspectivas muito otimistas.

Quatro dias depois, ela me mandou um e-mail. Agora tenho um ótimo motivo para gostar de carnaval...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Carnaval 2008 - Primeira Parte - A Morena

Viajei para Tubarão nesta sexta-feira, para passar o feriado de carnaval longe desse arco incerto que virou Porto Alegre para mim nos últimos tempos, e para rever minha família e minha filha.

Como carnaval, dizem por aí, também é uma época de festas, vou dividir o relato em duas partes...

Esta parte é sobre a minha filhota, a quem chamo sempre de “Morena”.

A Morena, hoje, tem sete anos de idade. Sim, muita gente me olha com olhos de prato toda vez que digo que tenho filha deste tamanho, mas a verdade é que abri a fábrica bem cedo. E que fábrica. Se eu tivesse de descrever a Morena em uma expressão, acho que seria “um luxo”. Sabe aquela pessoa que ilumina um ambiente assim que chega? É ela. É algo que se descobre logo no cumprimento: tu falas “muito prazer” e ela te responde “o prazer é todo meu”, te dando um firme aperto de mão. Como se não bastasse, é uma dama para fazer qualquer coisa em público: ela não senta, repousa. Ela não anda, desfila. Ela não pára, posa. Quando ela dança, ninguém faz frente. Seu porte magro e sua postura lhe conferem uma altivez que faria qualquer princesa ficar roxa de inveja. Fantástica.

Embora esteja na terceira série, a Morena é capaz de ter sacadas geniais. De deixar muito adulto no chinelo. Possui uma inteligência e capacidade de discernimentos impressionantes. Ela tem todas as respostas para todas as perguntas do mundo, e todas elas na ponta da língua. Se, num aborto do destino, pegar a Morena sem resposta, ela cerra os olhos, faz bico, fecha a cara e cruza os braços, desarmando o perguntador inconveniente.

Quando cheguei na casa dela, no sábado, fui logo recepcionado com um longo abraço e beijos pela Morena. A mãe, minha primeira ex, disse que a mocinha havia desistido de ir a uma festinha de aniversário de uma amiguinha somente para me esperar.

- Não vai na festa, filha?
- Meu pai já é uma festa.

Sempre me impressiona a quantidade de amor que a Morena tem por mim. Mesmo a distância sendo grande e nosso contato muito pouco, este sentimento dela só aumenta e ela demonstra isso com tanto carinho que meu coração sempre acelera quando a vejo. É a filha mais carinhosa do mundo. Levei-a para a casa da minha mãe e passamos todo o carnaval juntos. Brincando. Passeando. Matando as saudades.

É triste de constatar o quanto o tempo fica curto quando ele é bem aproveitado. Foi tudo muito rápido. Mal piscamos e já era terça-feira. Eu tinha que voltar a Porto Alegre e ela tinha que ficar em Tubarão. Certa vez meu pai me perguntou como é que eu fazia para ser tão frio nessas despedidas. É só olhar aqueles olhões cheios de lágrimas da Morena pra sacar que a grande verdade é que a despedida é sempre um tiro no peito e eu sempre morro um pouquinho nela. Tento fazer minha parte e não deixar transparecer que estou acabado, mas só porque eu tenho que fazer isso. Alguém tem que ser durão nessas horas. Faz parte do processo.

Minha sorte é que meus filhos são minhas certezas de que as coisas vão melhorar e isso me conforta. Sei que logo poderei voltar, rever e matar as saudades novamente da minha Morena.

Não há nada melhor do que esta certeza.