Mostrando postagens com marcador Sobrecarga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sobrecarga. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Entre golpes e sutilezas.

Texto publicado originalmente em 31 de março de 2005, no site www.sobrecarga.com.br

Após três anos de espera, finalmente consegui colocar os olhos em
Herói, filme dirigido por Zhang Yimou (O Caminho Para Casa) e protagonizado pelo sempre caris
mático e igualmente veloz Jet Li (O Confronto).

O longa teve sua estréia no oriente em 2002 (chegou a concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro na época) e, não fossem por Quentin Tarantino (o diretor de Pulp Fiction que fez a cabeça dos chefões da distribuidora Miramax para lançar Herói no ocidente), continuaria por lá mesmo (o trato foi simples: Tarantino emprestaria seu bom nome para fazer a chamada do filme). Demorou exatos dois anos para que Herói chegasse aos Estados Unidos, e mais um para que aportasse por aqui.

Toda esta espera acabou valendo a pena, tanto para a Miramax, quanto para os afortunados (como eu), que puderam conferir o épico chinês que conta como o guerreiro Sem Nome (Jet Li) derrotou sozinho os três espadachins mais poderosos de seu tempo, para garantir a integridade física do soberano Qin (Daoming Chen), senhor da província do norte, no tempo em que a China era dividida em sete territórios.

Simples como andar de bicicleta, esta introdução é apenas o rufar de tambores para o grande espetáculo, narrado através da direção serena de Yimou, da fotografia espetacular de Christopher Doyle (O Americano Tranqüilo) e, claro, das cenas de lutas (de deixar “Tigres” e “Dragões” roxos de vergonha) que tomam o status de coadjuvantes de luxo, dando a bola da vez para o roteiro de poucas palavras e sutilezas quase subliminares, que nos mostra que nem tudo é o que parece ser e toda história tem mais de uma perspectiva.

Para enfatizar este recurso da história (comparado ao filme Rashomon do diretor Akira Kurosawa, onde há várias versões para um assassinato, até a do morto), as cores de cenário e figurino mudam conforme os flashbacks, sublinhando as facetas da narrativa com significados obscuros e óbvios ao mesmo tempo: azul para amor e esperança, verde para juventude, branco para verdade e preto caracterizando a morte, sempre. Até o vermelho, usado inicialmente, denota claramente paixão e traição, como se o próprio semblante dos protagonistas fosse dotado de lascívia nesta parte da narrativa. Não só o imperador Qin, como o mais arguto dos espectadores notarão que há algo que não cheira bem ali.

Como se não bastasse, há que se tirar o chapéu para o elenco afiado. O ator Tony Leung, que fazia parceria com o diretor Jonh Woo quando este ainda tinha suas origens nos filmes de máfia chinesa, mostra a que veio, emprestando uma atuação sublime ao guerreiro Espada Quebrada e sua parceira de cena (Maggie Cheung, como a explosiva Neve Que Voa) também não deixa por menos. Uma pena que a bela Zhang Ziyi apenas tenha reprisado seu papel de aprendiz temperamental (idêntico ao feito anteriormente no filme O Tigre e o Dragão do diretor Ang Lee), mas isso deve mudar com o vindouro O Clã das Adagas Voadoras, onde a moça entra na pele de uma guerreira cega e tinhosa. E, por último, mas não menos importante, tem Jet Li, que sempre paga o filme.

Se todos estes predicados não forem suficientes para que você saia voando para o cinema mais próximo, então resta dizer que o filme de Yimou tem todas as chances de figurar na prateleira de obras primas num futuro próximo, e que suas cenas imbatíveis provavelmente perderão metade da graça em uma tela que seja menor que 3 metros.

***

Dica de filme:

Herói (Ying Xiong)
Diretor: Zhang Yimou
Elenco: Jet Li (Sem Nome), Tony Leung (Espada Quebrada), Maggie Cheung (Neve Que Voa), Daoming Chen (Qin), Zhang Ziyi (Lua)
Duração: 96 minutos
Gênero: Ação
Ano: 2002

O reassisti na sexta passada. É impressionante como este filme não envelhece: continua belíssimo como imagem, e como história.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

De aniver.


Praticamente um monstro sagrado da comunicação brasileira, o Sem 666 Palavras completa hoje dois anos de existência, trazendo para os poucos - mas fiéis - leitores deste blog, algum material bacana, comentários sobre cinema, notícias, histórias e uma palhinha da vida deste que vos escreve.

Mas afinal, por que diabos surgiu este blog? Bom, quem se dignar a ler os primeiros posts, verá que, inicialmente, ele surgiu como uma espécie de desabafo: lembro bem que naquela época, lá por outubro de 2007, minha vida estava uma merda em todos os sentidos.

Não vale a pena relembrar este mar turbulento, mas é fato que, à medida que as coisas foram melhorando (tanto no pessoal, quanto no profissional - ops, isso é grave: já parafraseei o Faustão duas vezes em um único texto), deixei de usar o blog como uma válvula de escape e passei a construir uma forma de me divertir e me comunicar. Resumindo, quando deixei de ser um cara sisudo, o S666P deixou de ser um blog pesado (embora ainda seja um blog pessoal).

Como bom cinéfilo e pretenso cineasta, passei a me fixar em críticas de filmes, séries, dicas de curiosidades internéticas, comentários sobre notícias, pensamentos, textos e outras coisinhas menores (que chamo carinhosamente de Conta-Gotas) que mostram um pouco do que penso e sinto sobre este mundo doido, bem como minhas preferências nos mais variados assuntos.

Desde que instalei o Google Analytics (há 1 ano), o blog registrou quase 7 mil acessos (um pouco menos que os acessos de um dia do MDM, acho =P) e, destes incautos que passam por aqui, pelo menos uns 20 acessam o S666P religiosamente (tipo todos os dias - destes, devo conhecer uns 3 pessoalmente), o que me deixa muito satisfeito.

A maior parte das origens dos clics segue sendo a busca do Google, responsável por 1/3 dos acessos: são pessoas que pesquisam os mais variados assuntos e acabam caindo aqui, de supetão. Como o S666P também é um serviço de utilidade pública, segue alguns pareceres relativos às palavras-chave mais pesquisadas:

Mensagens Sublimes -> Escrevi um único post sobre "Mensagens Sublimes em Lugares Estranhos" (que peguei de uma porta de banheiro) e foi o suficiente para mais de 200 pessoas acabarem aparecendo por aqui, procurando mensagens fofinhas ou algo para pensar. Lamento informar que este blog não é profundo e o que chega mais próximo das palavras de sabedoria que vocês procuram são os Biscoitos da Sorte que eu vivo chupinhando do pobre Confúcio. Fora isso, o site Mensagens Virtuais traz uma penca dessas frases de pára-choque de caminhão que você pode usar para parecer esperto ou profundo (ou um esperto profundo).

Prison Break -> Uma crítica a respeito do finado seriado foi o suficiente para despertar a curiosidade de quase 500 pessoas que procuravam (e procuram) toda sorte de informações sobre a história de Michael Scofield e Cia. A maior parte das dúvidas é sobre a doença de Michael (Baixa Inibição Latente) ou sobre qual foi a penitenciária que inspirou a prisão panamenha da 3ª temporada (foi inspirada no Carandiru). Embora quase ninguém faça comentários neste blog, este texto conseguiu a façanha de angariar até um xingão de um fã da série (anônimo, claro). #falemmalmasfalemdemim.=P

Defesa Chewbacca -> O post sobre a famosa defesa diz tudo. Se ainda assim não entendeu (porque não fez sentido ou algo assim), seus fusíveis de humor devem estar queimados. Procure um médico (que não goste de Friends).

Academia Phisical Center -> É impressionante, mas toda semana tem alguém chegando no blog porque procurou informações sobre a academia que eu frequentava há dois anos atrás (que citei aqui), o que me leva a crer que a mesma academia (embora muito boa) ainda não fez um site decente para direcionar o público. O mais próximo disso é um spaceblog bem ruinzinho, que não condiz em nada com a boa estrutura do lugar. Uma pena.

Máquina de Matar -> Psicopatas procuram por meios autômatos de se livrarem de outras pessoas...no meu blog, graças à crítica que fiz sobre o filme Tubarão. No próprio texto, enumerei que, embora o tubarão seja um perfeito predador, trata-se de um bicho sossegado que não quer machucar ninguém. Mas se a idéia é procurar por máquinas assassinas que figuram no cinema ou na TV, sugiro que procurem no Cine Bizarro, um blog com o que tem de melhor no universo da ficção científica de horror e outras coisinhas boas (tipo filmes trash, gore e muitas raridades). Bon apetit.

Spectral Watchmen -> Não consigo pensar em outro motivo para haver tanta procura pela Spectral se não por fotos do tipo rated 18. Sim, Malin Akerman veste um colant como ninguém, mas este blog ainda não é pornográfico, então...sugiro aos mais afoitos que procurem por material através do nome da atriz. Tá, eu sou gente fina: o filme Harold & Kumar Go to White House pode até proporcionar alguma coisa. Digita isso no Google junto com o nome da atriz e clica em imagens. O resto é com vocês.#prontofalei.

Sem Meias Palavras -> Este aqui é o campeão absoluto de visitantes desavisados: o pessoal entra aqui direto achando que vai dar de cara com o Givanildo Silveira ou com o lendário Jeremias. NÃO! Lamento informar que o nome deste blog não passa de uma armadilha cachorra do dono do mesmo para angariar visitas, e o Deus Google sabe o quanto funciona, hehe. O programa Sem Meias Palavras (exibido no Pernambuco pela TV Jornal, de Caruaru) não possui site próprio, mas suas matérias são sempre as mais acessadas no You Tube. Para conferir uma palhinha de Jeremias, a maior pérola já veiculada pelo programa, clique aqui. Para ver a versão remix (que é melhor ainda), clique aqui.

É claro que há muitas outras palavras-chave que são usadas constantemente para chegarem no S666P (algumas muito curiosas, inclusive) e eu gostaria muito de abordar todas elas, porém, por falta de tempo, me resumirei a dizer que, se estiver procurando algo que parecia estar aqui e não estava, manifeste-se, deixe um recado dizendo o que procura: duas cabeças pensam melhor que uma, e eu certamente não diria isso se não houvessem MUITAS pessoas cujas pesquisas se repetem e acabam por cair aqui.

No mais, são dois anos falando de tudo um pouco e, mesmo este pouco, sempre escrito com muito carinho. Não sei exatamente até quando este blog permanecerá ativo, ou que rumo ele pode tomar daqui há uma semana, um mês ou no ano seguinte, mas aos que seguem lendo até hoje, meus agradecimentos: um salve ao pessoal dos 51 países que perambulam por aqui, e um abraço especial aos leitores de Porto Alegre, Barcelona, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Lisboa, Porto, São Leopoldo, Belo Horizonte e Santa Cruz do Sul. Estes são os lugares onde residem os leitores assíduos (os mais especiais) e a esses uma intimação: manifestem-se, comentem, podem pintar e bordar por aqui que eu não mordo...muito.;-)

P.S: Para os já leitores e os que chegaram agora, no marcador "Sobre o Blog" vocês encontram um release do que significa cada marcador (para entender melhor onde procurar o que deseja e do que trata cada assunto).

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A Dança da Morte.

Texto publicado originalmente em 05 de dezembro de 2005 , na coluna Passado a Limpo, do site www.sobrecarga.com.br

Provavelmente, grande parte dos leitores desta coluna – os que são fãs do
chamado western spaghetti, principalmente – já deve saber com qual filme fecharei esta trindade do bang-bang, iniciada há dois textos atrás.

O filme Era Uma Vez no Oeste, do diretor Sergio Leone, não é somente o melhor filme de faroeste já rodado: ele é considerado, por muitos críticos, como uma das maiores experiências já realizadas no cinema.

Os nomes que trabalharam para esse feito são alguns dos motivos que fizeram desse longa um espécime único, imortal. A começar pelo próprio Leone, cujo nome já era grande conhecido na caracterização do Oeste Selvagem com a famosa "trilogia dos dólares" (Por um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito, todos protagonizados por Clint Eastwood). O diretor era muito conhecido também por conciliar tomadas longas, close-ups desconcertantes e impressionante fotografia (assinada nesse filme por Tonino Delli Colli), aliado à habilidade de direção de atores que poucos possuem. Tudo com maestria indiscutível.

Todos esses predicados, juntamente com um elenco e roteiro perfeitos (esse último baseado em história escrita por Leone, Bernardo Bertolucci e o mestre do horror Dario Argento), foram o suficiente para imortalizar essa pérola da ganância, do cinismo, da corrupção e, principalmente, da vingança. É a história de Jill McBain (Claudia Cardinale, belíssima), uma viúva que de donzela não tem nada, disposta a copular com o assassino do marido somente para livrar a própria pele. É a história de Frank (Henry Fonda), o sujeito mais cruel que já pisou no Oeste, um homem que não titubeia em matar uma criança à queima-roupa por pura maldade. É a história de ”Harmônica” (o saudoso Charles Bronson), um pistoleiro sem nome e de passado obscuro, capaz de matar três homens em frações de segundo. É a história de Morton (Gabriele Ferzetti), um inescrupuloso barão dos trilhos que não mede esforços (nem dinheiro) para alcançar seus objetivos. Não é de admirar que, em um universo habitado pelos piores tipos, os bons morram como moscas, e a personagem menos desprezível seja justamente o foragido Cheyenne (o carismático Jason Robards), um ladrão e assassino com a cabeça a prêmio.

As voltas da ampliação da malha ferroviária nos Estados Unidos do século 19, Bret McBain (dono das terras por onde deve passar uma das rotas da estrada de ferro) e sua família são brutalmente assassinados. Jill, uma prostituta de New Orleans que casara com McBain em segredo, herda as tais terras e, com elas, essa herança sanguinária, característica da própria história americana – como visto nos outros dois filmes que o diretor fez para “homenagear” a América (Era Uma Vez no Oeste constitui essa trilogia, ao lado de Quando Explode a Vingança e Era Uma Vez na América). A mulher, ameaçada pelo assassino dos McBain, recebe a improvável proteção de um misterioso e habilidoso pistoleiro (que toca uma gaita de boca como um prenúncio de morte e, por isso, leva o nome de “Harmônica” ou – como em alguns DVDs – “Gaita”), e a ajuda de um criminoso conhecido (Cheyenne), acusado erroneamente pelas mortes.

Entre as tomadas longas já citadas (explorando a fotografia árida) e as cenas de tiroteio impressionantes, os diálogos disparam chispas para todo lado, fazendo uma menção clara ao pessimismo que aflige a sociedade, inclusive nos dias atuais, o que faz desse filme um espécime atemporal (em certa cena, Cheyenne menciona a Harmônica que existem “fariseus” em qualquer época). Essa característica negativa era uma marca forte de Leone, que fazia questão de bradar aos quatro ventos que o projeto era como uma dança da morte, onde todas as personagens, com exceção de Jill, têm plena consciência de que não chegarão vivos até o final da película.

Spoiler? De jeito nenhum. O que importa é como isso é orquestrado ao longo dos 166 minutos; é como a narrativa parte de um trio de mal-encarados esperando um trem (numa das entradas de filme mais longas e clássicas de todos os tempos, quase 14 minutos) e como ela chega a um desfecho magistral, onde dois homens, de olhos sombrios como a morte e gatilhos rápidos como um raio, se enfrentam no duelo mais espetacular já filmado, ao som da trilha arrepiante do mestre Ennio Morricone (colaborador-mor de Leone e responsável por outras trilhas cruciais, como a de Os Intocáveis, por exemplo). Uma ode à vingança.

Em uma dessas curiosidades insanas, esse filme não levou sequer uma indicação ao Oscar, o que nos leva a constatar, mais uma vez, que a Academia não entende muito de obras de arte. Mesmo que Henry Fonda esteja sublime no único papel de vilão de sua vida (bem como todo o elenco), ou que a direção, a montagem e a fotografia tenham sido perfeccionistas e vicerais, ou mesmo que a trilha sonora seja um achado.

É uma pena que grande parte das pessoas que fizeram de Era Uma Vez o Oeste uma obra-prima não esteja mais entre nós. Gente talentosa, que nos mostrou como o cinema vai além de meras imagens e meia dúzia de frases feitas e como se faz um filme de verdade, baseado em talento e dedicação. Um brinde a Sergio Leone.

Aqui fecho a Santíssima Trindade do Western, com a sensação de dever cumprido ao apresentar esses espécimes raros, principalmente, a esta nova geração de amantes do cinema, que devem descobrir que filmes bons, assim como fariseus, existem em qualquer gênero, em qualquer época.

***

Dica de filme:

Era Uma Vez no Oeste (C'era una Volta il West)
Diretor: Sergio Leone
Elenco: Jill (Claudia Cardinale), Frank (Henry Fonda), Cheyenne (Jason Robards), Harmônica (Charles Bronson), Morton (Gabriele Ferzetti)

Duração: 166 minutos
Gênero: Western
Ano: 1969

quinta-feira, 26 de março de 2009

O que chega com a tempestade.

Texto publicado originalmente em 17 de novembro de 2005 , na coluna Passado a Limpo, do site www.sobrecarga.com.br

Àqueles que não gostaram do gênero debatido no último texto publicado nesta coluna, sugiro que sigam para uma outra parte do site de sua preferência, pois pretendo, nas próximas linhas, abordar o segundo filme de uma leva que considero a “Santíssima Trindade” do western no cinema.

Diferente do que fiz com Matar ou Morrer no texto anterior, não precisei atravessar meio século para encontrar o próximo faroeste cuja estrutura de narrativa, sinopse, direção, atuações e roteiro me deixassem de queixo caído. Esse espécime surpreendeu em plenos anos 90.

Bingo para quem lembrou de Os Imperdoáveis, a obra prima que marcou o retorno triunfal da lenda viva Clint Eastwood ao gênero que o consagrou como ator nos anos 60 e 70.

É sabido que Eastwood não fez seu grande nome somente entre tiros e cavalos. Desde 1971 que o septagenário cineasta se aventura por trás das câmeras em dramas contundentes e aventuras contemporâneas. Com o passar dos anos e somando experiência a cada filme que dirigiu, Clint deixou o estereótipo do pistoleiro durão para trás e passou a comandar seus projetos dramáticos com a tranqüilidade e a sutileza de um grande diretor.

Curiosamente, é aí que começa a história de
Os Imperdoáveis: Will Munny (Clint) deixou para trás a vida de pistoleiro durão e cruel (o paralelo com a própria história do ator é
inevitável) e resolveu tocar uma fazenda no Kansas com a ajuda dos filhos pequenos. Ao contrário de Clint, o fazendeiro está com os bolsos vazios e, como desgraça pouca é bobagem, sua criação de porcos (único sustento da família) está adoecendo. Como que mandado pelos céus (ou pelo próprio Capeta), surge o jovem Schofield Kid (Jaimz Woolvett) e faz uma proposta a Will: uma recompensa de 1000 US$ dividido aos dois se o matador aposentado acompanhá-lo no encalço de dois vaqueiros que retalharam o rosto de uma prostituta na longínqua cidade de Big Whiskey.

Deste jeito, como se o passado de Munny batesse a sua porta, o protagonista tem o seguinte dilema nas mãos: ou volta a matar por dinheiro uma última vez, ou morre de fome. Não demora muito para vermos Will, Ned Logan (seu antigo parceiro, interpretado por Morgan Freeman) e Kid seguindo em direção à Big Whiskey, o lar dos tais vaqueiros, das prostitutas que colocaram as cabeças desses a prêmio e do violento xerife Little Bill Daggett (Gene Hackman), que não está gostando nadinha desta história, uma vez que a tal recompensa promete trazer um banho de sangue ao seu distrito.

Enquanto o trio se aproxima da cidade junto com uma carregada nuvem, outros pistoleiros chegam no lugar, atraídos pelos 1000 dólares. Dentre eles, está o famigerado Bob, o Inglês (o finado Richard Harris), um matador cuja adoração pela Rainha da Inglaterra é proporcional à sua mira.

Não demora muito para que o circo pegue fogo, pois mais do que fama ou fortuna, é um duelo de egos que está vigorando: o ex-bandido bêbado e sanguinário que se vê cada vez mais perto de seu passado aterrador, os matadores calejados que buscam a recompensa, as meretrizes com sede de vingança, o xerife que protege a cidade com uma justiça duvidosa, tudo entorna em uma fatídica e arrepiante cena final, coroada com uma tempestade que profetiza um verdadeiro massacre.

Indicado em 9 categorias e recompensado com 4 Oscars em 93 (Melhor Filme, Melhor Direção para Eastwood, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Montagem), o projeto marca a primeira parceria de Clint e Freeman nas telas, mostrando uma química difícil de se ver por aí e reprisada recentemente no ótimo Menina de Ouro. Vale a pena enumerar também a atuação impecável de Gene Hackman, que empresta frieza e sarcasmo à Little Bill (e fora agraciado com um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por isso). Num desses acasos da vida, Hackman havia recusado o papel do xerife, voltando atrás da escolha somente por muita insistência de Clint (que também é o produtor do longa), que fazia questão de tê-lo no páreo.
Consagração merecida, também, ao eterno Clint, que levou sua primeira estatueta de melhor diretor, consolidando a qualidade desse cineasta nos dois lados da câmera. Duas outras indicações nesta categoria vieram a seguir nos filmes Sobre Meninos e Lobos e Menina de Ouro, sendo que o diretor arrebatou o segundo Oscar neste último.

Nota-se, então, que Os Imperdoáveis pode ser considerado um grande marco. É um dos meus filmes favoritos e top three, para mim, no gênero western maduro, de conteúdo. Poderia enumerar uns dez filmes chamados “mais clássicos” nessa categoria, mas quantos deles nos fazem pensar?

Aguardem o próximo texto, que fechará esta trilogia do bang-bang, julgo eu, com chave de ouro. Para os mais curiosos, apenas uma dica:

Harmônica...


***

Dica de filme:

Os Imperdoáveis (Unforgiven)
Diretor: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood (Will Munny), Gene Hackmann (Little Bill Daggett), Morgan Freeman (Ned Logan), Jaimz Woolvett (Scholfield Kid), Richard Harris (Bob, o Inglês)

Duração: 131 minutos

Gênero: Western

Ano: 1992

segunda-feira, 2 de março de 2009

Muito Antes de 24 Horas.

Texto publicado originalmente em 20 de outubro de 2005 , na coluna Passado a Limpo, do site www.sobrecarga.com.br

A maioria dos adeptos da fórmula de tempo real (na qual cada minuto em tela eqüivale à um minuto na vida real), apresentada na série de TV 24 Horas, devem desconhecer que tal artifício já é utilizado por grandes produções do cinema há muito, muito, muito tempo.

Anos antes de Kiefer Sutherland pensar em nascer, o diretor Fred Zinnemann (responsável por pérolas como A um Passo da Eternidade e O Homem Que Não Vendeu Sua Alma) já utilizava o recurso do tempo real para tecer um dos mais contundentes westerns de todos os tempos.

Em 1952, o filme Matar ou Morrer chegava para fazer história. O projeto contava não apenas com o timbre de Zinnemann, mas também com a estampa de dois dos maiores astros de Hollywood: o galã Gary Cooper, que já estava na sua 53ª primavera, e a belíssima Grace Kelly, que dispensa comentários.

A trama, diferente dos filmes do gênero da época (que apostavam suas fichas em tiroteios coreografados) girava em torno do xerife Will Kane (Cooper), um homem correto e respeitado em sua cidadezinha, que recebe uma carta, no dia de seu casamento, de um bandoleiro que mandara para a prisão tempos atrás. O conteúdo da missiva é direto e sem vaselina: no trem do meio-dia, Frank Miller (Ian MacDonald) e seus comparsas desembarcarão na estação de Hadleyville para matá-lo. Imediatamente, o Xerife Kane estufa o peito, convencido de que finalmente dará a Miller (casualmente ou não, o mesmo nome do criador de Sin City) a lição que ele merece. Bastava apenas reunir um contingente decente junto aos cidadãos e esperar o bando na estação, certo?

Errado!

Deste ponto em diante, cada segundo da película mostra exatamente o oposto do que se convenciona de uma cidade que, até aquele momento, era um exemplo de paz e união: Will começa a ver seu mundo ruir a cada recusa de ajuda que leva, aliados aos pedidos de Amy (Kelly), sua noiva, que roga para que o benfeitor da lei desista da idéia de esperar pelo bando e fuja da cidade o mais rápido possível. Nesta parte da narrativa, o recurso de tempo real funciona como um duelo de nervos: os minutos que passam em closes estratégicos nos relógios de parede, contra a iminência de um duelo que, com certeza, resultará em tragédia.

Além do roteiro bárbaro de Carl Foreman (baseado em estória de John W. Cunningham) e a direção impecável de Zinnemann, a atuação bombástica de Cooper (agraciado com um Oscar pelo trabalho) alavancou a qualidade do filme de tal maneira, que é quase impossível não se identificar com os sentimentos demonstrados por Kane: desde a coragem inabalável de um herói confiante (logo no início do longa), passando pela dúvida entre cumprir seu juramento de manter a lei ou salvar sua pele, até a desolação no final (numa das cenas mais marcantes que já vi) onde Will olha para os lados e não encontra ninguém em quem se apoiar, enquanto o trem das 12 chega ameaçador. Um espetáculo.

Seria sacanagem das piores se eu contasse o que acontece depois disso e privasse os leitores desta coluna de saborearem uma das melhores seqüências já registradas em tela. O resultado disso foram sete indicações ao Oscar, sendo que quatro deles foram abocanhados pelo projeto (o de Melhor Ator para Cooper, Melhor Edição, Melhor Canção Original para High Noon (Do Not Forsake Me, Oh My Darling) e Melhor Trilha Sonora). Curiosamente, o papel de Will Kane havia sido oferecido anteriormente para Gregory Peck, que o recusara por achar a personagem muito similar ao papel que havia feito em O Matador, de 1950. Um daqueles casos em que o produto saiu melhor que a encomenda.

Como se vê, tudo salva-se em Matar ou Morrer, mesmo que alguns avessos de filmes antigos reclamem que o preto e branco é coisa do passado, que o faroeste é um gênero bitolado, ou que os atores assalariados* são uma espécie em extinção. Quando um filme transcende expectativas para figurar no rol dos clássicos, nem o tempo pode lhe ser implacável.

Jack Bauer que o diga...

*: Nos idos de 1950, os grandes estúdios agregavam atores e atrizes da época como assalariados, que recebiam mensalmente mediante contrato de trabalho. Bem diferente de hoje, onde os astros são pagos por trabalho realizado e sem vínculos com as distribuidoras.

***

Dica de filme:

Matar ou Morrer (High Noon)
Diretor: Fred Zinnemann
Elenco: Gary Cooper (Xerife Will Kane), Grace Kelly (Amy Kane), Thomas Mitchell (Jonas Henderson), Lloyd Bridges (Harvey Pell), Katy Jurado (Helen Ramirez), Ian MacDonald (Frank Miller)
Duração: 84 minutos
Gênero: Western
Ano: 1952

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A Perfeita Máquina de Matar.

Texto publicado originalmente em 30 de janeiro de 2006, na coluna Passado a Limpo, do site www.sobrecarga.com.br.

O ano de 1975 foi marcado por inúmeros acontecimentos: era lançado o primeiro computador doméstico (Altair 8800), Niki Lauda conquistava seu primeiro título mundial na Fórmula 1, a Indonésia invadia o Timor Leste e Angelina Jolie nascia em Los Angeles. É verdade, porém, que apenas um acontecimento marcou para sempre esse ano, deixando todos os outros já citados na sombra.

Naquele tórrido verão de 75, os farofeiros trocariam as praias pelo cinema com a chegada de Tubarão às telas. Adaptação do best-seller de Peter Benchley, o filme dirigido pelo novato e desconhecido Steven Spielberg contava a história de Amity, uma cidadezinha litorânea americana às voltas com um imenso tubarão branco que resolve se instalar por lá e devorar os banhistas.

Já era!

O chefe de polícia Martin Brody (Roy Scheider, de Operação França), responsável pela segurança do lugar, tenta interditar a praia sem sucesso, restando-lhe uma última alternativa: caçar o bicho ao lado do ictiologista Matt Hooper (Richard Dreyfuss, ótimo) e do pescador casca grossa Quint (Robert Shaw).

"Acho que precisaremos de um barco maior..."

Com essa simples fórmula, Tubarão chegou com tudo naquele verão. Uma multidão jamais vista nos moldes cinematográficos acotovelava-se para assistir ao que os jornais chamavam de “o filme mais assustador de todos os tempos”, e não era para menos. Após as exibições, os balneários simplesmente ficaram vazios naquele ano. O medo provocado pelo filme de Spielberg criou uma fobia aquática mundial tão intensa, que muitas pessoas têm pavor de mar até hoje.

Que dentes grandes você tem...

Verdade seja dita: se existisse uma lista de entes marinhos que pudessem ser aproveitados para um filme de suspense, o tubarão branco estaria no topo. Trata-se de uma perfeita máquina de matar, com um impulso de ataque que pode chegar a 25 km/h (um nadador olímpico não chega a 12km/h). Sua boca, em posição ventral, tem uma grande abertura, graças à inexistência de contato do maxilar com o crânio, o que faz o tubarão jogar sua dentadura para fora da boca a fim de abocanhar algo mais distante se assim quiser (similar ao Alien, só que menos feio de se ver). Os dentes, afiadíssimos, são trocados de 15 em 15 dias e estão dispostos em duas ou três fileiras.

Embora seja míope, o tubarão possui um olfato absurdamente apurado, podendo sentir o cheiro de uma gota de sangue a 300 metros, no meio do oceano. Também possuem linhas laterais capazes de captar vibrações de baixa freqüência, mudanças na temperatura e na pressão da água, assim como localizar alimentos e obstáculos em águas turvas. Além de também fazerem tudo isso, as “ampolas de Lorenzini” (poros localizados ao redor do focinho) podem detectar campos elétricos muito sutis, gerados por outro animal, bem como guiar o tubarão no mar aberto, através, pasmem, do campo eletromagnético terrestre. Um caçador por natureza.

Ops, tubarão errado...

Mas há de se desmistificar o tubarão como um animal homicida. Embora esses bichos sejam predadores perfeitos (tanto que eles não possuem grandes modificações em sua morfologia há 150 milhões de anos), o homem não é um prato que o tubarão goste de degustar. Salvo raras exceções, os ataques de tubarão a uma pessoa são frutos de erro de identificação. Surfistas com roupa de borracha são confundidos com focas e pessoas deitadas em pranchas com tartarugas (duas presas habituais).

O próprio gosto de carne humana faz o tubarão largar a vítima tão rápido quanto mordeu (segundo especialistas, não somos muito saborosos para eles). Meu professor de biologia costumava dizer que, estatisticamente, há mais pessoas morrendo de queda de coco na cabeça do que de ataques de tubarão, logo, como ter medo de um bicho que mata menos do que coco, certo?

Bruce (alcunha dada por Spielberg ao tubarão, graças ao nome do advogado de sua ex-esposa) era um espécime único: ao contrário dos outros tubarões brancos (que medem no máximo 6 metros), Bruce tinha quase 8 metros de comprimento. Além disso, parecia ser mais inteligente, genioso e vingativo que seus parentes: quando atacava alguém, só deixava pequenos pedaços. Embora seja indiscutivelmente o grande astro do filme, Bruce só mostra suas fuças depois de 88 minutos de projeção. Graças ao grande problema em produzir um tubarão assassino sem o uso de computação gráfica (que era coisa de ficção na época), Spielberg teve de suar a camisa para conseguir filmar os ataques e dar curso à trama sem mostrar o tubarão, que estaria sendo “construído” para protagonizar a cena final, quando os três aventureiros teriam de ficar cara a cara com Bruce. Sim, a fera que aparece no final e dá aquele trabalho todo é um robô de 7 metros.

Bruce fazendo uma boquinha.

Além do tubarão, a trilha sonora composta por John Willians também é de arrepiar. Aliada sempre ao prenuncio de um ataque de Bruce, a música acabou dando o primeiro Oscar para Willians, que depois disso, viria a ser premiado mais 4 vezes. Até hoje a composição é usada em diversos outros projetos para sinalizar perigo.

Spielberg (que tinha 26 anos de idade na época das filmagens) já havia dirigido Encurralado e Louca Escapada, porém, é indiscutível que seu primeiro grande marco foi Tubarão. Graças a sua destreza, versatilidade e senso de improviso, o diretor pôde trazer ao público sua primeira grande obra. Uma das dez maiores bilheterias da história do cinema.

***


Dica de filme:


Tubarão (Jaws)
Diretor: Steven Spielberg
Elenco: Roy Scheider (Martin Brody), Robert Shaw (Quint), Richard Dreyfuss (Matt Hooper), Lorraine Gary (Ellen Brody), Murray Hamilton (Larry Vaugh)
Duração: 123 minutos
Gênero: Terror

Ano: 1975