terça-feira, 29 de setembro de 2009

Dexter é papai.

O título com cara de fofoca é apenas para resumir o que foi a season premiére da 4ª temporada de Dexter, que foi exibida nos States antes de ontem e que já havia vazado pela internet há mais de mês (e que eu, claro, já havia assistido).

Como todo fã da série, estava ávido por saber como seria o início desta nova etapa na vida do serial killer mais gente fina da TV, afinal, Dexter finalmente casou com Rita e ambos esperavam um filho (final da 3ª temporada), mudando dramaticamente a rotina de alguém que apenas trabalhava para a perícia policial de dia e matava pessoas malvadas à noite.

Tal como os spots de TV anunciavam, o episódio Living the Dream se baseia no impacto que esta mudança causa em Dexter. Não necessariamente no impacto psicológico (sim, ele continua falando sozinho, mas seria mais bacana se tivessem abordado somente isso), mas no impacto físico: sua vida de casado e pai de um bebê chorão, aliados à correria dos afazeres com as crianças (os outros dois filhos de Rita) e as atribulações do trabalho causam um efeito colateral tão grande que Dexter não consegue ter disposição física, sequer, para seu hobby predileto (e motivo de ser da série). O vemos tropeçar, se enganar com documentos, dormir no volante e todas as outras saídas visuais que o diretor do episódio poderia usar para apontar o cansaço de Dexter, e essa insistência em nos mostrar isso acaba por se tornar maçante, MUITO maçante (tá, a brincadeira com a abertura da série até que foi boa).

Os outros personagens do programa, por sua vez, prosseguem na mesma: Debra continua boca suja e vazia, Quinn segue com a expressão de uma porta, Masuka entra mudo e sai calado. As únicas mudanças ficam a cargo do início de um romance entre Batista e LaGuerta (namorico este que poderia muito bem não existir) e o retorno do agente do FBI Frank Lundy (que infernizou a vida de Dexter na excelente 2ª temporada), que volta para Miami para procurar um novo serial killer.

Maria LaGuerta e Angel Batista: casalzinho bem meia-boca.

E falando no diabo, eis que temos o ótimo John Lithgow no papel da única boa surpresa do episódio: the Trinity Killer, o vilão perfeccionista da 4ª temporada cujo método é mostrado de forma limpa e sem enrolação, numa cena que chega a dar arrepios de tão simples e, mesmo assim, brutal. Sério: tem toda chance de ser o melhor antagonista de Dexter já mostrado. Pelo menos isso paga o 1º episódio.


Fiquemos na torcida, pois Dexter merece mais.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Motivacional da Semana.


OBS: Nada mais justo do que começar esta sessão no blog com nosso saudoso Marcião (João França), o perigoso travesti agiota do curta-metragem Os Batedores.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Da série "Biscoito da Sorte" (006)

"Os sábios aprendem com os erros dos outros, os tolos com os próprios erros e os idiotas não aprendem nunca."

Provérbio Chinês

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Trilha do Assassino.

Faz uns dias que tenho reprisado, no meu parco tempo livre, algumas relíquias que havia visto quando era apenas um guri de Corujão, em uma época na qual eu ainda não tinha o apurado gosto para a análise cinematográfica, mas já via algo de muito especial nos clássicos da madruga.

Dessas pérolas que marcaram a minha infância (lá pelos meus 12 anos, quando não tínhamos de encarar bombas como o Inter-Cine) destacavam-se nas madrugadas os filmes do Lobo Solitário (Kozure Okami em japonês, ou Lone Wolf & Cub em inglês), expoentes brilhantes do cinema japonês, baseados na obra-prima do mangaka (criador de mangás) Kazuo Koike.

Álbum de família: Lobo Solitário e Filhote.

Estes filmes, datados dos primeiros anos da década de 70, combinavam a engenhosa história dos gekigás (dos quais virei fã graças aos filmes) com o estilo belo e visceral do diretor Kenji Misumi (diretor de 4 dos 6 filmes), que usava e abusava de belas paisagens e violência extrema, aliados à coreografias e duelos marcantes.

A história gira em torno de Itto Ogami – um membro do alto escalão do Shogunato – e Daigoro, seu filho único de 3 anos, ambos jogados à marginalidade após Itto ter sido acusado injustamente de tramar contra o Shogun, em um ardil arquitetado por um clã rival que almejava o posto ocupado pelo samurai. Com a esposa assassinada e o nome do clã Ogami jogado na lama, Itto e seu filho são obrigados a perambular errantes pelo Japão.

Até aí, seria a velha história do homem inocente que se vê vítima de um complô, vista em tantos outros filmes. Porém, estamos falando do Japão Feudal em pleno declínio, e de um homem que passa longe de ser comum, ou mesmo de ser uma pacata “vítima”: Itto Ogami era o Kaishakunin (o executor oficial do Shogun, único autorizado pelo próprio a executar os senhores feudais que saíam da linha), e como tal, é um especialista na arte da espada, da luta e da estratégia. Como matar é a única coisa que sabe fazer, Ogami decide vender seus serviços através de assassinatos encomendados. Surge a lenda do Lobo Solitário e Filhote.

Com a competência de roteiro do próprio Koike, a saga de Itto é apresentada exatamente como nas HQs. Com tendências claras ao faroeste (fazendo o caminho inverso do conterrâneo Akira Kurosawa, que foi plagiado por John Sturges em Sete Homens e um Destino), os diretores não poupam o espectador de nada, uma vez que a engenhosidade com a qual o Lobo Solitário executa suas mortes, e a violência com a qual se defende dos oponentes são assinaladas com cenas fortíssimas de mutilações, desmembramentos, decapitações e sangue jorrando pra todo lado, em um espetáculo de horror que poderia muito bem ser confundido com o gore e o trash, SE fosse algo desnecessário, ou mesmo mal feito. A verdade é que não há melhor forma de ilustrar a selvageria dos personagens e das situações apresentadas, senão pintando a tela de vermelho (podemos ver uma homenagem contemporânea ao estilo em Kill Bill - Vol. 1, na cena em que A Noiva enfrenta os 88 Malucos).

Ketchup!

Há de se perceber que, embora a trama, a direção, as coreografias e a p
rodução de época fossem muito competentes, são justamente os protagonistas quem fazem de Lone Wolf & Cub espécimes tão especiais. Como um samurai decadente (mais precisamente um ronin), Itto Ogami abraça a trilha do assassino com severidade e um código de honra bizarro: se em um momento aparece para salvar o dia e a vida de alguém, no outro não se importa em observar uma mãe e sua filha sendo mortas por mercenários, mesmo podendo fazer algo para impedir. Para aceitar um trabalho, as únicas exigências do Lobo Solitário são 500 Ryos e uma história: o contratador precisa contar na íntegra o motivo pelo qual precisa matar o alvo, não importando se esta vítima for um líder de Clã, a reencarnação do Buda, ou mesmo uma família inteira.

Itto Ogami: se ele te olhar assim, comece a rezar...

Uma vez contratado, Ogami não mede esforços para concluir seu objetivo (não importando o quão difícil possa ser), demonstrando uma motivação titânica que é superada apenas por seu instinto de sobrevivência (mesmo sendo um espadachim inigualável, Itto n
ão titubeia em usar seu filho como escudo apenas para contar com a piedade de seu rival e usar desta fraqueza para definir a luta), e sua inteligência para sair de situações impossíveis (como lutar com o filho pendurado nas costas contra um samurai que tem o sol se pondo atrás de si). Por sua vez, Daigoro (muito bem representado pelo piá Akihiro Tomikawa, o qual hoje deve ser um quarentão) mostra-se um menino calado, de bom coração e absolutamente sem medo, que poderia passar despercebido pela trama, se não fosse pela sua gradual constituição em um futuro grande guerreiro, pelo seu carrinho de bebê (acreditem, eu teria de escrever um texto inteiro só pra falar desse engenhoso...meio de transporte) e por sua principal função, que é a de fazer o contraponto com o pai, mantendo Itto dentro de uma realidade mais humana, onde o Lobo Solitário não age sozinho: por mais que o assassino seja capaz de deixar seu filho ser açoitado para mostrar um ponto de vista, precisa zelar pelo Filhote.

Filhote do Lobo: o pequeno Daigoro.

Paradoxalmente, embora coloque a vida de Daigoro em risco eventualmente, sua preocupação e amor pelo filho são algo quase tangíveis, graças a atuação espetacular de Tomisaburo Wakayama, que mesmo sendo muito diferente fisicamente de sua versão no gekigá, simplesmente se transforma no Lobo Solitário, de tal forma que é impossível imaginar outro ator no papel depois de ver esses filmes (digo isto pela fato do personagem ter ganhado dois seriados anos mais tarde, mas sem contar com Wakayama no papel-título), ou mesmo não simpatizar com Itto Ogami, mesmo que ele cometa algumas atrocidades no decorrer das projeções.

Versão do gekigá: desenho de Goseki Kojima.

O terceiro personagem marcante é o próprio Japão. Lembro que – mesmo quando era moleque – já me fascinava o modo como o Japão Feudal, palco de uma cultura milenar cuja base era a honra e o respeito de castas, era retratado com malícia e desalento, um país decadente, onde os poderes concedidos aos clãs e aos órgãos públicos daquela época já eram notadamente deturpados; onde a honra era tão figurativa e extinta quanto os poucos samurais que perambulavam no final daquela era: Daimyos se negavam a comet
er o Sepukku (ritual de suicídio para recuperação da honra), alguns samurais usavam armas de fogo (deixando a tradição da lâmina de lado por influência ocidental), roubos, estupros e outras atrocidades aconteciam pelas estradas, articulações políticas eram feitas por debaixo dos panos (isso não mudou tanto assim com o passar do tempo, né?) e a vida de alguém valia apenas o som de uma espada cortando ar e carne.

Bem-vindo ao mundo do Lobo Solitário.


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Dica de filme:

1 - Lone Wolf and Cub: Sword of Vengeance
Diretor: Kenji Misumi
Elenco: Tomisaburo Wakayama (Itto Ogami), Akihiro Tomikawa (Daigoro), Tokio Oki (Retsudo Yagyü)
Duração: 83 minutos
Gênero: Ação
Ano: 1972

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2 - Lone Wolf and Cub: Baby Cart at the River Styx
Diretor: Kenji Misumi
Elenco: Tomisaburo Wakayama (Itto Ogami), Akihiro Tomikawa (Daigoro), Kayo Matsuo (Sayaka Yagyü)
Duração: 81 minutos
Gênero: Ação
Ano: 1972

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3 - Lone Wolf and Cub: Baby Cart to Hades
Diretor: Kenji Misumi
Elenco: Tomisaburo Wakayama (Itto Ogami), Akihiro Tomikawa (Daigoro), Go Kato (Kanbei)
Duração: 89 minutos
Gênero: Ação
Ano: 1972

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4 - Lone Wolf and Cub: Baby Cart in Peril
Diretor: Buichi Saito
Elenco: Tomisaburo Wakayama (Itto Ogami), Akihiro Tomikawa (Daigoro), Tatsuo Endo (Retsudo Yagyü)
Duração: 81 minutos
Gênero: Ação
Ano: 1972

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5 - Lone Wolf and Cub: Baby Cart in the Land of Demons
Diretor: Kenji Misumi
Elenco: Tomisaburo Wakayama (Itto Ogami), Akihiro Tomikawa (Daigoro), Minoru Ohki (Retsudo Yagyü)
Duração: 89 minutos
Gênero: Ação
Ano: 1973

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6 - Lone Wolf and Cub: White Heaven in Hell
Diretor: Yoshiyuki Kuroda
Elenco: Tomisaburo Wakayama (Itto Ogami), Akihiro Tomikawa (Daigoro), TMinoru Ohki (Retsudo Yagyü)
Duração: 83 minutos
Gênero: Ação
Ano: 1974

Desaconselhável para pessoas de estômago fraco e gosto limitado.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

What is this?

Todo mundo que já assistiu a 300 concorda que, embora o filme seja recheado de violentíssimas batalhas e efeitos, a cena mais emblemática do longa é aquela na qual o rei Leônidas resolve que vai encarar o vasto exército persa e sela esta intenção com uma bela pedalada no peito do desafortunado mensageiro (que você pode conferir abaixo).



O que Frank Miller (criador da HQ que deu origem ao filme) não sabia é que este quadrinho em particular ia se tornar um marco dos memes na internet, dando vazão para uma enxurrada de bobagens (algumas já passadinhas, mas memoráveis, as quais trago para o nobre leitor deste blog).

Madness?

=P

Bem que eu sempre achei que pinguins não batiam bem da cabeça mesmo...

Esse é um dos meus preferidos.

Sempre tem um super-herói (neste caso DOIS) pra bater uma foto dessas.

É claro que tem milhares de outras montagens e vídeos que também respondem à pergunta que não quer calar. Anote aí: "THIS IS SPARTAAAAAAAAAAAAA!!!!!" é o tipo de resposta que pode ser usada em qualquer situação...

...mas tem que ser respondida aos gritos, senão não está valendo.=P

Pra encerrar, segue abaixo a melhor vídeo-montagem do espartano gritão. Enjoy.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Conversa de gente grande.

O que aconteceria se um dos maiores diretores do século XX conversasse com o maior mestre do suspense de todos os tempos, em uma entrevista com mais de 50 horas de duração?

Descobri nessa sexta passada, ao terminar de ler Hitchcock/Truffaut, uma transcrição absurdamente bem acabada e completíssima do ciclo de entrevistas que François Truffaut fez com Alfred Hitchcock durante quatro anos, abordando a obra e a carreira do diretor inglês de forma completa, incisiva e analítica.

Hitch e seus bichinhos de estimação.

Fã confesso do Estilo Hitchcock e grande amigo do cineasta, Truffaut guiou a entrevista através de uma linha de tempo baseada em cada um dos mais de 60 filmes de Hitchcock, começando pelo período do cinema mudo, quando Alfred era apenas um desenhista de títulos (quem desenhava e escrevia o que os atores falavam naqueles cartões pretos que apareciam na tela, para substituir o som das palavras) com pouco mais de vinte anos de idade. É fascinante como, desde cedo, Hitchcock manifestou um interesse extremo por todas as ferramentas do cinema (principalmente o americano): começou fazendo letreiros e passou por quase todas as funções dos bastidores, sempre assimilando o que aprendia e implementando sua perspicácia. Não demorou muito para que o chamassem para funções maiores, até que ascendeu para a assistência de direção e, em seguida, para a direção (na mesma época em que conheceu e cortejou a continuísta e editora Alma Reville, que veio a tornar-se sua companheira até o fim).

Com o peculiar senso de humor que o tornou tão famoso, Hitch enumera todas as agruras e curiosidades de cada um dos filmes, as maquinações e saídas criativas para trazer ao público efeitos nunca vistos até aquele momento. Temos, por exemplo, o teto de vidro onde o espectador podia ver o ator Ivor Novello andando de um lado para o outro no quarto acima (como o filme O Inquilino Sinistro era mudo, foi a saída que Alfred descobriu para mostrar a tensão dos passos acima das cabeças dos preocupados moradores do pensionato).

Teto de vidro: o inquilino sinistro caminha no quarto acima...

Outras curiosidades
como o fato de Hitchcock ter dirigido o primeiro filme sonoro britânico ou as manias perfeccionistas do diretor (como a de desenhar storyboards de cada tomada, tornando o filme hermeticamente planejado), ou mesmo o hábito de Alfred em fazer aparições em todos os seus longas, são colocadas na mesa por um astuto Truffaut, que relembra as cenas e peculiaridades dos filmes do entrevistado e aborda, com ganho de causa, nuances cinematográficas de cada um deles. Os dois diretores colocam em pauta as motivações dos personagens, a linguagem de câmera, o famoso “MacGuffin” (termo criado por Hitch para descrever um elemento da história que serve como impulso narrativo: crucial para o personagem, mas irrisório para o espectador), os problemas de recepção pelos críticos americanos e a notoriedade entre os europeus, inúmeros pontos que permitem que o próprio Hitchcock faça sua auto-crítica.

Para Hitchcock, cinema era um assunto sério.

A medida que a entrevista avança e a carreira de Hitchcock chega em Hollywood, o bom humor é amenizado – e por vezes anulado – por uma análise poderosa e imparcial de cada um de seus filmes e atores. Alfred fala das pessoas com as quais trabalhou, quem queria para determinado papel, e quem o estúdio o fez engolir. Sana o “mal-entendido” da famosa citação “Para mim, os atores são como gado” e atribui alguns de seus fracassos à suas fraquezas e à fraqueza de alguns outros (por exemplo, quando enumera que Um Corpo que Cai não fez o sucesso devido na época por causa do aspecto decadente de James Stewart, que já não era mais nenhum garotão.

O enxerido L.B.Jeffries está prestes a entrar numa fria em Janela Indiscreta.

Embora seja crítico e, por vezes, severo com suas próprias pérolas (e tenha sobrado até para Truffaut, quando Hitchcock diz que ficou constrangido com uma das cenas de Jules e Jim), percebe-se por toda a entrevista o lado terno e sentimental de Alfred Hitchcock, um homem que defende a idéia de usar o cenário para matar algum personagem e, no entanto, consterna-se quando encontra um subalterno de estúdio que, outrora, negou-lhe um emprego como desenhista de título. Demonstra o paradoxo de um diretor que mostrou como ninguém o romance, a malícia e o assassinato na tela e, mesmo sendo mestre nisso, casou-se virgem aos 25 anos e nunca conheceu outra mulher que não fosse sua esposa. Com a profundidade e extensão da entrevista, o próprio Hitchcock desabafa suas frustrações (como a de nunca ter ganhado um Oscar), seus medos (da Polícia, ou de ser agredido), e suas incapacidades (como a de nunca ter conseguido escrever com afinco, ficando sempre a mercê de outro roteirista).

Minha cena predileta de todos os filmes de Hitchcock:
Roger Thornhill fugindo de um aeroplano assassino em Intriga Internacional.


Além de informações cruciais, milimétricas e interessantes acerca de filmes como Janela Indiscreta, Intriga Internacional, Psicose e Os Pássaros (entre muitos outros), o livro traz também inúmeras fotos de bastidores, stills (inclusive dos filmes mais raros) e uma filmografia completa no final (junto com uma lista gigante de nomes de colaboradores, referenciados com números de página), além, claro, de fotos da própria entrevista, onde vemos Hitchcock gesticulando, argumentando, fazendo caras, bocas e fumando seu charuto, e vemos também um atento Truffaut que, mesmo sendo um ícone do cinema francês e mundial, tem a admiração e emoção de um garoto estampados no rosto.


François Truffaut concluiu este livro narrando seu ponto de vista sobre os últimos anos de Alfred Hitchcock, quando o mestre do suspense já se encontrava frágil, debilitado e havia fechado seu escritório na Unive
rsal Studios, vindo a falecer em seguida, no ano de 1980 (com seus 80 anos). Curiosamente, o próprio Truffaut viria também a falecer 4 anos depois de Hitchcock, vítima de um tumor no cérebro, aos 52 anos.

Hitchcock/Truffaut trata-se de uma fascinante e emocionante viagem pelo mundo do cinema em sua forma mais pura. É uma referência para quem gosta de cinema. É imprescindível para quem faz cinema. É descompromissado, divertido e, mesmo assim, é um legado contundente e emocionante de alguém que atingiu a plenitude de sua arte, que amava o cinema e alegava que seu amor por ele sobrepujava qualquer moral.


***

Dica de Livro:

Hitchcock/Trufautt - Entrevistas: Edição Definitiva

Autor: François Truffaut
Pág: 368
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2004

Já enumerei o quanto este livro é obrigatório, então prefiro encerrar com uma excelente frase do homem:

"Alguns diretores filmam fatias de vida, eu filmo fatias de bolo."

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Complexo de Homem-Bomba.

Era um Dia dos Pais chuvoso quando eu estava numa parada de ônibus com meia dúzia de futuros passageiros. Quase nada chamava a atenção em qualquer um deles, com exceção de um intrincado debate entre dois senhores: um de 60 anos e outro de 66. Sei disso porque eles fizeram questão de anunciar a idade um para o outro, como se as infindáveis rugas e o escasso cabelo branco fossem um atestado de sabedoria.

A pauta em questão era peculiar: o mais novo defendia que o Brasil está na merda em que está (salário mínimo ridículo, roubalheira, impunidade, etc, etc, etc) porque não havia homem com fibra para usar uma bomba e se explodir (e explodir algo junto) em protesto. O mais velho negava que isso fizesse qualquer diferença e profetizava que “violência gera violência”.

Quanto mais o assunto era aprofundado, mais o senhor de 60 dava indícios de seu complexo de homem-bomba. Dizia que os árabes é que estavam certos e que só assim para resolver as coisas e ter algum resultado. Me ocorreu, de imediato, que a maioria do povo árabe vive no caos e na subsistência constante, então, não conseguia ver onde estava o sucesso, e nem o tal senhor deu qualquer exemplo do que estava falando. Ele apenas refutava o mais velho enumerando todas as barbaridades que fazem o Brasil ter a fama que tem entre os próprios brasileiros: um país onde tudo acontece e nada é feito. O extremista completou que só não fazia nada mais prático porque já estava velho, mas se pudesse, “se explodiria e levaria muitos com ele” (pelo menos, a parka camuflada ele já estava vestindo).

Entramos todos no ônibus e me pus a observar os dois senhores: o mais velho sentou-se na frente, no lugar reservado para idosos; o homem-bomba passou a roleta e sentou-se num dos bancos finais, ao lado de uma senhora. Preciso dizer que olhei para ele por mais uns 30 segundos e fiquei abismado com a facilidade com que um homem com idéias tão raivosas se perde na multidão. Assim como ele sentou-se ao lado da mulher, poderia estar sentado ao meu lado, e eu jamais saberia que ele tinha um ponto de vista tão antagônico.

Quando ele se perdeu entre os outros, escorei a cabeça na janela e me coloquei a imaginar que alvo seria digno, no Brasil, de um ataque terrorista. Sequer precisei fechar os olhos para que o Senado da República viesse como forte candidato na minha cabeça. Lembrei das notícias, dos processos arquivados, dos homens escolhidos pelo povo e que, ao invés de lutarem por esse mesmo povo, roubam milhões dele.

Abomino a idéia de usar uma bomba, ou qualquer outro tipo de violência, para “solucionar” algo que pode ser resolvido através da comunicação. Acho que o terrorismo é a maior expressão do que o homem não deve se tornar e sempre pensei desta forma, mas é triste, muito triste pensar que, se uma bomba explodisse no Senado, certamente o povo não choraria.

Chegamos no ponto em que os políticos tiram tudo de nós, inclusive a nossa humanidade.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A moda do pombo-correio.

Não sei se dou risadas ou se fico abobalhado com o “novo” meio de passar objetos entre os detentos de segurança máxima e o mundo exterior, mas há de se premiar o marginal que teve a impressionante idéia de apelar para um artifício tão...tão...tão milenar quanto o do pombo-correio.

Eu era ignorante acerca do fato até que, há pouco, um colega de trabalho chegou aqui na sala com a edição de hoje do Correio do Povo na mão, e a capa trazia a foto de uma ave abatida e a seguinte legenda:

“Pombo-correio dos presos é operado na UFRGS e passa bem.”

Depois de um “eu não acredito”, corri os olhos até a página 32 do jornal, onde havia a matéria e uma outra foto da ave (esta – um raio-x – mostrando os
dois chumbinhos que abalroaram o bicho). Os veterinários do Hospital de Clínicas Veterinária da UFRGS colocaram duas placas de metal em cada asa do tal pombo e o Diretor do HCV disse que a operação (de uma hora e quarenta minutos) transcorreu tranqüilamente. O médico também citou que a procura de informações por parte da imprensa os pegou de surpresa. Vide citação:

“Até porque é um animal que foi pego em uma conduta inadequada* e chamou a atenção da população, gerando a procura da mídia.”

* O pombo foi encontrado com uma bateria e um carregador de celular.

O mais irônico é que a matéria dá conta de que é possível que um atirador – que esteja atualmente fora do presídio – de uma facção rival, tenha abatido a ave para impedir que a gangue inimiga receba os apetrechos (o que significa dizer que não apenas os criminosos estão adestrando pombos para entregas especiais, como estão treinando exímios caçadores de aves para detonar com a concorrência).

O traficante alado: mini-mochila e plano de vôo.

Ia fazer um breve comentário sobre isso no Twitter, até que resolvi ver se achava algo sobre a notícia na internet. Digitei as palavras “pombo-correio dos presos” no Google e fiquei boquiaberto:

Hortolândia: Pombo-correio é detido por guardas de presídio levando celular para presos.

Sorocaba: Pombo que levava celular para preso é interceptado no interior de São Paulo.

Marília:
Polícia suspeita que presos de Marília usam pombos-correio.


Bósnia-Herzegovina (porque não?): Polícia prende pombo-correio levando drogas para presos.

Meliante apreendido em Sorocaba/SP.

Acabei constatando que o uso de pombos para fins inidôneos está sendo uma constante, e só eu que não sabia disso (talvez porque não use do meu tempo livre para bolar alternativas de passe de celulares para prisões, ou simplesmente porque não assisto o Jornal Nacional). Há de se enumerar, no entanto, que as aves usadas não são pombos-correio de verdade, e sim pombos comuns que estão sendo treinados pelos próprios presos (não que esta distinção vá fazer qualquer diferença prática).

Planejamento...

Enfim, assombra que os marginais de hoje utilizem de meios tão antigos (e nem por isso menos eficazes) para perpetrar a criminalidade e, mesmo sendo eu um não-simpatizante de animais, apenas torço para que não haja uma “caça aos pombos” por aí (como fizeram com os bugios aqui no sul do Brasil, ao descobrirem que os bichos também pegavam Febre Amarela).

...e execução.

Ah, também conto os dias para ler que os criminosos estão utilizando uma nova e eficiente forma de comunicação: o famigerado sinal de fumaça.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Você está olhando atentamente?

Neste fim de semana, minha namorada e eu resolvemos aderir a um antigo hábito que vem se extinguindo com o advento da banda larga e dos torrents da vida: alugamos alguns filmes.

Devo dizer que a ação de ir até uma vídeo locadora e procurar pelas prateleiras era algo que não fazia parte da minha vida há ANOS, e que eu não pensava que fo
sse me bater uma certa dose de saudosismo ao, de uma hora para outra, estar deliberando com a minha gata sobre que filme seria mais interessante para preencher nosso fim de semana (com 10 capas de DVD’s nas mãos para escolher). Não que eu tenha ressalvas com a praticidade (e economia) que a internet proporciona, mas tenho que admitir que este costume da procura real e tangível de um filme em uma locadora tem seu charme, principalmente se você estiver bem acompanhado, o que era o meu caso.

Devaneios à parte, eis que escolhemos dois filmes. Um deles foi Os Cinco Sentidos, uma espécie de drama/romance honesto – mas não memorável – sobre um punhado de pessoas que vivem no mesmo prédio e que têm suas vidas mostradas em torno do sumiço de uma menina. Nada pesado, nada tãããão leve, mas certamente ofuscado pelo outro filme que escolhemos.

Eu já me cobrava de não ter dado uma verificada em O Grande Truque desde sua estréia, em 2006, já que nunca tive oportunidade ou um interesse mais intenso a ponto de baixar esta pérola do diretor Christopher Nolan (o mesmo responsável por Batman - O Cavalheiro das Trevas). Como estávamos procurando um bom filme de suspense e a prateleira de lançamentos não estava muito sortida, acabamos por optar pela adaptação do livro de Christopher Prier, The Prestige, que conta a história de Robert Angier e Alfred Borden, dois mágicos londrinos que, após um número de mágica que termina em tragédia, tornam-se inimigos declarados.

A rivalidade dos ilusionistas vai tomando proporções severas, até que Borden surge com “o Grande Truque” do título em português (o filme, assim como o livro, chama-se The Prestige, uma apologia ao terceiro ato de um show de mágica, onde o primeiro ato consiste na introdução – The Act, o segundo consiste na apresentação do número em si – The Turn, e o terceiro é a resolução do show de mágica – The Prestige), um número impossível cuja resolução torna-se a obsessão de Angier.

Nolan, que lançou-se ao estrelato com o impressionante Amnésia, retorna ao suspense metódico, de referências. Vale a pena assistir ao filme atentamente, pois as pistas para um final surpreendente e aterrador estão todas lá, jogadas em cada situação, em cada quadro. Crédito também para as ótimas atuações de quase todo o elenco: embora Christian Bale esteja muito bem no papel do engenhoso Borden, os méritos desta química ficam por conta de Hugh Jackman (no papel do mágico transtornado Angier) e seu fiel escudeiro Michael Caine (sempre ótimo) como Cutter, o homem responsável pela maioria das engenhocas utilizadas pelo mágico. A bela Scarlett Johansson complementa o elenco, mas não serve para muito mais do que apenas embelezar a tela (aliás, a considero superestimada), que também é enfeitada por uma excelente Direção de Arte e Fotografia (ambas indicadas ao Oscar). Um exemplo disso é o laboratório de Nikola Tesla (uma participação pra lá de especial de David Bowie), que é visitado por Angier quando este vai aos EUA: o lugar é remontado à exatidão de fotos e gravuras da época.

Embora O Grande Truque tenha tido uma singela bilheteria, trata-se de um filme já cultuado entre os cinéfilos e amantes de bons suspenses. Seu roteiro (escrito pelo diretor, ao lado do irmão Jonathan) utiliza de flashbacks para costurar uma intrincada narrativa, calçada na rivalidade e nas sutilezas do mundo do ilusionismo, e envolvendo o espectador como em um ótimo número de mágica. Aprovado.

***

Dica de filme:

O Grande Truque (The Prestige)

Diretor: Christopher Nolan

Elenco: Hugh Jackman (Robert Angier), Christian Bale (Alfred Borden), Michael Caine (Cutter), Scarlett Johansson (Olívia Wenscombe), David Bowie (Nikola Tesla)
Duração: 128 minutos
Gênero: Suspense
Ano: 2006

Como qualquer filme de Christopher Nolan: ba-ca-na!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Flerte nas Estrelas - Parte 2

- O que um nocaute como você está fazendo em um lugar gerado por computador como este?

Comandante William Riker

Star Trek - The Next Generation - Episódio 1x15 - 11001001