sexta-feira, 18 de abril de 2008

Carnaval 2008 – Segunda Parte – A Família

A expectativa era grande na casa dos Pedroso naquela noite de sexta. O primogênito da família (eu) estava pra chegar de uma viagem cansativa, cheia de caminhos tortuosos que serviam para contornar uma BR-101 em obras.

Sete horas depois de sair de Porto Alegre, chego na casa da minha mãe e descubro que a tal expectativa só era grande porque faltava apenas eu para poderem sair e pular o famoso carnaval de rua de Tubarão. Mal tomei banho e já estava na avenida, pulando feito doido uma música que, em outros carnavais, me daria embrulho no estômago. Mãe, irmãs, prima, cunhado, e uma moça muito especial que fazia tempo que eu não via, me acompanhavam na folia. Alguns (como eu), bebendo cerveja atéééé...outros (as) mais recatados (as), apelando para doses moderadas de guaraná.

A festa seguiu bem até um empolgado resolver quebrar uma cadeira nas paletas de um infeliz. Comoção. Galera correndo e brigadianos chegando passivamente, como se fossem foliões fantasiados de PMs e suas viaturas fossem fuscas disfarçados.

Era umas 3 e poucas quando a polícia resolveu cessar o som e mandar todo mundo para as suas casas. É claro que todos ficamos acordados para colocar os assuntos em dia, e não eram poucos:

- Como tá o trabalho?
- Como tá a facul?
- Como tá o Piá?
- Tá namorando?
- Como estão os filmes?
- Tens te alimentado?
- E o lugar onde tu tá morando?
- Como tá teu pai?
- Tens te alimentado?
- Tens te alimentado?

Mães. Sabem como é. Embora muitos por aí tenham rusgas com as suas, eu sempre me dei surpreendentemente bem com a minha. Se tivemos nossas diferenças, daria pra contar nos minutos de uma hora, no decorrer de toda uma vida. Uma boa média, eu diria.

Falamos sobre todo o tipo de assunto possível e eles me contaram as novidades, que nunca são novidades, tendo em vista a cidade onde vivem. Tubarão é o tipo de lugar que cresce apenas verticalmente. Quem tem dinheiro, se dá bem. Quem não tem, não tem e pronto. Era isso. Toda vez que tenho que ir pra lá (e só vou porque minha filha e minha família moram lá), constato que nem um tijolo é mudado na cidade toda. E o sotaque...ah meu Deus, a pior parte e o sotaque.

Curiosamente, o tempo resolveu mudar daquele fim de semana em diante. Passei frio por não levar roupas de outono e a chuva fininha chegava nas piores horas. Isso tudo porque, neste ano, a cidade tinha resolvido fazer carnaval de rua em três dos quatro dias de feriadão. Depois desta primeira noite, passei o resto do tempo em casa.

Mais assuntos em dia, iguarias culinárias feitas pela minha irmã, que tem mãos de ouro para cozinhar (lamento, ela já é casada) e a jogatina inerente aos Pedroso. Sim, somos uma família de jogadores de baralho. O predileto do pessoal é a Tranca, uma espécie de canastra anabolizada onde um “3” pode ser sua salvação ou sua perdição. Certa vez, alguém me disse que a única coisa que me restava na vida era ser “um jogador”. Bem, não posso dizer que jogo mal, uma vez que fui criado em meio a pessoas que “adivinham” as cartas que estão nas mãos dos adversários. Algo do tipo “porque não jogaste o valete que tá na tua mão há quatro rodadas???”

Entre uma carta e outra, toda sorte de pautas eram colocadas pelos jogadores. O mais polêmico sempre foi meu padrasto, que viajava de política para religião num piscar de olhos. Ele é do tipo divertido, com uma visão, eu diria, peculiar sobre as coisas. Tento incutir um pouco de “visão geral das coisas” naquela cabecinha. Nem sempre dá certo. Tente misturar Javier Barden e Crocodillo Dundee e talvez tu chega perto.

Família, filhota, um pouquinho de descanso e uma certa pessoa. Na segunda-feira de noite, fizemos um happy hour numa famosa lancheria da cidade. A família, alguns amigos e ela. Era algo meio de destino. Quando nos conhecemos, foi afinidade a primeira vista: ela havia iniciado o curso de enfermagem e eu recém tinha me casado pela segunda vez. Lembro de tê-la achado especial no primeiro minuto, mas nossa situação de vida nunca havia dado qualquer chance de qualquer coisa. Eu sempre comprometido e ela sempre na correria. Até que justamente nesse feriadão de carnaval, nos descobrimos sem barreiras, sem empecilhos, livres. Toda sua história de vida, personalidade e beleza sempre me foram motivos de admiração. Sabia que ninguém era perfeito, mas acredito que a perfeição, assim como a arte, está nos olhos de quem a vê, então não tive dúvidas. Por mais que o lugar não fosse o mais românico do mundo, não correria o risco de perder a oportunidade de, quem sabe num mundão perfeito, ficar com alguém assim: pedi a moça em namoro. Depois de tanto tempo que eu não fazia isso, tive medo de que eu houvesse perdido a prática.

Ela ficou de pensar.

Voltei para Porto Alegre com aquela sensação de que o ano finalmente daria a guinada que eu esperava tão ansiosamente. Um sentimento de que a vida podia melhorar e o futuro, embora incerto, tinha perspectivas muito otimistas.

Quatro dias depois, ela me mandou um e-mail. Agora tenho um ótimo motivo para gostar de carnaval...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Carnaval 2008 - Primeira Parte - A Morena

Viajei para Tubarão nesta sexta-feira, para passar o feriado de carnaval longe desse arco incerto que virou Porto Alegre para mim nos últimos tempos, e para rever minha família e minha filha.

Como carnaval, dizem por aí, também é uma época de festas, vou dividir o relato em duas partes...

Esta parte é sobre a minha filhota, a quem chamo sempre de “Morena”.

A Morena, hoje, tem sete anos de idade. Sim, muita gente me olha com olhos de prato toda vez que digo que tenho filha deste tamanho, mas a verdade é que abri a fábrica bem cedo. E que fábrica. Se eu tivesse de descrever a Morena em uma expressão, acho que seria “um luxo”. Sabe aquela pessoa que ilumina um ambiente assim que chega? É ela. É algo que se descobre logo no cumprimento: tu falas “muito prazer” e ela te responde “o prazer é todo meu”, te dando um firme aperto de mão. Como se não bastasse, é uma dama para fazer qualquer coisa em público: ela não senta, repousa. Ela não anda, desfila. Ela não pára, posa. Quando ela dança, ninguém faz frente. Seu porte magro e sua postura lhe conferem uma altivez que faria qualquer princesa ficar roxa de inveja. Fantástica.

Embora esteja na terceira série, a Morena é capaz de ter sacadas geniais. De deixar muito adulto no chinelo. Possui uma inteligência e capacidade de discernimentos impressionantes. Ela tem todas as respostas para todas as perguntas do mundo, e todas elas na ponta da língua. Se, num aborto do destino, pegar a Morena sem resposta, ela cerra os olhos, faz bico, fecha a cara e cruza os braços, desarmando o perguntador inconveniente.

Quando cheguei na casa dela, no sábado, fui logo recepcionado com um longo abraço e beijos pela Morena. A mãe, minha primeira ex, disse que a mocinha havia desistido de ir a uma festinha de aniversário de uma amiguinha somente para me esperar.

- Não vai na festa, filha?
- Meu pai já é uma festa.

Sempre me impressiona a quantidade de amor que a Morena tem por mim. Mesmo a distância sendo grande e nosso contato muito pouco, este sentimento dela só aumenta e ela demonstra isso com tanto carinho que meu coração sempre acelera quando a vejo. É a filha mais carinhosa do mundo. Levei-a para a casa da minha mãe e passamos todo o carnaval juntos. Brincando. Passeando. Matando as saudades.

É triste de constatar o quanto o tempo fica curto quando ele é bem aproveitado. Foi tudo muito rápido. Mal piscamos e já era terça-feira. Eu tinha que voltar a Porto Alegre e ela tinha que ficar em Tubarão. Certa vez meu pai me perguntou como é que eu fazia para ser tão frio nessas despedidas. É só olhar aqueles olhões cheios de lágrimas da Morena pra sacar que a grande verdade é que a despedida é sempre um tiro no peito e eu sempre morro um pouquinho nela. Tento fazer minha parte e não deixar transparecer que estou acabado, mas só porque eu tenho que fazer isso. Alguém tem que ser durão nessas horas. Faz parte do processo.

Minha sorte é que meus filhos são minhas certezas de que as coisas vão melhorar e isso me conforta. Sei que logo poderei voltar, rever e matar as saudades novamente da minha Morena.

Não há nada melhor do que esta certeza.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Pesadelo.

Nao é um título otimista. Porém, não há outra forma de descrever este exato instante. Não. Não se trata de momento de vida. Instante mesmo. Este minuto que passo acordado e tentando desesperadamente não dormir. Já bebi mais de dois litros de café. E prossigo. Pra tentar me distrair e não deixar o sono vir, trabalho. Deixo o MSN aberto. Alguns contatos estranham que eu esteja ON às 3 da madrugada. Uma amiga vem me dizer que está feliz. Faço de tudo pra não estragar este momento dela. Definitivamente, ela não precisa estar a par do meu drama num horário tão ingrato. Esta moça já tem problemas suficientes para transpor. Ela com os problemas dela. Eu com os meus. Ela foi dormir. Com um sorriso de orelha à orelha, com certeza. Eu continuo aqui. Sem sorriso. Mais café.

Noite anterior. Conforto do meu quartinho diminuto. Boa piada. Barulho do ventilador e a pressão de um aposento sem janelas. Escuridão. Logo me vejo numa sala iluminada com muitas pessoas sem rostos. Elas conversam entre si. Não sei qual é o evento, mas logo descubro. Um caixão é trazido e colocado à minha frente. Um velório, que beleza. Me pedem para pôr a tampa no esquife e dou uma olhada na defunta. Uma prima-tia que não vejo há uns anos. Seu rosto grotescamente contorcido. Olhos entreabertos. Coisa feia de se ver. Uma ótima desculpa para lacrar de vez o caixão. Quando seguro a tampa, eis que a mulher se mexe. Penso que é ilusão de ótica. Pisco forte. Ela se mexe mais. As pessoas começam a gritar e eu perco a voz. Tenho uma visão horripilante quando ela tem espasmos na minha frente e geme de dor. O rosto ainda contorcido. Cheio de veias azuis. Olhos embaçados de branco. Ouço a voz dela descrevendo o que ela sentia ao voltar da morte. Dor. Dor. Dor. Sentia-se pregada. Literalmente.

Acordei ofegante e suando. Pacote completo. Era 4 da manhã. Peguei um cobertor e me aninhei. Braços em volta da cabeça. Olhos abertos. Não consegui mais dormir. Depois de 24 horas acordado, ainda vejo o rosto medonho quando fecho os olhos. Vou pegar mais um copo de café. Volto.

Como uma criança medrosa, não quero dormir.

sábado, 26 de janeiro de 2008

E de lá pra cá...

O ano vai passando. Como uma bala. Mal piscamos e fevereiro está logo ali. Havia prometido que atualizaria o blog duas vezes por semana. Mais uma promessa quebrada. Definitivamente, estou ficando bom nisso. Pergunto-me se alguma vez já cumpri alguma coisa que havia prometido. A resposta é conflitante. Prefiro não pensar no passado. O passado passou. Já era. Finito. Para pessoas como eu, é melhor que seja assim. Não que eu seja mal, claro. Mas parafraseando algo que me disseram nesta semana, não sou uma “boa pessoa”. Meio egoísta. Oportunista, quase. Há quem admire isso, tenho certeza. Em algum lugar do interior da China, talvez. Um pobre diabo amarelo com sua tigela de arroz amarelo e seu sorriso amarelo pensando no quanto admira os oportunistas. Uma pena. Não estou na China.

Graças a um ataque de oportunismo, consegui fechar um belo acordo, profissionalmente falando. Não vou ganhar um tostão a mais do que ganho, mas continuarei com meu fixo e terei tempo para correr atrás da máquina por fora. Há quem tenha brindado a isso. Colegas da Cont 303, que torcem por mim erguendo seus copos e batendo eles uns nos outros. Ainda iludidos de que sou uma alma iluminada. Tá certo. Com eles eu nunca aprontei. E como são meus amigos, com eles nunca aprontarei. Continuarão iludidos. Fazer o quê.

Fácil fazer pose de mau. Está na moda. Até os vilões nos filmes e desenhos animados têm os uniformes mais bacanas. Mas noite dessas vi um homem sem cabeça. Um ônibus parado e este cidadão deitado atrás dele. Corpo inteiro. A cabeça espalhada por mais de três metros de asfalto. Como um conto que li certa vez (e que o autor queria que eu roteirizasse), o pessoal esticava o pescoço para ver algo atrás da faixa dos peritos. Pessoas comuns, tendo seus momentos de excitação por estarem vendo algo diferente numa noite de terça. Olhei para o corpo. Pensei por um tempo na possibilidade desse presunto ser pai de alguém. Pouco mais de dez segundos depois, segui meu rumo para pegar minhas chaves de volta. Um amigo meu presenciou um assalto há dois meses atrás e ficou uma noite sem dormir. Vejo um cara decapitado e só volto a pensar nele uns dias depois, para pesar a efemeridade da vida. Garanto a vocês que tenho dormido como uma pedra. Será que sou normal? Será que sou normal no que se considera normal hoje? E se a sociedade estiver cada vez menos normal? Cara, preciso de uma ceva.

Meu melhor amigo está fazendo aniversário hoje. Já liguei. Já mandei scrap. Mas ainda não estou em condições de lhe dar um presente. Quem sabe depois do carnaval terei mais chances de presentear as pessoas que eu amo. Como eu disse no texto de ano novo, estou mudando as coisas, na marra. Ao menos ele sabe que energia positiva e torcida não falta por aqui. Mas daqui a um tempo. Sim. As coisas estarão melhores. Por ora, sinceros votos de felicidade e alegria sempre. Quando houver festa, me chama. Quando precisar de um ombro ou de um assassino profissional, me chama. Me chama sempre e sempre estarei aí.

Carnaval. Época de descontração. Orgias. Bebedeiras. Que nada. Como sempre, usarei esses quatro dias e meio para visitar meus parentes em Santa Catarina. Minha mãe, minhas irmãs e minha filha. As mulheres da minha vida. Não há grana para festas. Menos ainda para orgias. Não. Deixo de ser um cara mau nesses quatro dias para tentar amenizar essa distância toda. Os exus poderão ficar descansados comigo. Há mais podridão para darem conta por aí no carnaval.

No mais, tenho tirado um tempo para minha solidão imposta. Não por mim. Pelas escolhas. Tenho repensado algumas coisas. Tido a certeza de outras. Continuo com uma saudade louca dos meus filhos. Continuo com uma saudade louca das filmagens. Continuo sozinho.

Mas continuo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Pancadaria.

Após um recesso de um mês sem filmagens, eis que matamos três coelhos do curta Os Batedores no decorrer desta semana. Era para ser quatro orelhudos, mas o péssimo tempo de sábado quis que pedalássemos as cenas do Ligeiro para março. Destino. Um male que vem para o bem, talvez.

Vamos à cena do flashback no Hospital. “O Homem” acorda de seu coma de cinco anos com sede de sangue. Jack Gerchmann entra de sola no curta e empresta seu vozeirão para ecoar nos corredores do Hospital Moinhos de Vento, que apoiou o projeto de tal forma que até uma enfermeira ficou disponível só para nos auxiliar com os aparelhos e bandagens. Na suíte do HMV, uma equipe enxugada se esforçava pra fazer o mínimo de barulho enquanto produzia efeitos de relâmpagos. A enfermeira amarrava a cara de medo ao ouvir o Jack repassando o texto de Amadeu Deodato, enquanto colocava o soro no “paciente”. Duas horas e vinte minutos depois de chegarmos ao hospital (duas horas de produção, filmagem e desprodução e vinte minutos na tentativa desesperada de tirar uma lente de contato do olho do Jack), já estávamos encerrando as atividades da filmagem de sexta.

Domingo. Dia de sol. O comboio parte de Porto Alegre rumo à Sapiranga, cidade das rosas. Além de rosas, a cidade também tinha o banheiro de um posto de gasolina, ideal para a fatídica cena do banheiro onde Raul (Marco Soriano Jr.) levaria um atraque de Tosco (Eduardo Ribeiro). Eu não tinha muita noção do que o Filipe estava planejando para a cena, mas se o Ghiorzi estava no local, boa coisa não era. Nosso mestre dos efeitos veio com sua inseparável valise verde, com toda sorte de cicatrizes, ampolas e tonalidades de sangue falso. A Lisi, maquiadora que também tem uma certa predileção pela fabricação de machucados, observava enquanto o Ghiorzi arrebentava o Marco antes mesmo dele apanhar em cena.

Banheiro interditado, vasos sanitários higienizados (Henrique e eu pagamos nossos pecados), luzes prontas, atores em posição: começa a peleja. Raul tenta sair do banheiro. Tosco não deixa e ignora. Joga o infeliz feito um saco de batatas de um lado para o outro. Dava pra ouvir o barulho e os gritos do lado de fora do set. Enquanto os atores se digladiavam no banheiro, os chamados “machos” de Sapiranga contorciam o rosto por serem obrigados a usar o banheiro feminino. Um deles bradou:

- Não vô em banhero de muié porque eu não sô gay. Eu sô machista.

Chicão, pai da Gabi, que havia dado carona pra metade da equipe, balançava a cabeça de olhos fechados em sinal positivo, concordando com o sujeito. Não demorou muito para que os sapiranguenses começassem a aloprar com seus carros e seus vanerões, prejudicando nosso som. Gabi e Fernanda uniram forças para pedir gentilmente para baixarem o som. Funcionou muito bem com o primeiro carro. No segundo, elas voltaram frustradas, pois tinham sido ignoradas por dois magrões fankeiros, que aumentaram o volume. Em uma pausa entre takes, o Tosco foi falar com eles. Reza a lenda que foi mais ou menos assim:

- Ô meu, as gurias vieram pedir pra abaixar o som e vocês ignoraram. Nós estamos filmando, pagando locação e, se tu quiser, eu vou me incomodar contigo.

- Bah, mas tão filmando mesmo? Foi mal. Respondeu o magrão, praticamente mijando de medo.

Imediatamente o som foi desligado e os pneus cantaram. Edu voltou feliz para o set. Tão feliz que socava o coitado do Marco com sorriso no rosto. Nos empolgamos tanto com o resultado que até colocamos o Tosco pra falar em cena:

- Perdeu, Cara! Gritava o brutamonte, emendando um chute no estômago de Raul.

O Márcio parecia o Homem-Aranha, pulando em cima dos boxes e filmando a pancadaria de um plano aéreo. Lá embaixo, Tosco jogava Raul box adentro e o puxava de novo pra mais porrada. Chute, sangue, cabeçadas nos azulejos e o vôo final, onde o Jéferson, nosso coreógrafo, nos indicava a melhor forma de arremessar o pobre Raul em direção à câmera sem machucá-lo (muito). O Circo Girassol nos cedeu alguns colchões para essa cena. Marcelo, Henrique, Jé e eu segurávamos firmes os tais colchões. A Cíntia segurava a câmera do making of, que não deve me deixar mentir: o Marco voava, literalmente falando.

Já havia um clima de hostilidade na rua por parte dos habitues do posto quando o Diretor gritou:

- Temos!

Ouviu-se palmas da equipe. Sorrisos. Satisfação de dever cumprido depois de tanto tempo sem filmar. E que cena. Era a nossa “Paixão de Cristo” particular, onde o Marco Soriano Jr. era o Jim Caviezel. Me disseram que, no dia seguinte, Edu e Marco estavam tão quebrados que um deles pediu para ser levado ao HPS. Adivinhem qual dos bixcoitos pediu isso???

Ontem...

Correria mambembe para gravações de inserts de apresentação do Tosco. Como o Edu está para ir ao Rio (epidemia entre atores nesta época do ano), decidimos matar de vez as cenas com ele. 19:30h de uma terça-feira no Centro não é bem uma coisa habitual, mas o pessoal estava lá. Rua 24 horas. Edu trouxe figurantes de Canoas, Jack trouxe mais alguns. O Cristian logo chegaria para ser esmagado, pois tinha a nuca certa para esta cena. Até a Gabi entrou na roda. Nos inserts, o Tosco brutaliza: passa por cima de um pacato cidadão, rouba bolsa de gentis senhoras, atravessa uma família no meio, vira um desafortunado de cabeça pra baixo e o chacoalha para ver se cai alguma coisa, esmaga um crânio. Aaaaaaaahhhhhhhhh, estraguei a surpresa? Que nada. Vocês têm que ver para crer. O Edu nasceu pra esse papel. Os figurantes estavam perfeitos. Enfim, nada do que eu disser ou descrever aqui paga o produto final, que vai ficar simplesmente espetacular.

Terminamos as filmagens já com aquela nostalgia. Próxima filmagem só depois do carnaval. Merda. Mas fazer o quê. Foi nosso último dia com o Edu e já estou com saudades do gordo. Relatos dizem que ele levou Diretor e Diretor de Fotografia para tomar uma ceva em Canoas e contou histórias tão assombrosas que fez as minhas parecerem brincadeira de criança.

Temos um novo mestre, senhoras e senhores.=P

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Ano vai. Ano vem.

Primeiro texto do ano. A sensação de que eu devia fazer um balanço me preenche. Mas não é forte o suficiente para que eu o faça. Balanço sobre o ano que passou só traria frustração. Desgraça. Atrairia o mau kami para este novo ano. Ninguém quer isso, quer? Nada de bom aconteceu no ano-que-não-devemos-dizer-o-nome. Minto. Foi um ano sórdido, mas duas coisas devem ser enumeradas.

Cinema. Cinema de guerrilha. Arquivo Morto. A produtora independente mais cool de Porto Alegre reuniu várias cabeças em um sítio de Mariana Pimentel. Fim de semana isolado. Bucólico. Zumbificado. O BBZ criou vida e saiu da nossa imaginação fértil para ser o curta mais difundido da AM. Selecionado em dois festivais de cinema fantástico. Nada mais justo.

Cinema. Cinema de guerrilha. Arquivo Morto. O projeto mais audacioso da produtora até hoje atende pelo nome de Os Batedores. A idéia partiu de um banco de praça. Lia meu livro. Ao meu lado, um batedor de carteiras conferia a pilhagem do dia. Corri pra casa. Comecei a escrever. Roteiristas são pessoas engraçadas. Olham para alguém atravessando a rua e criam. Olham para um menino pedindo algodão-doce para o pai e criam. Sou roteirista. Não sou diferente. Equipe nova, pessoas novas. Outrora desconhecidas. Hoje são praticamente irmãos. Pegam junto e não largam até que o último take seja aprovado e a turma volte exausta pra casa ou pra Cidade Baixa. O que vier primeiro. E que cenas. Equipe esforçada. Elenco de primeiríssima linha. Estamos criando. Uma obra. Prima. Nada mais justo.

Sou suspeito. Dane-se. Verdade deve ser dita. Ano de merda este que passou. Comecei o ano numa situação e terminei com ela mil vezes pior. Conheci pessoas que teria o maior prazer em desconhecer. Mas também conheci pessoas maravilhosas. Comecei trabalhos épicos. Meus filhos cresceram lindos. E continuam crescendo lindos. Ela indo pra terceira série. Ainda tão longe de mim. Ainda tão carinhosa. Ele, um gênio. Perto, mas também tão longe. Também carinhoso.

Dizem que essas coisas são o que conta para o tal balanço que eu não queria fazer. Os que não me conhecem, se eu contasse passo a passo meu trajeto neste ano que passou, provavelmente chorariam comigo num cantinho sujo. Papel higiênico para enxugar as lágrimas. Verdade. Não sou deprê. Sou complicado. Dizem que é diferente. Mas dizem tanta bobagem por aí...

Enfim, cansei. Este novo ano, este 2008 novo, redondo, dizem que promete. Viramos a virada e nada mudou. A orla do Guaíba continuou fétida. A champanhe continuou barata. Minhas contas continuaram a assolar a mente. Mas as pessoas que conheci e que quero que fiquem comigo para sempre continuam por perto. Os Batedores continua sendo rodado. Meus filhos continuam lindos. As poucas coisas boas que consegui angariar neste ano que passou ainda estão aí. Todas elas. Algumas coisas ruins ainda persistem. Mas outras vieram e foram. Caíram. Pensando bem, isso é algo de bom, não?

A vida não mudou na virada. Mas é certo que as coisas vão melhorar e mudar neste novo ano. Neste 2008 que nos reserva surpresas. E o que não mudar pra melhor por si, será mudado na marra. Sem muito alarde. Meu destino quem controla sou eu.

Invariavelmente, este ano que chega será melhor. Bem melhor.

sábado, 29 de dezembro de 2007

"Os Batedores" na ZH.

Hoje saiu a primeira divulgação impressa do curta Os Batedores, na contracapa do Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Clique aqui para ler a matéria, ou corra para a banca mais próxima.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Magia.

...e atravessava a rua com passos pesados. Em volta, a paisagem desolada convidava o pensamento para o relembrar. Uma parada de ônibus. Sabia que ali havia tido discussões, feito promessas, se despedido. Uma, duas, várias vezes. Três pessoas esperavam o ônibus na manhã. Nenhuma das três era. Manhã pós-natal. Cedo. Uma época tétrica para os solitários. E ele era um. Observava o bar que pegou como seu, acostumado com o movimento noturno do lugar. Mas não era mais noite. O bar estava fechado.

Poucas pessoas saindo de suas casas. Ainda cedo. Na esquina, o sorvete barato que agora não tem preço. Também fechado. Pedia o de iogurte, com sabor de nada. Pedia por pedir. Gostavam disso. Além das grades, dois vagabundos dormiam na calçada da frente. “É o que resta”, pensou ele. Na transversal, os lugares com nomes estranhos que serviam de refúgio em algumas noites. Fechados. O natal faz isso com os lugares, não interessa os nomes que eles tenham. Lembrava que o tempo passava devagar quando chegavam nesses locais. Ofuscantes. Interessantes. Irresistíveis. Magia. Os ponteiros corriam rápidos logo depois. Tempo nenhum parecia suficiente. E não era. Cremes e taças de vinho eram bons no inverno. Fim de ano não é inverno.

Na esquina mais movimentada da Cidade Baixa havia uma alma penada. Ele olhava para um lado e via um cinema com filmes-cabeça. Olhos arregalados na tela. Risadas nervosas. Outra parada de ônibus naquela direção. Olhava para o outro lado e pedia o de sempre para o garçom de sempre: um para dois. A mesa era a de sempre também? Disso ele não lembrava. Ou lembrava e queria deslembrar. O sol já batia no seu rosto. Sol de cedo. Magia. Tinha que atravessar para a sombra e atravessou.

A nova calçada era velha conhecida. Via as mesas e cadeiras de costume espalhadas por tudo. O barulho das pessoas conversando e bebendo. Passavam costurando entre as mesas com sorrisos. Ele sempre na retaguarda. Mão direita grudada na mão direita. Mas cedo assim, não havia cadeiras, nem mesas, nem gente bebendo. Havia sim uma sopa de capelletti no pão que nunca aconteceu. Outra promessa. Quem vê, parece que só pensavam em comida, mas olhando melhor no fim daquela rua, ele se viu deitado num colo de banco de praça. Lendo alto um livro que não era seu. Bisbilhotando nos briques de domingo à procura de uma felicidade que cabia em seus bolsos. Magia.

Já tinha mais pessoas na rua quando ele ganhou a avenida. Era cedo, mas não era mais tão cedo. Por mais que caminhasse, parecia que seu travelling out insistia em lhe cutucar os sentidos. Sua manhã pós-natal era feita de insights e esquinas. Nem insights e nem esquinas são boas companhias no fim de ano. Na última por onde passou, viu alguém vestida de preto, ao lado de uma banca de revistas. No corredor de ônibus da avenida, alguns veículos cujo itinerário conhecia de cor já se projetavam. Via-os parando. Primeiro de perfil, depois de frente, esperando alguém descer. Esperava por algo/alguém? Chegou a parar por uns momentos. Gente feia descia dos ônibus. Dois, quatro, cinco desafortunados (as) que não conseguiram engrenar um recesso de fim de ano e tiveram que acordar cedo de seus sonhos. Nenhum dos cinco era. Ele não esperava que fosse.

Até ele dobrar na rua que queria, a avenida mantinha-se longa. Lembrava de ter parado algumas vezes em certo ponto de táxi, mas nunca pegou um táxi ali. Tarde da noite, sempre. Outro lugar de despedidas. Descobriu-se acostumado com isso: abanar e deixar seguir viagem. Desta vez, não teve abano. Só seguiu viagem. E como sempre e sempre esperado, voltaria sozinho para onde quer que fosse. O caminho continuaria longo, e não era mais tão cedo. Queria sorrir de desdém, mas atravessava a avenida com passos. Novamente pesados. A saudade muda não deixava que ele mostrasse os dentes. Saudade do que não.

Magia?

Como dizia o livro que não era dele:

“Achava que sim.”

“Que sim.”

“Sim.”

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

1º Teaser Trailer de "Os Batedores".

Agora é pra valer: vazou o primeiro teaser trailer do curta-metragem "Os Batedores", o mais novo projeto da Arquivo Morto em parceria com a Lumiere, onde contamos a história de Raul (Marco Soriano Jr.), um batedor de carteiras que vai ter de suar a camisa pra conseguir uma bolada até o fim do dia e pagar uma dívida pra um chefão do crime.

Para assistir, clique aqui.


Correria, situações bizarras, muita briga e pilantragem de primeira linha pintam a tela de "Os Batedores", que está em fase de captação de imagens e tem previsão de finalização para fevereiro de 2008. O filme é dirigido por Filipe Ferreira e roteirizado por este que vos escreve.

Tu encontras mais detalhes sobre o projeto nos textos anteriores deste blog (marcador "Os Batedores"), em textos que estão por vir, claro, bem como no blog Sobrevivendo ao Jogo e no blog da Arquivo Morto (links na coluna ao lado).

Fique de olho...

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Aos melhores amigos que alguém pode ter...

Este ano de 2007, diferente para alguns, bom para meia dúzia e terrível para outros (sou desta leva), está demorando para findar. Nesta reta final, alguns de vocês, meus melhores amigos, têm encontrado adversidades que fariam o Papa desacreditar em Deus.

É desestimulante quando noto que meus problemas, se comparados com os de vocês, é um simples pedaço de bolo. Desestimulante porque, se eu pudesse, abraçava-os todos para mim. Abriria a camisa e pintaria um alvo no peito com um letreiro dizendo “Acerta aqui, porra!”, unicamente para poder privar vocês, pessoas que amo e admiro, dessas mazelas que a vida tem lhes pregado.

Embora essas desventuras me façam pequeno, quero lhes dizer que estou aqui. Não importa se estão certos ou errados, doidos ou caretas, com enormes crises de melancolia ou não menores fases de alegria. Não importa. Estarei, hoje e para sempre, para sempre mesmo, do lado de vocês. E se não de maneira efetiva para sanar a situação, pelo menos fazendo o meu melhor, mesmo que, às vezes, o meu melhor não seja nada bonito de se ver.

Tenham força. Tenham fé. Este ano de tormento está acabando, e vamos superar ele e iniciar um novo juntos, com novas premissas, objetivos, e com a certeza de dias melhores.

Pois como diria Gandalf, “E a estrada em frente vai seguindo...”