terça-feira, 23 de junho de 2009

Campanha Encantada.

Já faz um tempinho que me encantei com uma série de quatro campanhas de TV, encomendadas pelo Governo Federal, nas quais personagens de contos de fadas dão dicas de cuidados que devemos ter com crianças em relação ao trânsito.



Em volta de uma grande mesa, figuras como Chapeuzinho Vermelho, os Três Porquinhos, a Fada Madrinha e o Espelho Mágico (entre muitas outras criaturas e personagens famosos) discutem maneiras de proteger as crianças dos acidentes de trânsito, cujos números de ocorrência chegaram na casa dos 20 mil, apenas no ano de 2006.



Idéias como "construir casas sobre rodas" ou "levar todas as crianças para a floresta, onde não tem ruas" são colocadas na pauta, debatidas em clima de reunião. Além de diálogos belos e engraçados, os vídeos possuem ótima direção e produção de primeira: os atores e atrizes são muito bem caracterizados em seus papéis fantásticos, com escolha de casting feita à dedo.



A campanha Ajude a Salvar Nossas Crianças - Cuide Delas no Trânsito foi um investimento de R$12, 6 milhões dos fundos do Denatran (entre distribuição em emissoras, rádios, outdoors, buldoors, folderes e cartazes) que denota a intenção de prevenção adotada pelo Governo Federal. Na minha opinião, uma grana bem aplicada.



Você pode conferir os vídeos nestes links do YouTube distribuídos ao longo do texto, ou pode baixá-los no próprio site do Ministério das Cidades, clicando aqui.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Más notícias.

Pouco mais de três horas atrás, o STF derrubou a exigência de diploma para o exercício de jornalista. Por 8 votos a 1, o dilema do pré-requisito do curso de Jornalismo para ocupar uma vaga em um veículo de comunicação foi colocado por terra, em uma discussão que vinha desde 2001. O relator do projeto e presidente do STF Gilmar Mendes citou que “a formação específica em cursos de Jornalismo não é meio idôneo para evitar eventuais riscos à coletividade ou danos a terceiros”.

Concordo plenamente com o Dr. Gilmar. Ele apenas esqueceu de acrescentar que uma formação específica em cursos de Direito também não é meio idôneo para evitar riscos ou danos à terceiros, nem formação específica em cursos de Medicina, nem de Engenharia, nem de Biblioteconomia (afinal, vai que o fulano acabe derrubando um livro pesado no seu pé, certo?).

É fato que em todas as profissões há quem fará feio, pelo menos enquanto elas forem laboradas por seres humanos. Nenhum curso no mundo mudará isso. Tirar esse pré-requisito das vagas a serem preenchidas nos meios de comunicação, meios estes que ditam tendências, transmitem as notícias, explicam as descobertas e, com isso, controlam a informação, é de uma irresponsabilidade ímpar, e espelha o caso de praxe onde a necessidade de poucos – neste caso, os sindicatos de rádio, jornal e televisão, cujos representados poderão contratar qualquer blogueiro a preço de banana – sobrepõe a necessidade dos demais: o povo brasileiro, que continua carecendo de boas notícias.

Mais detalhes da notícia podem ser conferidos aqui.

Ser ou não ser...um vulcano.

Depois de me divertir com as memórias de William Shatner relativas à produção da série clássica de Star Trek, o segundo livro biográfico Trekkie que meu colega de trabalho me emprestou não deixou por menos: Eu Sou Spock, escrito pelo ator Leonard Nimoy, tem um título pra lá de intrigante e, claro, chamativo. Curiosamente, ele foi escolhido pelo autor para solucionar um mal entendido que vinha perdurando desde 1975, quando escolheu intitular seu livro anterior como Eu Não Sou Spock, a fim de não se deixar estigmatizar pelo célebre personagem de orelhas pontudas.

Graças a esta (infeliz) decisão, Nimoy angariou toda sorte de infortúnios que a má escolha de um título poderia proporcionar. Era para ser uma análise simples e direta, enumerando que Leonard Nimoy existe e é um homem de carne e osso e que Spock, embora amado por milhões de pessoas, é apenas um dos muitos personagens que o ator é capaz de interpretar, porém, Eu Não Sou Spock atraiu a fúria de grande parte dos Trekkies da época e colocou uma série de dúvidas nas cabeças dos executivos da Paramount, que pensavam em produzir uma nova série de Star Trek (a Phase II), mas tinham certeza absoluta de que Nimoy odiava Spock demais para querer reprisar o papel.

Para fazer as pazes com os fãs que ainda tinham dúvidas de seu afeto pelo vulcano e nos trazer uma série de informações sobre sua carreira como ator e diretor, os bastidores de Star Trek (da série clássica, até os seis primeiros filmes para o cinema) e suas concepções acerca da criação e manutenção do personagem Spock, eis que Leonard nos brinda com Eu Sou Spock, 20 anos depois de sua gafe literária.

Logo na primeira frase do livro, Nimoy nos confidencia algo perturbador: ele fala sozinho. E não é só isso: a voz que lhe chama e conversa com ele praticamente todos os dias é lógica, ponderada e isenta de emoções. O ator admite que, desde o dia em que deu vida a Spock até o fechamento do livro, o vulcano tem se tornado parte de sua psique de uma forma implícita, mas muito presente em sua vida. Não era raro pegar-se pensando de maneira fria e até falando como E COM Spock. Estas conversas que tem com seu alter ego são ilustradas em divertidos diálogos espalhados por todo o livro, que nos dão uma idéia de como o ator lida com o seu alienígena interior nas mais inusitadas situações.

É curioso notar que, embora Spock seja um personagem lógico, incorruptível e competente no que faz, o próprio Leonard Nimoy carrega essas características na sua vida pessoal e profissional (e, claro, muito disso foi levado para a criação do vulcano). Cito o exemplo da jovem que roubou o carro da mãe e gastou mais de 1500 dólares em cheques roubados para chegar até Holywood e poder ver Leonard Nimoy de perto. Nas palavras do próprio ator: “é claro que fiz questão de não vê-la, afinal, não queria encorajar aquele tipo de comportamento”.

O acuro com o qual o ator lidava com suas falas e os roteiros dos episódios de Star Trek - The Original Series (ou TOS, como é conhecida), demandavam memorandos e mais memorandos de dicas e reclamações. Um ótimo exemplo disso é um memorando carinhoso que o ator enviou para os produtores de TOS, relativo ao episódio Whom Gods Destroy, dizendo que não tinha know-how para interpretar “palermas” (no referido episódio, Spock encontra problemas em identificar o verdadeiro Capitão Kirk de um farsante e chega a ser desarmado pelo mesmo, que estava de mãos vazias). Claro que haviam também ótimos memos de outros engajados na série que foram ilustrados no livro, como o famoso memo que Bob Justman, Co-Produtor da Série Clássica, mandou para Gene Roddenberry, sugerindo que todos os vulcanos machos deveriam ter seus nomes próprios com cinco letras ao todo, começando com SP e terminando com K, e relacionando exemplos hilários, onde pérolas como Spruk e Sperk figuravam numa lista maluca de nomes.

A maneira polida, mas enfática, de Nimoy requisitar melhorias para poder executar melhor o seu trabalho, também renderam ótimos relatos e espelham, no livro, o quanto era árduo o dia-a-dia nos estúdios da Desilu, com todo tipo de cerceamento de verba que a NBC podia exercer (já que a mesma não acreditava no programa) e uma carga horária bem puxada: o dia de Nimoy começava às 6 da manhã na cadeira de maquiagem (lamento ser eu a dizer isso, mas aquelas orelhas pontudas eram falsas) e terminava, pontualmente, às 18h18min, quando os encarregados do estúdio desligavam as luzes (isso era religioso: não importava se estavam no meio de uma filmagem ou não, as luzes se apagavam naquele horário).

Além de abordar sua participação na série e os efeitos da popularidade de Spock em sua vida (como, por exemplo, multidões lhe perseguindo e planos de contingência para entrar num restaurante para comer) e na amizade que tinha (e ainda tem) com William Shatner, Nimoy faz um apanhado de sua carreira nos palcos e, principalmente, atrás das lentes. Curiosidades de como pegou a direção de Jornada nas Estrelas III – À Procura de Spock, e de como a Paramount tentou de tudo para colocar Eddie Murphy (?) no 4º filme da franquia estão lá, contadas nos mínimos detalhes. Suas experiências na direção de O Preço da Paixão e Três Solteirões e um Bebê também estão no livro.

A narrativa segue até a participação que fez no episódio duplo Unification de Star Trek – The Next Generation (ou TNG, como é conhecida), onde os tripulantes da Nova Geração se encontram com o vulcano (que, vale lembrar, pertence à cronologia da Série Clássica, que se passa no ano de 2266, enquanto o 1º episódio da Nova Geração se passa em 2364, evidenciando a longevidade dos vulcanos). Aqui, o ator abre um parênteses para dizer que mordeu a língua ao conjeturar o fracasso de uma nova série que não fosse protagonizada pela velha tripulação (referindo-se, claro, ao lançamento da Nova Geração), pois não acreditava que pudessem capturar o gênio na garrafa duas vezes (felizmente, vimos que Nimoy estava errado: TNG foi um grande sucesso, rendendo 7 temporadas e 4 filmes para cinema).

O livro foi finalizado próximo ao lançamento do filme Generations (no qual o ator recusou-se participar, pois Spock não tinha função efetiva na trama), mas a obra de Leonard Nimoy não encerrou-se por aí. Além de participação em alguns seriados e de sua carreira fotográfica, podemos conferir o retorno do ator, de forma graciosa e emocionante, ao papel que marcou sua vida no novo Star Trek, de J.J. Abrams. Como um bom roteiro sempre foi pré-requisito para a participação de Leonard Nimoy em algum projeto, eu sabia que o filme de Abrams não ia decepcionar, e eu estava certo (como você pode ler aqui).

Com seu peculiar sendo de humor e todo o saudosismo que um ótimo livro pode transmitir quando está na última página, Eu Sou Spock se despede com o caso verídico do engano mais certeiro que alguém já cometeu ao trocar os nomes de uma celebridade.

“- Claro que sei quem você é. É o Sr. Leonard Spock”.

***

Dica de Livro:

Eu Sou Spock

Autor: Leonard Nimoy
Pág: 290
Editora: Mercuryo
Ano: 1997

Ao contrário de seu capitão, Nimoy não precisou de um co-autor para reunir os predicados de um livro informativo, curioso e muito bem escrito. A leitura flui e cativa, tanto para Trekkies quanto para pessoas... normais.=P

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Fim de semestre.

Pra muita gente, fim de semestre é sinônimo de pernas pra todo lado (ao contrário do que pensam alguns dos psicopatas que acompanham este blog, não é no sentido membros inferiores decepados espalhados pelos cantos). Prazos e mais prazos da facul. Eventos. Chegadas de pessoas e de estação. O dia só tem 24 horas e, mesmo se tivesse 36, seria curto para tanto a fazer.

Como se não bastasse a urgência de tudo e a abstração de pôr isso num blog (que, em tese, me come tempo e não me acrescenta em nada), uma forte gripe tem me assombrado as narinas. Não é raro ter de sair no meio de uma aula - ou mesmo de uma conversa - para soar o nariz escondido no banheiro, como se isso fosse um ato criminoso e/ou vergonhoso. Cuspir na frente dos outros então, nem pensar. Te olham com aquela carinha de nojo, como se escarrar fosse tão feio quanto bater na própria mãe.

Um dia entenderei esses humanos.

Enquanto isso não acontece, me protejo do frio como posso e vejo outras pessoas fazerem o mesmo. Não sou ligado em estações do ano (quando elas vêm, quando elas vão), mas fiquei sabendo que o inverno nem chegou ainda e já enfrentamos frios de quase 0º aqui em Porto Alegre (uma cidade que tem as quatro estações do ano num único dia). Os ônibus, então, são um desfile de modelitos dos mais ecléticos: da menina do Direito com seu cachecol peludo e casaco de couro liso, ao afegão com uma parka que dói nos olhos. Nada contra quem usa parka. Eu tenho uma, bem guardadinha no meu guarda-roupa para o dia em que Ace Of Base voltar às paradas de sucesso (para os mais velhuscos aí, segue um velho hit da banda sueca - se prestarem atenção na letra, vão constatar que o Sr. Ácido era um dos compositores).

The Sign (Ace of Base)

Shock!

I gotta new life
You would hardly recognize me I'm so glad
How could a person like me care for you
Why do I bother
When you're not the one for me
Oooo, is enough, enough

I saw the sign and it opened up my eyes I sae the sign
Life is demanding without understanding
I saw the sign and it opened up my eyes I saw the sign
No one's gonna drag you up to get into the light where you belong
But where do you belong

Under the pale moon
For so many years I've wondered who you are
How can a person like you bring me joy
Under the pale moon
Where I see a lot of stars
Is enough, enough

I saw the sign...

I saw the sign and it opened up my mind
And I am happy now living without you
I've left you, ooohhh
I saw the sign and it opened up my eyes I sae the sign
No one's gonna drag you up to get into the light where you belong

I saw the sign - I saw the sign - I saw the sign



Além dos ônibus que tenho de pegar, dos trabalhos de facul que tenho de entregar (os quais eu deveria estar digitando neste exato momento) e textos para estudar (os quais eu deveria estar lendo neste exato momento), tenho a proveitosa tarefa de divulgar o lançamento do mais novo curta-metragem da Arquivo Morto: Os Batedores, finalmente, está terminado, e o produto final ficou muito, muito, muito bacana. Sou suspeito, claro, mas se quiseres ver para crer, vamos exibir o treco com entrada franca no dia 26/06, às 21:30h, no CineBancários (uma sala de cinema muito charmosa, que pouca gente conhece, na Rua da Ladeira). Já que (ainda) não sei como mandar Spam via Scrap no Orkut, passei a manhã toda copiando e colando o flyer-convite (logo abaixo) nos Scrapbooks alheios.

Quero todos lá!

Merchandising à parte, embora amanhã passe o Dia dos Namorados sozinho, essa situação se resolve na semana que vem, quando devo me preparar para o retorno da minha namorada, que passou um bom tempo em Barcelona (5 meses). Nem preciso dizer que esse semestre demorou pra passar, certo? Também nem preciso dizer que estarei incomunicável pelos próximos três fins de semana, certo? Bom, se sentirem a terra tremer, as estrelas faiscarem ou escutarem os golfinhos cantando alguma música ao estilo Mariachi no dia 20/06, tentem não dar muita bola pra isso e sigam suas vidas com aquela pontinha de inveja, certo?=P

O lado bom de toda essa correria (facul, trabalho, projetos, namoro, amigos, filhos, mais projetos...), é que, ao terminar este semestre, terei uma pseudofolga de um mês da PUCRS (terei mais de 4 horas/dia de sono, eba!), a oportunidade de colher as críticas (e elogios, espero eu) do meu trabalho em Os Batedores, minha namorada de volta pra poder fazer carinho, abraçar, beijar...e etc, novos desafios cinematográficos, o retorno das séries que acompanho, novas disciplinas e colegas na facul...

...e a oportunidade de correr tudo de novo.;-)

terça-feira, 9 de junho de 2009

terça-feira, 2 de junho de 2009

Memórias de um Capitão.

JustificarAproveitando um pouco a renovada Onda Trekkie (ou Trekker), um colega de trabalho me disponibilizou, há umas duas semanas atrás, o livro Jornada nas Estrelas: Memórias, escrito em 1993 pelo ator William Shatner (e co-escrito por Chris Kreski). O livro tinha pretensões de ser uma espécie de “diário definitivo” dos bastidores de Star Trek: The Original Series, narrado pelo próprio interprete do Capitão Kirk que, segundo nota de capa, tinha uma visão privilegiada de toda a função que foi colocar Star Trek na bitolada TV de 1966, e mantê-la no ar por três temporadas.

Se este é mesmo o diário definitivo de como o fenômeno trekkie foi criado, eu realmente não sei (não li outros impressos que também tomam para si esta função, mas sei que existem), porém, é inegável que Shatner estava mesmo em uma posição apropriada para a coleta de dados, e a gama de informações fascinantes que o livro traz, sob a ótica fanfarrona e irreverente do ator, não me deixa mentir.

As duas primeiras páginas soam como uma tentativa de Shatner em colocar sua veia autoral no papel: com literatura mediana (algo no estilo “como escritor, ele é um bom ator”), o eterno Capitão Kirk narra suas primeiras ações de um dia de trabalho em uma manhã de 93. Seus pensamentos, no entando, se arremessam para um evento anterior, no qual ele e o restante do elenco da série original deixaram a marca de suas mãos no Moon Theater. Informações sobre como George Takei (Sr. Sulu) parecia ter problemas nos dedos de tanto cumprimentar o povo com o famoso cumprimento vulcano, ou de como DeForest Kelley (Dr. McCoy) errou o próprio nome ao escrevê-lo no cimento, eram apenas pequenas curiosidades que serviram de gancho para Shatner relembrar o início desta longa e profícua viagem, na distante década de 60.

Após os acessos “literários” (que resume-se a 5 páginas, no máximo), o ator nos presenteia com inúmeras informações de bastidores, tanto técnicas, quanto curiosas, embasadas em depoimentos de pessoas próximas à produção, equipe e elenco de Star Trek. Shatner conta, por exemplo, como Gene Roddenberry (o criador da série) entrou em um bar, vestido de policial rodoviário, com um roteiro embaixo do braço e, literalmente, intimou um famoso agente hollywoodiano a ler seus rabiscos. Toda a luta de Roddenberry para vender seu programa de ficção científica, os dois pilotos, as loucuras exigidas pela NBC, as condições precárias dos Estúdios Desilu (e as soluções mais que engenhosas dos produtores), bem como as relações interpessoais entre os atores e a equipe, são apenas uma parcela das muitas pérolas que William Shatner conta, intercalando com fotos (e alguns comentários engraçados nos créditos das mesmas) e desenhos de cenários (cortesia do Diretor de Arte Matt Jefferies). Além disso, comentários e curiosidades relativos a vários episódios são contados e indicados para uma análise posterior, quando o leitor quiser rever o tal episódio (como o olhar de terror real de Kirk em The Naked Time, quando George Takei, fora de controle, investe contra Shatner munido de um florete).

Shatner descreve também algumas peculiaridades de sua relação com seu colega de cena e amigo Leonard Nimoy, bem como a relação de ambos com as alegrias e agruras do programa. Os memorandos polidos e ácidos de Nimoy para seus produtores, implorando para que seu personagem (Spock) fosse respeitado pelos roteiros ruins da 3ª Temporada, são transcritos com toda a sua sutileza. Os trotes que Shatner dava no amigo, bem como as famosas brincadeiras de Roddenberry com todo mundo (nem o alfaiate chato da esquina escapava) também são narradas, conferindo ao livro um clima saudosista e familiar (essa palavra é usada inúmeras vezes por Shatner para descrever a relação que todos os envolvidos no programa tinham entre si).

Curioso também que o ator/autor leva a narrativa de um jeito brincalhão e, muitas vezes, egocentrista (conforme sua própria fama de “estrela”), mas de uma forma claramente chacotesca consigo mesmo (como na passagem onde diz que o Capitão Kirk foi criado para ser um homem quase perfeito, atuado por um homem que ERA perfeito). As brincadeiras que faz acerca do personagem X ator são mais que bem vindas, e mostram um William Shatner que visivelmente amadureceu de um galã e astro de ficção científica para alguém que consegue olhar além de seu próprio umbigo.

Esta característica de estrelato é admitida pelo próprio Shatner ao contar que, em dado momento, o sucesso estrondoso de Spock e a visibilidade que Nimoy havia atingido a partir do 6º mês de programa o incomodava...e muito. Tanto que chegou a ir falar com Roddenberry sobre o assunto, requisitando algumas modificações para que o amigo tivesse menos tempo em tela e coisas do gênero. É claro que Gene deu uma resposta amável, mas a altura, e Shatner voltou ao programa com o rabo entre as pernas, percebendo o quanto soou infantil. Este episódio aliado à mea-culpa que faz com outras pessoas do elenco no final do livro (onde entrevista cada um e eles lhe dizem, cara à cara, por que o desprezam como pessoa e profissional), não deixam dúvidas de que este livro, mais do que um valioso registro documental, foi uma forma que o ator encontrou de enfrentar seus fantasmas. Se foi jogadinha de marketing ou arrependimento real, eu ainda não sei, mas admito que, se já simpatizava com William Shatner e considerava o Capitão Kirk como melhor personagem da série, este livro consolidou este status.

Enfim, além de leitura obrigatória para quem curte a Mitologia Trekkie, Jornada nas Estrelas: Memórias é também um livro interessantíssimo para quem trabalha com produções de audiovisual (como eu) e constata como esse pessoal driblava as adversidades (muitas vezes usando táticas que hoje adotamos no cinema de guerrilha). Para os menos informados, é um livro que conta, em linguagem muito simples e de forma bem humana, uma história de trabalho árduo e familiar, com problemas e resoluções, alegrias e tristezas. Não é um épico literário, mas é uma excelente leitura de entertenimento e de entendimento do mito Star Trek.

***

Dica de Livro:
Jornada nas Estrelas: Memórias
2ª Edição
Autor: William Shatner
Co-Autor: Chris Kreski
Pág: 350
Editora: Nova Fronteira
Ano: 1995

Próxima parada: Eu Sou Spock.