quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Fundação de Papai Noel

Em sua primeira imagem, publicada em 1863 na revista Harper's, de Nova York, Papai Noel - chamado de Santa Claus - era um gnomo gorducho entrando numa chaminé. Nasceu da mão do desenhista Thomas Nast, vagamente inspirado nas lendas de são Nicolau.

No natal de 1930, Papai Noel foi contratado pela Coca-Cola. Até então, não usava uniforme, e em geral preferia roupas azuis ou verdes. O desenhista Habdon Sundblom vestiu-o com as cores da empresa , vermelho vivo com filetes brancos, e deu a ele os traços que todos conhecemos. O amigo das crianças usa barba branca, ri sem parar, viaja de trenó e é tão rechonchudo que não se sabe como consegue entrar pelas chaminés do mundo, carregado de presentes e com uma Coca-Cola em cada mão.

Tampouco se sabe o que ele tem a ver com Jesus.

(GALEANO, Eduardo. Espelhos – uma história quase universal. Tradução de Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 67\68)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Um mundo feito de luz.

Esse título resume com precisão o planeta onde se passa a história do filme Avatar, do diretor James Cameron, que estreou mundialmente nesta última sexta-feira. Cameron, que não dava as caras na tela grande há 12 anos (desde o grandioso Titanic), trabalhou todo esse tempo nos bastidores dessa nova produção, escrevendo o roteiro, avaliando e criando conceitos, e no aguardo de uma tecnologia que lhe possibilitasse mostrar este novo universo com o máximo de realidade possível. Com o advento do 3D e do FullHD, o impossível tornou-se possível, e logo a equipe de marketing da 20th Century Fox iniciou uma campanha em massa que fez de Avatar o filme mais aguardado do ano.

Mas do que diabos trata essa superprodução? É a história de Jake Sully (Sam Worthington, novo arroz de festa de Hollywood), um ex-fuzileiro paraplégico que é chamado por uma companhia mineradora ao planeta Pandora, lar dos Na’vis (humanóides azuis primitivos de três metros de altura e aspecto felino). Os confrontos constantes entre os humanos e essas criaturas fazem com que os peles-brancas utilizem dos avatares – na’vis criados em laboratório e controlados telepaticamente pelos humanos através de um aparelho complexo (muito parecido com o princípio das cadeiras utilizadas por Morpheus e sua turma em Matrix) – para uma melhor aproximação com os nativos.

Até aí, tudo se encaminhava para algo que podia ser surpreendente. Um excelente início (com viajantes saindo de gavetas e flutuando em naves gigantescas, estilo o 2001 de Kubrick), bons conceitos e efeitos visuais animais (os avatares são perfeitos, inclusive sua interação com os atores e objetos reais), juntamente com a vontade de ver James Cameron metendo a mão na massa de novo (ele sempre foi um puta diretor, não importa o quanto Titanic pareça piegas) prometiam uma história fascinante. Isso durou até o exato momento no qual o avatar de Jake encontra Neytiri (Zoe Saldana que, infelizmente, não tem versão de carne e osso nesse filme), uma nativa que o leva até sua tribo.

Daí em diante tudo, absolutamente TUDO, é um amontoado de clichês que vai do ingênuo ao inacreditável. Você vê praticamente todos os filmes modernos de temática indígena jogados no roteiro (posso citar Pocahontas, Dança com Lobos, O Último dos Moicanos, e até o insosso Em Terreno Selvagem, só para começar) “alicerçados” por um time de personagens para lá de esteriotipados: encontramos o velho chefe da tribo, o empresário ganancioso que está se lixando para a natureza, o coronel linha dura difícil de matar (até cicatriz nas fuças o cara tem), a filha do chefe que se apaixona pelo homem branco, o maior guerreiro da tribo (que, claro, antipatiza com nosso herói), e até a velha sábia curandeira dá o ar de sua graça, todos lá, abraçados na velha história do homem branco contra o índio (ou qualquer outra tribo considerada primitiva), em busca das riquezas naturais de suas terras. O roteiro de Cameron é tão simplório que entrega – lá pelos 40 minutos antes do final – exatamente que fim levará Jake e seu avatar. Todos esses atropelos fazem o filme mais esperado do ano ter o roteiro mais batido da década.

E se a história de Avatar é mais do mesmo (o que não significa que o roteiro possui buracos, deixemos essa diferença clara), o mesmo não se pode dizer do visual do filme. Para mostrar o planeta e a empatia que seus habitantes azuis possuem com o mesmo, o diretor não poupou esforços: as imagens – aumentadas com a tecnologia 3D – são simplesmente de embasbacar. Pandora é um absurdo em cores, geografia e luzes (por sinal, tudo se ilumina no lugar, do mais simples arbusto, aos próprios na’vis, que brilham no escuro num visual muito bonito). Os lugares retratados no filme são escabrosamente delirantes, com direito a montanhas flutuantes e árvores com quilômetros de altura. A fauna e a flora do lugar também assombram, com espécimes animais dos mais estranhos e perigosos (lembrando muito os perigos de Jurassic Park), e plantas que se mexem e se iluminam em formas e cores fascinantes. E os índios deste lugar, com seus arcos e flechas, suas peles azuis, seus corpos esguios, e semblantes serenos e iluminados por sardas fluorescentes, fazem parte dessa fantástica composição, que deve ser vista com a devida tecnologia 3D (ou Imax, se você for um afortunado e tiver uma sala com essa opção na sua cidade), para nunca mais ser esquecida.


***

Dica de filme:

Avatar
Diretor: James Cameron
Elenco: Sam Worthington (Jake Sully), Zoe Saldana (Neytiri), Sigourney Weaver (Dra. Grace Augustine), Giovanni Ribisi (Selfridge)
Duração: 166 minutos
Gênero: Ficção Científica
Ano: 2009

O resumo da ópera pede que você, espectador acostumado a analisar as nuances de uma história bem contada e inovadora, desligue um pouco seu senso crítico, compre um belo pacotão de pipoca e não espere para conferir o filme em DVD, Blu-Ray ou no Torrent mais próximo: assista no cinema, e delicie-se com essa nova realidade visual.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve.

Há pouco mais de 7 meses, dias antes da estréia do novo Star Trek nos cinemas, escrevi minhas impressões sobre uma das minhas franquias preferidas de toda cultura Pop. O Universo Trekkie, através da série clássica de TV estrelada por William Shatner e Leonard Nimoy, já havia me arrebatado quando eu era um piá ranhento, e voltou a me conquistar – neste ano – quando baixei os 80 episódios do seriado dos anos 60 para rever. Foi uma experiência incrível, que não apenas resgatou um pouco daquele menino que passava suas manhãs na frente da televisão, como me possibilitou conferir toda a genialidade do criador e produtor da série – Gene Roddemberry – na minha melhor forma crítica. Em uma só palavra e sem medo de fazer referência: fascinante.

Mas eis que o Universo Trekkie se expandiu para filmes (os quais já havia assistido todos), livros (são tantos que, infelizmente, não poderei correr atrás) e outros quatro seriados, que abordaram não somente as aventuras da nave estelar Enterprise da série clássica, como trouxeram para as telas sagas protagonizadas por outras naves e tripulações, situadas em séculos diferentes das histórias do Capitão Kirk e Cia, mas contidas no mesmo universo mostrado na primeira série, constituindo uma cronologia. E é sobre uma dessas séries, cuja história se situa aproximadamente 80 anos depois da história do seriado clássico, que este texto trata.

Star Trek: The Next Generation (ou TNG para os Trekkies) estreou em vários canais americanos no ano de 87 (21 anos depois do encerramento da série clássica). Tinha este nome por trazer para o público uma tripulação bem diferente da qual os Trekkies estavam acostumados em uma nave que lembrava bem de longe a boa e velha Enterprise, mas que possuía o mesmo nome de guerra. Aliás, eram tantas as mudanças de conceitos que muitos apostaram que o programa seria um fracasso (o próprio Nimoy, intérprete de Spock, se recusou categoricamente a participar do novo projeto, prevendo um desastre). Obviamente, os descrentes estavam errados.

A série, que durou 7 temporadas, conta a história da USS Enterprise NCC – 1701D, uma nave classe Galaxy, com capacidade para 1000 pessoas (a antiga nave de Kirk tinha capacidade para 400), que tem a missão contínua de explorar novos mundos, novas vidas e civilizações, além de representar e proteger o espaço pertencente à Federação. Ao contrário de sua antecessora, a nova Enterprise D possui inúmeras áreas dedicadas ao lazer e aprendizado dos tripulantes (bar panorâmico, laboratórios, escola e o famoso Holodeck, do qual falarei mais adiante) e, embora seja a nave capitânia da Federação (e, portanto, tenha um absurdo poder de fogo), é uma nave voltada para a paz e exploração, tanto que parte das pessoas que vivem na Enterprise é formada por filhos dos tripulantes.

A tripulação principal de TNG é composta por personagens complexos e de diversas raças, cujas personalidades e dramas pessoais foram plot para muitos dos episódios (ao passo que, na antiga TOS, tudo girava em torno da tríade Kirk/Spock/McCoy, relegando o restante da tripulação ao status de “enfeite”). Eis a Nova Geração:

Capitão Jean-Luc Picard (Patrick Stewart) - Fã de chá Earl Grey e fascinado por arqueologia, o francês Jean-Luc Picard comanda esta nova Enterprise com a astúcia e elegância de um lorde europeu. Careca, franzino e quase um cinqüentão, a recepção do novo capitão não foi das mais suaves por parte dos fãs da série (que estavam acostumados com o arquétipo Kirk – do capitão galã e bom de briga), mas essa impressão de que Picard não era adequado para o comando caiu por terra à medida que o personagem mostrou-se um líder nato, um estrategista brilhante, e um homem cujo caráter inabalável é fonte de justiça, verdade, constância e inspiração. Há um meme na internet que usa a seguinte frase para descrever Jean-Luc Picard: “Qualquer um que é familiarizado com a série, irá facilmente admitir que ele é um dos melhores personagens já sonhados. É como Sean Connery, Indiana Jones, Lex Luthor e o Rei Salomão, todos em uma só pessoa.”

Primeiro-Oficial William T. Riker (Jonathan Frakes) - Uma das grandes mudanças de conceito no Universo Trekkie foi a adição do Primeiro-Oficial como o “faz tudo” do capitão. William T. Riker é o segundo-em-comando da Enterprise e sua diretriz básica é obedecer as ordens de Picard, EXCETO se essas ordens levarem seu capitão ao perigo. Desta forma, Riker acabou sendo o líder de campo de quase todas as explorações em planetas inóspitos, enquanto Picard comandava tudo da nave. Altivo, competente e rígido quando o assunto pede o cumprimento do dever (mesmo que isso o jogue contra um outro tripulante ao amigo), o diligente imediato encontrou na Enterprise um lar que o fez, inclusive, recusar diversos comandos de outras naves. Pessoalmente, o canadense Will Riker adora jazz, é um excelente jogador de poker e faz as vezes de “galã” da nave ao flertar com qualquer forma humanóide que seja do sexo feminino.

Tenente-Comandante Data (Brent Spiner) - Data é um andróide que foi encontrado pela Federação em um antigo planeta-colônia dizimado por uma estranha forma de vida. Criado pelo brilhante Dr. Noonien Soong, o andróide possui um cérebro positrônico que lhe permite uma espantosa capacidade computacional e habilidade para realizar a maioria das atividades humanas, com força e agilidade proporcionais a de diversos homens. Embora execute suas funções com perfeição, Data possui o desejo latente de se tornar o mais humano possível, tentando entender as nuanças das emoções e sentimentos que observa em seus colegas terráqueos, uma vez que é incapaz de sentir qualquer coisa. Este anseio por humanidade, aliado à sinceridade mecânica e sua aparência por vezes ingênua é responsável pela grande aceitação do público e por inúmeros episódios memoráveis da série.

Oficial Médica-Chefe Dra.
Beverly Crusher (Gates McFadden) - A Dra. Beverly Crusher é a responsável pela ala médica da nave. Sua postura decidida e passional, assim como sua ligação de anos com o capitão, tornam-na a única pessoa capaz de confrontar a personalidade de Picard. Além disso, ambos têm uma forte relação de amizade e ressentimento, uma vez que o marido de Beverly morreu sob as ordens de Jean-Luc.

Tenente Worf (Michael Dorn) - Outra das grandes mudanças atribuídas a TNG: a presença de um klingon (inimigos declarados da federação na época de Kirk) na ponte de comando. Filho adotivo de humanos após sua colônia ter sido devastada por romulanos, Worf espelha o relacionamento atual da Federação com o Império Klingon, pois é o único de sua espécie a servir na Frota Estelar (já que seu povo considera tal feito um ultraje). Leal e com o senso de honra inerente à sua violenta raça, o tenente Worf está em constante batalha para equilibrar sua educação e vivência humana com sua herança klingon, além de estar sempre em busca de suas origens, mantendo costumes e tradições dos seus antepassados guerreiros. É o único personagem regular em duas séries do Universo Star Trek (TNG e Deep Space Nine).

Engenheiro-Chefe Geordi La Forge (LeVar Burton) - Responsável pela Engenharia, Geordi é o melhor amigo de Data. Devido a uma cegueira congênita, usa um visor-prótese que lhe é encaixado em suporte nas têmporas e lhe permite enxergar através de espectros eletromagnéticos. Possivelmente o humano mais inteligente da nave (suas idéias, ao lado das de Data, já salvaram a Enterprise mais vezes do que qualquer um pode contar), La Forge não tem muita sorte com mulheres, tendo seus encontros constantemente frustrados por sua inexperiência.


Conselheira Deanna Troi (Marina Sirtis) - Um novo posto na ponte de comando, a cadeira de conselheira do capitão é ocupada pela meia-humana-meia-betazoid Deanna Troi, que graças à sua condição de híbrida, pode “sentir” as emoções alheias através de poderes telepáticos. Serena e doida por chocolate, Troi tem uma história antiga com Will Riker e, além de lidar com os medos e frustrações de toda a nave como psicóloga, tem de agüentar as visitas ocasionais de sua espevitada e escandalosa mãe.


Alferes Wesley Crusher
(Wil Wheaton) - O filho de Beverly Crusher começa a saga de TNG como um menino gênio de 12 anos curioso com qualquer coisa relacionada à Enterprise. Porém, a inteligência prodigiosa de Wesley já salvou a nave uma pá de vezes, conferindo-lhe, mais tarde, uma indicação do próprio Picard para ingressar na Academia da Frota Estelar. Embora sua presença inicialmente tenha sido detonada pelo público (e depois aceita...com reticências), pode-se dizer que Wesley Crusher é a alma da série, pois espelha a proposta da nova Enterprise de ser uma espécie de casa, escola, laboratório e nave de combate, imbuídos em um universo de conquistas e aprendizado.

Holodeck - Esta parte da nave ganha menção honrosa na galeria de personagens por ser um dos locais onde muitas das aventuras da Nova Geração se inicia. Trata-se de uma sala da Enterprise utilizada para diversão e treinamento da tripulação, que utiliza hologramas e feixes de campos de força para simular praticamente qualquer ambiente, cenário, ferramenta ou mesmo formas de vida e pessoas, detalhados com realismo através do banco de memória da nave. Você pode ler um artigo super interessante e detalhado sobre essa maravilha clicando aqui.

Com esta tripulação, TNG apresentou ao público uma gama de histórias e situações fantásticas que trouxeram os mais variados assuntos. Seguindo a escola da série clássica, a nova geração enfrentou crises, batalhas, dilemas morais, conflitos políticos, religiosos e culturais, porém, com um suporte de produção e efeitos muito além do que era disponível para Gene Roddemberry na década de 60. Se antes a Paramount não abria a mão e o produtor tinha de se virar com soluções criativas para problemas financeiros, desta vez Star Trek estava tendo um tratamento digno de uma brilhante saga. A qualidade inquestionável de TNG rendeu-lhe 18 Prêmios Emmy e dois Prêmios Hugo ao longo de seus 7 anos de existência, além de render 4 filmes para o cinema.

E se a produção era ostensiva, os roteiros não deixavam por menos: TNG inovou inúmeros parâmetros da ficção científica na TV ao usar autores como D.C. Fontana, Diane Duane, John D. F. Black, Michael Reaves, Ronald D. Moore, Richard Manning, e tantos outros monstros sagrados em seus episódios, conferindo uma qualidade absurdamente foda das histórias (principalmente as que eram exclusivamente sobre ficção científica). Foram pessoas assim, ao lado de Roddemberry, que trouxeram a paz entre humanos e klingons, que indagaram o que é considerada apenas uma propriedade e o que é – de fato – um ser artificial vivo e sesciente, que transformaram os romulanos em inimigos mortais da Federação, que nos trouxeram criaturas exponencialmente poderosas, que nos levaram à realidades alternativas e lugares onde um simples pensamento pode se materializar instantaneamente. E se episódios como The Inner Light, Cause and Effect, e Parallels, por exemplo, trazem o que há de mais grandioso no gênero da ficção científica na TV, a tripulação da Enterprise D – mesmo com uma gama de raças e criaturas de outros planetas – espelha o que há de mais humano na criação de Gene Roddemberry.

A série clássica é a mais popular das séries de Star Trek e, por isso, ganhou esta nova roupagem nas mãos de J.J. Abrams, mas é inegável que Star Trek: The Next Generation é – em todos os sentidos – o melhor seriado deste fascinante universo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Em terra de Artigas - Parte 2.

El Entrevero

Seguindo os relatos das minhas aventuras em Montevideo, vamos falar um pouquinho sobre quem nos trata muito bem quando nós, estrangeiros, estamos por lá: o povo uruguaio.

Como a capital uruguaia vive cada centímetro de suas ruas direcionada para o turismo, nada mais natural que seus habitantes sejam receptivos, amáveis, educados (inclusive, não há UM único uruguaio que não entenda português) e atenciosos. Algumas curiosidades acerca desse pessoal tão bacana vale a pena mencionar, a começar pela forma de se vestirem: nada aberrante e nem fora do normal, com um certo ponto para os homens que, segundo uma amiga minha, conseguem ser mais elegantes por lá. O interessante em suas roupas é que, faça chuva ou faça sol, eles estão sempre munidos de uma camiseta ou camisa, um blusão de lã e um casaco quente. Se fizer 5º ou 35º, eles estarão vestidos desta forma.

Outra indumentária indefectível é o amado mate a tira-colo. Se alguém ainda pensa que o Rio Grande do Sul é a sede mundial do mate, é porque não conhece Montevideo. Lá o chimarrão é tão difundido que há placas do tipo "Proibido Beber Mate" nos locais onde é proibida a entrada de alimentos (como museus, por exemplo).

Mercado Del Puerto

Como prometido, vou abordar uma das grandes motivações para o pessoal (principalmente daqui do sul) ir ao Uruguai: o preço das coisas. Ao contrário do que muita gente acredita (inclusive eu, antes desta viagem), Montevideo não é um lugar barateiro como os freeshops de Rivera o fazem parecer. Alguns artigos até beiram aos valores do Brasil, mas muitas coisas importantes (comida, por exemplo) podem sair bem caras. Tanto que dá pra tentar imaginar como o povo de lá consegue sobreviver com o que eles ganham de salário mínimo (em torno de 3500 pesos). Não que aqui no Brasil seja diferente (um salário mínimo aqui continua sendo um ultraje), mas a comida em Montevideo é exponencialmente mais cara. Para se ter uma noção, paga-se 35 pesos por um cafezinho (por sinal, o café lá é péssimo) e quase 500 pesos por um prato de arroz com entrecot no Mercado Del Puerto. No Supermercado Tata, a situação não é muito diferente: 45 por um refri 2 litros (que aqui saí por 2 real) e esfaqueamento quando o assunto é carne.

Nhoc!

O grande truque dos mochileiros nesta cidade é se abastecer com lanches que, em geral, saem pelo mesmo valor daqui. Uma hamburguesa (espécie de hamburguer com quase tudo dentro) sai a 50 pesos. Não encontrei bons panchos, mas há inúmeros trailers de rua que vendem 2 por 180 pesos. E já que estamos falando de gastronomia, se um dia fores à Montevideo, não deixe de provar um sorvete artesanal nas barraquinhas da La Cigale, a míseros 37 pesos. O de ferrero rocher é, de longe, o melhor sorvete que já tomei na vida.

E se as pessoas da cidade são peculiares, o que dizer dos pombos? Desde que minha namorada e eu chegamos em Montevideo, percebemos que as aves de lá são o que chamaríamos de "tratadas a Toddy". Só no terceiro dia que descobrimos como os uruguaios alimentam seus bichinhos alados.

ATENÇÃO, SE VOCÊ LEITOR(A) FOR MENOR DE IDADE, CARDÍACO (A), GRAVÍDA OU EMO, SUGIRO FORTEMENTE QUE PARE DE LER AQUI, POIS A FOTO A SEGUIR PODE CHOCAR OS MAIS SENSÍVEIS:

Ah, não percebeu do que se trata? Vamos aproximar um pouco mais...

Ainda não sabe o que é? Chega mais perto...

Como diria meu amigo Sapão...CARAAAAAAIII, MEU, OS BICHO COME CARNE! NINGUÉM ME CONTOU, EU FOTOGRAFEI!

Não é a toa que tiveram de mandar robos gigantes para destruir Montevideo...




A seguir: a noite e a máfia.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Ira de Deus.

Seguindo a trilogia de vídeos editados por mim (e iniciada aqui), segue abaixo o segundo clip-compilação das melhores cenas dos filmes Lone Wolf & Cub: Baby Cart to Hades e Lone Wolf & Cub: Baby Cart in Peril, dos diretores Kenji Misumi e Buichi Saito, ambos de 1972.



A música é nada menos que Dies Irae, do Requiém de Mozart. Confesso que as cenas destes filmes do Lobo Solitário são prato cheio para pontuar esta missa fúnebre que acabou se tornando uma das mais importantes e contundentes pérolas da música clássica de todos os tempos.

Para fechar os seis filmes, preciso de sugestões para a música do último clip. Sintam o clima. Opinem. Sugestões e críticas são bem-vindas.

Agradecimentos à Grazi Bianchi pela belíssima sugestão desta ópera.;-)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Em terra de Artigas – Parte 1.

Sim! Minha namorada e eu perambulamos por Montevideo em quatro dias de muito bate-perna, pechincha, cálculos cambiais, e todo um universo e estilo de vida que nos mostrou o quão intrigante e bela é a capital uruguaia.

Acredito que um único texto não permitirá que eu enumere o que vale a pena na cidade, mas tentarei ser sintético e apontar alguns locais bacanas, dicas e, principalmente, as esquisitices de Montevideo. Acreditem-me, há várias...e tenho fotos disso.


Começo avisando que é muito raro, para mim, viajar. As vezes por problemas de grana, mas principalmente por falta de tempo, acabo postergando esse tipo de experiência e, quando se mostra a oportunidade (leia-se: Gol fazendo promoção de 75 pilas a passagem de avião), daí só há duas formas de fazer a coisa:


- Ou você compra um pacote bonitinho e hermético na CVC;
- Ou você vai de mochilão (e arrasta sua namorada no processo).

Este relato serve para pessoas que fazem suas próprias regras na hora de viajar e não se importam em ficar em hotéis de terceira ou de pegar busão para não ser golpeado nas bolas por um taxista estrangeiro. E falando em táxi, tente não cair nessa ao aterrissar no Aeroporto de Carrasco, o único e ermo aeroporto da capital: entre pagar 400 pesos (equivalente a 40 reais) em um táxi chamado (ou o dobro em um táxi do próprio aeroporto), prefira os 25 pesos (R$2,50) que os ônibus da Copsa cobram pra te levar à civilização.

Peso Uruguaio: para saber quanto vale em Real, divida por 10.

Não há muito o que ver nos quase 50 minutos de viagem até o centro de Montevideo, e o ônibus provavelmente será um de velha safra (muitos dos veículos da cidade pararam no tempo, e isso se aplica principalmente à sua frota viária), mas a música do rádio escolhida pelo motorista – certamente – será um bom e velho Rock’n Roll. De início, pensávamos que se tratava apenas do bom gosto do motorista, até que descobrimos que é unânime entre os condutores o hábito de ouvir boas músicas (dos anos 50 aos 80).

Além do rádio confirmado, há uma chance (grande) de um músico entrar no veículo e começar a tocar por uns trocados (como esses artistas de rua). É impressionante como isso é institucionalizado lá (provável efeito da crise uruguaia, que abordarei mais tarde): em uma de nossas andanças via ônibus, por exemplo, um conjunto de três violeiros entraram e deram um show.

Hotel Arapey: parece ou não parece spam de foto mal-assombrada???

O Hotel Arapey merecia um texto inteiro só pra ele, mas como ando preguiçoso, vai ter de se contentar com um parágrafo. O site do hotel já prometia a melhor relação custo X benefício e uma leva de fotos que mostravam um lugar no mínimo kitsch, mas nada prepara você para um hotel cujo elevador não tem porta interna (uma amiga sugeriu que tentássemos experimentar a sensação de escalar paredes – alá Homem-Aranha – enquanto o elevador subia, e logramos êxito), onde a decoração e o próprio prédio pareciam saídos de uma novela de época da Globo, e onde o quarto tinha UM PALCO (o nosso era o único, demos sorte). Nem preciso dizer que só isso já pagava a viagem.

Quando o assunto é arquitetura, o centro de Montevideo é uma mistura de tudo. Vemos edifícios novíssimos (como o da Presidência, situado na Praça Independência), prédios de médio porte em todos os estados de conservação e, claro, casas e prédios antigos, MUITO antigos (do tipo uns 150 anos, pra mais). O Palácio Salvo, por exemplo, foi uma das construções de época (datado de 1925) que mais me embasbacou: não apenas por seu porte e beleza, mas porque ele ainda hoje é um edifício residencial e, mesmo sendo um tesouro, é proibida a entrada de pessoas que não moram lá. Tive de me contentar em perambular pela gigantesca galeria no térreo.

Palacio Salvo: quem, em sã consciência, NÃO moraria num lugar desses?

É fascinante essa aura de conservação histórica e artística que permeia na cidade toda: das placas douradas com nomes de famílias e profissões afixadas nas portas, às praças bem cuidadas, dos estabelecimentos com charme europeu, às milhares de estátuas e obras espalhadas pela cidade toda. Uma estátua, em especial, é praticamente onipresente em Montevideo (e no Uruguai todo, afinal): o imponente José Artigas, montado em seu cavalo, é uma constante de bronze. Sério, devem existir algumas centenas dessas estátuas do militar pela cidade.


A seguir: o povo, os preços e os pombos.