quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Sete anos atrás.

Parece que foi ontem. Eu morava em Tubarão e trabalhava de madrugada em uma loja de conveniências num posto de gasolina da BR-101. Embora as noites naquele tempo fossem de arrepiar os cabelos da nuca, aquela madrugada de segunda pra terça foi tranquila. Até demais. Caixa fechado, um lanche básico de café da manhã e casa.

Após tomar um banho e colocar um roupão, ligo a televisão. Não era um hábito ligar a TV às 8 da manhã. Mas foi como se precisasse de uma presença a mais na casa. Como a sensação que o aparelho transmite quando se entra em casa e ele está ligado, sabe? Simplesmente sabemos que a TV está ligada. Lembro da manhã agradável de sol, depois de uma noite de trampo tranquila. Lembro do roupão e das pantufas de velho. Lembro do copo d’água que fui pegar na cozinha enquanto a chamada do Plantão da Globo chegava aos meus ouvidos. Parei na frente da TV e tudo estava acontecendo: gente correndo pra todo lado, repórteres tentando elucidar aquela loucura toda e um avião entrando com tudo no World Trade Center ao vivo. Quando o reporter disse que aquele era o segundo avião a atingir as Torres Gêmeas, sentei no sofá e disse “Merda!” pra mim mesmo.

Depois daquela manhã, Osama Bin Laden, Afeganistão, WTC, Al Qaeda e tantos outros nomes, lugares e termos, contaminaram o mundo. No P.E.S.T.E. (Projetos Especiais Simultâneos de Trabalhos Escritos) o tema da semana era o WTC e nos rendeu boas histórias. O conto que escrevi chamava-se “Tsunami” e contava a história de um aposentado no vôo da United 93. Curiosamente, três anos depois, o termo “Tsunami” também estaria na crista da onda (Hã, entenderam o trocadilho? Hein? Hein?) ao devastar a costa asiática e matar centenas de milhares de pessoas.

Mas nem só o P.E.S.T.E. ou Alan Jackson propagavam o amor nos tempos do WTC. Levou uns dois meses para os internautas criarem o NY Defender, um joguinho em flash onde o mouse era uma mira e o jogador tinha de acertar os aviões que tentavam chocar-se contra as Torres Gêmeas. Admito que o jogo era uma massagem. Gifs, montagens de fotos que colocavam um turista sorridente em uma das torres (enquanto, em segundo plano, um avião se aproximava) e uma penca de referências ao fatídico dia pulularam pela internet e pela indústria cinematográfica.

Aproveitando o ensejo (como diria minha Mãe) dos atentados, G. W. Bush resolveu travar uma pequena guerra contra qualquer país que ameaçasse a segurança estadunidense. Os EUA abraçaram a causa da retaliação. Virou a tal “Febre do Terror”. O engraçado é que todos esses países se encontravam no sudoeste da Ásia, mais precisamente na região árabe. Afeganistão primeiro. Iraque depois. Lembro-me de uma piada no Oscar de 2002 onde Billy Cristal dizia “Sabe pessoal, na última vez em que apresentei o Oscar, em 1992, tudo era diferente: o presidente dos EUA era George Bush e estávamos em guerra contra o Iraque”.

Quando sentei no sofá, na manhã do dia 11 de setembro de 2001, eu sabia que algo grande estava acontecendo. Era burro demais pra sacar a jogada toda numa só tacada, mas já conseguia enxergar alguns aspectos do efeito dominó que aqueles aviões trariam para o mundo. Sabia que os portões para a entrada de estrangeiros em países de 1º Mundo iriam se fechar como ostras. Sabia que esta crise e uma reação à ela dariam mais um mandato à George Bush (que até aquele momento era um Geraldo Alckmin no Salão Oval: não fedia e nem cheirava). Mas confesso que não imaginei que este catalizador justificaria não somente a caçada à “armas de destruição em massa”, como também a execução de Saddam Hussein e a transmissão de seu enforcamento na internet, nos remetendo ao que há de mais bárbaro e aterrador no espírito humano. O que nos diferenciava de certos animais, de algumas tribos abissais e de pessoas como o próprio Saddam (que era um notório genocida e merecia queimar mesmo) simplesmente foi para o espaço. Justificamos uma execução e o mundo assistiu de camarote. Hoje, qualquer criança abre o vídeo do enforcamento do ditador no You Tube.

Foi isso que perdemos naquela manhã de sol.

3 comentários:

Graziela disse...

É,dificilmente aquela manhã sairá da cabeça de quem viveu (à distância) e viu (pela televisão). Eu também me lembro de um dia de sol, já morava nesta cidade que moro hoje. Liguei o rádio de manhã (pra variar)e escutei notícias tão confusas que soavam mais como Guerra dos Mundos (me poupe de qualquer referência sobre isso, combinado? rs). Bom, daí liguei a TV e certamente compartilhei do sentimento de perplexidade de outros tantos milhões de indivíduos.
Das cavernas até hoje continuamos na mesma...a certeza de dias incertos. Beijos.

Aline C. disse...

Bah! Incrível como a maioria das pessoas lembra exatamente onde estava naquele dia. De alguma forma, ele mudou a vida de milhões.
Bju

Kel disse...

Eu trabalhava no Jornal da ZOnba Leste, meu primeiro trampo de jornalista. Lembro do office boy chegar da rua com uma história louca e entao fomos ligar uma TV velha que havia na redaçao (tao bagacenta que tivemos de colocar bombril na antena, imagine...) para ver o que realmente acontecia. E vimos. Foi de arrepiar os pêlos do cu.
Beijo