terça-feira, 20 de novembro de 2007

Turbulência!

Agora entendo um pouquinho do que Jack Bauer passa quando algum roteirista amalucado resolve que seria engraçado colocar um agente da CTU no seu pior dia. Não me entendam mal. Não foi um dia ruim. Mas foi um dia de provações, insólito, cansativo, enfim, um dia muito, muito difícil. Malditos roteiristas.

Segue a Segunda Diária de filmagens do curta Os Batedores, neste domingo passado...

Começamos pelo trivial: Filipe Ferreira, Soriano e eu indo de manhã até Canoas para buscar nada menos que algumas genitálias decepadas na casa do Ghiorzi. Como um passeio no parque, o nosso mestre do FX virava pra trás e dizia “Filha, fica aí que agora o papai tá trabalhando” enquanto nos mostrava os pênis que havia tecido em latex.

- Peguei o modelo num site pornô.

Infelizmente, o Ghiorzi tinha compromisso de tarde e não pôde nos acompanhar nas filmagens de logo mais.

Primeira baixa.

Chegando na Lumiere, constatamos que o Padilha, eletricista e pau-pra-toda-obra, iria nos acompanhar na empreitada do dia: a cena em que nosso herói Raul (Marco Soriano Jr.) vai pedir dinheiro emprestado ao Marcião (João França). A equipe técnica voltaria a ter Márcio e König, que guardavam os equipamentos na Kombi. Fernandinho, assistente de câmera que estava confirmado, ligou para o Ferreira desmarcando, pois tinha que socorrer o pai que havia pifado o carro na rodovia.

Segunda baixa.

Enquanto embarcávamos na kombi e seguíamos para a locação, meu celular parecia ter Síndrome de Tourette. Tocava. Tocava. Tocava sem parar.

“Que horas na estética?” Dizia a Gabi.
“Já estamos aqui na locação.” Dizia a Bruna.
“Tem que buscar a mesa.” Dizia a Cris.
“Vão sem mim.Vou de bus.” Dizia o Jé.
“Que horas vai ser a cena com os figurantes?” Dizia o Jack.
“Que horas vocês passam aqui?” Dizia a Juliana.
“Nós vamos parar pra comer alguma coisa?” Dizia o König, mas este não era por celular.

Neste meio tempo, eu ligava e ligava e ligava para sanar o meu pior problema naquele momento: o desaparecimento do instrutor de academia que faria uma ponta como o segurança do Marcião para nós. Nada do indivíduo. Celular desligado.

A kombi chega no Beco...

Sim, o tão comentado Cabaret do Beco seria o lar do Marcião. Carlos, um dos donos do lugar, nos cedeu gentilmente seu domingo de descanso e o ponto para que executássemos esta cena com o clima opressivo que precisávamos. De uma hospitalidade bacana demais, o anfitrião nos mostrava os locais onde poderíamos fazer platôs, colocar luzes e modificar (ou não) para montar a jogada. O restante da equipe começou a chegar e logo a Cíntia já estava no comando provisório. O Ferreira corria para pegar o França e levá-lo na estética, a Bruna seguia na missão ingrata de tentar achar o segurança na casa dele e trazê-lo a força (se alguém poderia fazer isso, esse alguém é ela), e eu corria com o Cristian e o Padilha para pegar os objetos e móveis de cena. Pouco antes de a Bruna ir à cata do grandalhão, o Marco veio correndo e pediu encarecidamente para sair junto. Com olhos cheios de água e engolindo em seco, o matador de 5-15 estava, como diria o Capitão Nascimento, com medinho de ficar dentro do set, pois o lugar, segundo ele, era muito pesado. Sim, ele é um bixcoito.

Problemas de sexualidade à parte. Durante a busca pelos objetos, angariamos Cris e Cainã (não, não é uma dupla sertaneja) e os Irmãos Zandoná (também não é dupla sertaneja, mas passam perto). No trajeto, Padilha me confidenciou que só poderia ficar conosco até às 16h, pois teria de ir buscar a filha depois.

Terceira baixa.

Após desovar esse pessoal no set, constato que a Bruna não conseguiu encontrar o maldito segurança em casa.

Quarta baixa.

- Édnei, posso chamar outro cara pra fazer o segurança. Dizia o Cristian.

- Quem?

- Ele é grande, mas tem um problema.

- Que problema?

- Ele é meigo.

- Hã?

Tratava-se do Carlos Thomaz. Cinéfilo do gore e amigo de longa data do Cristian. Sim, o cara era grande e tinha um talento dramático diferenciado (como ele mesmo gosta de enumerar), mas servia, afinal, um cara do tamanho que esta cena exigia não seria fácil de encontrar.

Depois de Bruna, Duca e Pomba (ou seria o Cristian?) arrastarem o Thomaz para o meio do vendaval, Bruna e eu seguimos para a estética, onde o João França estava sendo parafernalhado para a cena. Aqui saliento a disposição e talento das meninas da Flach, Ivete e Verinha, que conseguiram deixar o França bonito para o papel de Marcião, o emblemático agiota que vai dar dor de cabeça ao Raul. Momento kodak: durante uma fita de Making Of, gravado pela Gabi, o França me abraça e diz “O criador e a criatura”, com aquela espirituosodade toda inerente a ele.

Tudo pronto e um irreconhecível França depois, fomos para o set, que já estava praticamente montado. Chego lá e descubro que um acidente de percurso adulterou a decoração do local e os ânimos da galera. E lá vai o Édnei falar com o Carlos para solucionar o problema. Ouço alguém no canto dizer algo parecido com “o cara é o Super-Homem”. Não sei se era pra mim, mas com certeza falar com o dono da locação e garantir a integridade da mesma era mais um leão que eu tive de matar. Com aquele atraso típico de quase uma hora no cronograma, começamos os últimos ensaios. Atores já figurinados e maquiados. Julia batendo fotos afu. Luzes prontas. Cenografia pronta. Numa sala escura com ursos de pelúcia pendurados no teto, Filipe fazia sua última reunião com o Marcelo e a Cíntia, antes do batente.

Luz, câmera, AÇÃO!

Ligeiro (Jéferson Rachewsky) encarava o segurança (Carlos Thomaz) de Marcião enquanto Raul tentava extorquir algum do agiota. De novo. De novo. De novo. Agora outro plano. As tábuas rangiam. O calor era descontado nos copos de água (cedidos para o curta pela Águas Mineral Sarandi). Minha cabeça explodia enquanto eu tentava tirar uma soneca escorado na parede, num dos poucos momentos em que tive descanso neste dia. Acordei. Voltamos ao problema da alimentação. Logo chegamos à conclusão de que o lance era pizza novamente. Desta vez tive de negociar com uma pizzaria para me darem uma pizza a mais pelas cinco pizzas gigantes que estávamos comprando. Consegui uma pizza doce só jogando charme em cima da Karine, a moça da tele. Ela devia estar numa maré ruim.

Numa daquelas casualidades decorrentes de cronogramas atrasados, nossos figurantes começaram a chegar para a cena de Flashback junto com as pizzas. Como dizer pra essa turma, que veio participar na parceria e no amor, pra esperarem um pouquinho que a equipe tinha que comer um rango que já estava contado? Situação chata, claro. E lá vai o Édnei conversar com eles. Entenderam tudo de boa, alguns foram dar uma banda, outros ficaram e conversaram com o Jack, que estava fazendo a sala, outros ainda compraram cervejas...enfim, deu tudo certo. Faltava apenas o Devedor chegar.

Hã? Como assim? Isso mesmo. Graças a outro contratempo, Paulo Carvalho, colaborador-mor da Arquivo Morto que faria o papel de Devedor, só poderia chegar um pouco mais tarde. E lá vai mais algum atraso no cronograma. Quando essa figura chegou, foi aquela correria. Figurino, lustre na careca, e vamos nós de novo filmar. Desta vez, era a cena do Flashback, que mostrava o que acontece quando alguém deve pro Marcião e não paga. Lá atrás, os figurantes dançavam empolgados enquanto o Álvaro mexia um canhão de luz. Com um travelling, uma incorporação completa do França, e alguma paciência, conseguimos capturar a aura ameaçadora e mortal do agiota, que olhava com ódio enquanto o Devedor mostrava a foto da família para tentar explicar que estava com problemas financeiros. Novamente tivemos outro contratempo, enumerando mais uma baixa (perdi as contas de quantas pessoas foram se desligando da equipe neste dia). Embora já tivéssemos a cena, esse contratempo em especial me deixou no chão.

Eram 11 e picos da noite quando, finalmente, encerramos os trabalhos. Liberamos as pessoas de volta à suas vidas e fomos até a Lumiere descarregar as coisas. Nossos pontos altos foram as caras de satisfação do pessoal do back vendo o resultado dos nossos esforços no pequeno monitor: o Jé olhava pra mim e dizia “Do caralho!”. O Cristian olhava pra mim e dizia “Do caralho!”. As meninas da Flack sorriam orgulhosas com o bom trabalho. Era visível a satisfação geral. Alguma palhinha do treco vocês podem conferir na foto.

Este domingo de filmagem foi o meu domingo mais turbulento de set. Eu só queria que o dia acabasse. Deitei por volta das 01:30 da manhã e estava tremendo. Não consegui dormir. Foi um suplício pra levantar da cama na manhã de segunda-feira. Embora todo mundo tenha se esforçado e dado o máximo para fazer da filmagem de domingo um sucesso, espero, sinceramente, que os outros colegas de equipe tenham curtido mais do que eu... ou se estressado menos.

São as peculiaridades de se fazer cinema de guerrilha. O que importa é que “temos”.

Sábado que vem tem mais.

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