quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Complexo de Homem-Bomba.

Era um Dia dos Pais chuvoso quando eu estava numa parada de ônibus com meia dúzia de futuros passageiros. Quase nada chamava a atenção em qualquer um deles, com exceção de um intrincado debate entre dois senhores: um de 60 anos e outro de 66. Sei disso porque eles fizeram questão de anunciar a idade um para o outro, como se as infindáveis rugas e o escasso cabelo branco fossem um atestado de sabedoria.

A pauta em questão era peculiar: o mais novo defendia que o Brasil está na merda em que está (salário mínimo ridículo, roubalheira, impunidade, etc, etc, etc) porque não havia homem com fibra para usar uma bomba e se explodir (e explodir algo junto) em protesto. O mais velho negava que isso fizesse qualquer diferença e profetizava que “violência gera violência”.

Quanto mais o assunto era aprofundado, mais o senhor de 60 dava indícios de seu complexo de homem-bomba. Dizia que os árabes é que estavam certos e que só assim para resolver as coisas e ter algum resultado. Me ocorreu, de imediato, que a maioria do povo árabe vive no caos e na subsistência constante, então, não conseguia ver onde estava o sucesso, e nem o tal senhor deu qualquer exemplo do que estava falando. Ele apenas refutava o mais velho enumerando todas as barbaridades que fazem o Brasil ter a fama que tem entre os próprios brasileiros: um país onde tudo acontece e nada é feito. O extremista completou que só não fazia nada mais prático porque já estava velho, mas se pudesse, “se explodiria e levaria muitos com ele” (pelo menos, a parka camuflada ele já estava vestindo).

Entramos todos no ônibus e me pus a observar os dois senhores: o mais velho sentou-se na frente, no lugar reservado para idosos; o homem-bomba passou a roleta e sentou-se num dos bancos finais, ao lado de uma senhora. Preciso dizer que olhei para ele por mais uns 30 segundos e fiquei abismado com a facilidade com que um homem com idéias tão raivosas se perde na multidão. Assim como ele sentou-se ao lado da mulher, poderia estar sentado ao meu lado, e eu jamais saberia que ele tinha um ponto de vista tão antagônico.

Quando ele se perdeu entre os outros, escorei a cabeça na janela e me coloquei a imaginar que alvo seria digno, no Brasil, de um ataque terrorista. Sequer precisei fechar os olhos para que o Senado da República viesse como forte candidato na minha cabeça. Lembrei das notícias, dos processos arquivados, dos homens escolhidos pelo povo e que, ao invés de lutarem por esse mesmo povo, roubam milhões dele.

Abomino a idéia de usar uma bomba, ou qualquer outro tipo de violência, para “solucionar” algo que pode ser resolvido através da comunicação. Acho que o terrorismo é a maior expressão do que o homem não deve se tornar e sempre pensei desta forma, mas é triste, muito triste pensar que, se uma bomba explodisse no Senado, certamente o povo não choraria.

Chegamos no ponto em que os políticos tiram tudo de nós, inclusive a nossa humanidade.

Um comentário:

Kele disse...

Tudo bem que uma bomba nao resolveria o problema, mas nos daria umas semanas de alegria, ah, isso sim. E já que de pao e circo vive o povo...Gostei da idéia.
Beijos!