quarta-feira, 9 de julho de 2008

O Futuro é Agora – Parte 8 – Um passeio pela Redenção.

...abro os olhos e tudo é verde. Um pasto sem fim. Cheiro de terra molhada e um gosto de frango teriaki na boca. Vejo crianças fazendo ciranda. Mulheres tricotando enquanto balançam-se em cadeiras de balanço. Barulho de pássaros. Asas batendo ao longe, mas aproximando-se. Parece um pequeno pardal, mas as crianças correm. As gentis senhoras atropelam-se umas as outras e capotam nas cadeiras como os velhos Jackass. O pardal está mais perto e o barulho de asas torna-se ensurdecedor.

Acordo. Um bicho meio homem, meio morcego, quase me empala com uma lança. Em volta, uma turba ensandecida grita “Uuuuuuuuuuuhhhhhh!”. Fico pensando em como diabos eu teria parado na Arena da Redenção se tinha resolvido tirar um cochilo no carro do Otto, mas vejo o veículo destruído ao lado e percebo que não tenho tempo para elucubrações. O Batman está vindo pra cima de novo. Lança em punho. Se este pesadelo vivo não fosse tão desengonçado, eu já estaria morto. Não quero tentar a sorte novamente. Saio correndo e recebo vaias. Ouço o bater de asas e sei que ele não vai poder usar o arma enquanto estiver em vôo. Viro pra medir distância e descubro que o filho da mãe segura a lança com os pés.

- Onde me arrumam esses freaks?

Rolo pelo chão, escapando do rasante. Tento levantar e descubro que sou velho demais pra essas coisas. Cãimbra. Das brabas. Esqueço a perna esquerda e saio rastejando. Tenho areia venenosa nas mãos, mas até ele chegar perto o suficiente pra levar ela nos olhos, já estarei conversando com alguma divindade. O bicho retorna e começa a planar. Lança direcionada ao meu peito. Cerro os dentes ameaçador, mas estou cansado demais pra desviar do ataque iminente. Ouço gritos de euforia. Se bobear, ouço harpas.

Uma explosão no portão principal da arena faz voar dois sentinelas. Como um ninja de dois metros, Otto Nema surge pelos destroços e acerta a cabeça do homem-morcego com um tiro. Comoção. Dois calabouços se abrem no chão e quatro punks de Scooters Alfa e bolhadeiras nas mãos saem zunindo pelo ar. Otto me joga o Cougar e acerta um dos veículos. O indivíduo sai voando com a explosão e cai no que, em tempos idos, era o grande e redondo chafariz principal. Agora, o monumento é um fosso cheio de espetos de bambus. Configuro a arma para “atordoar” e ganho novo fôlego. Explico: descobri que sou um verdadeiro desastre ao usar uma arma na potência máxima quando destruí um prédio inteiro na zona norte, há uns anos atrás. Até hoje a imprensa chama o evento de “O Atentado do Lindóia”. Nunca pegaram o terrorista.

Acerto um dos motociclistas aéreos e ele dorme no ato. Seu veículo bate nos outros dois e todos viram uma bola de carne e metal numa velocidade de 250 Km/h em rota de colisão com uma arquibancada cheia de fanáticos pela ultraviolência. Pedaços de corpos voam com o impacto. Otto me observa com reprovação e eu encolho os ombros.

- Não me olha com essa cara. Como viemos parar aqui?

- Acho que peguei uma via errada e nos abateram. Eu ejetei.

- Podia ter me acordado.

- E quem disse que eu não tentei?

Os populares invadem a arena com correntes, pedras e todo o tipo de lixo nas mãos. Querem o nosso couro. Vou pondo um e outro pra dormir. Otto vira um Commando e abre uma clareira no meio do povão com seu RPC 90. Fico me perguntando quando é que o pacato Lúcio virou uma máquina de guerra enquanto ele mexe na mochila mágica e tira uma bomba de lá. O traficante joga o treco no camarote e me puxa para trás do que sobrou de seu carro. Tapo os ouvidos e um clarão detonado por Otto faz tudo tremer. Chove sangue e escombros. Por que será que nunca consigo manter minhas roupas limpas por mais de vinte minutos?

Otto abriu uma cratera na Arena da Redenção. Os poucos que conseguem se mexer dispersam-se como ratos. Alguns carregam seus membros decepados. Outros levam membros decepados de outras pessoas. Saímos da arena pelo rombo feito com a bomba enquanto sirenes soam. Além da polícia, duas ambulâncias passam voando por cima das nossas cabeças na direção da arena. Já devo ter comentado sobre a minha alegria em ser um sonegador, certo? Logo chegamos aos Pedalinhos de Pedra: monumentos esculpidos no lugar do antigo lago por algum babaca que se compadeceu enquanto bebíamos a água toda na seca de 2019. Nesta parte do parque, a escória da escória faz seus negócios sujos dentro dos cisnes. Um travesti com a barba mal feita e o dobro da altura do Otto se interpõe em nosso caminho e nos oferece sexo pago. O sujeito ignora o fato de que estamos sujos de sangue. Deve ver isso o tempo todo por aqui. Otto troca meia dúzia de palavras com o homem de saias e este empurra um dos pedalinhos para o lado, desvendando um buraco com uma escada. Descemos e acabamos parando em um túnel iluminado por velhas lâmpadas fluorescentes.

- Tu é bem relacionado, hein?

- As vezes a gente tem que vender a alma nesse ramo.

Até onde eu lembrava, ele já tinha vendido a alma certa vez para um outro amigo. Assinou num canhoto de crédito e o tal amigo perdeu o papel. Otto Nema é um desalmado. Oficialmente falando. Chegamos no meio do caminho e o barulho dos carros rachando acima é quase insuportável. Seria mesmo impossível atravessar a João Pessoa sem um veículo. Não depois que transformaram a avenida e algumas outras ruas da cidade no Autódromo Bralbeck, onde corridas de fórmulas são concorridas diariamente. Um dos poucos entretenimentos não-violentos, devo dizer. Muros gigantescos foram construídos nas laterais da pista para separar esse nobre esporte do esgoto que se tornou Porto Alegre. O que nos leva à este túnel...e à este travesti.

- Como conseguem manter este lugar?

- Gato na energia do autódromo.

- Por isso usam lâmpadas fluorescentes? Pra não dar bandeira no consumo?

- Era isso ou usar tochas.

- E quem, afinal, mantém essa estrutura?

- O Sindicato.

- Qualé, Lúcio. Aboliram os sindicatos junto com os advogados há uns dez anos.

Otto me olha como se fosse arrancar minha cabeça. Demoro um segundo pra sacar que fiz merda. O travesti me ouviu dizer o nome verdadeiro do Lúcio e parou de caminhar. Ele se vira com um canivete na mão e nos ataca. Eu desvio da lâmina, mas bato minha cabeça na parede e desabo no chão. Consigo ver os dois gigantes lutando. Otto não consegue sacar a arma e desvia como pode das estocadas. Aponto um bastão de comida para o traveco, pensando que é o Cougar. Céus...

Fico um pouco mais desperto depois de ouvir o “crac” do Otto quebrando o pescoço do infeliz. Ele me segura pelo colarinho e me “ajuda” a levantar.

- Podia fazer o favor de não dizer mais meu nome?

- Foi mal, Otto. Velhos hábitos são fogo de perder.

- Hábito? Tu não me vê faz duas décadas, Édnei.

- E nem por isso tu deixou de me chamar pelo primeiro nome. Quer me colocar no chão?

O túnel desemboca na esquina da Ipiranga com a Azenha. A loja do Holandês Voador está há duas quadras daqui. O plano parece simples: entrar, conseguir uma hora com o homem, negociar o Vovô, sair vivo. Andamos até a fachada da loja, que exibe um letreiro laranja com o nome do indivíduo. Aciono meu detector de bombas. Otto aciona a camuflagem Stealth.

Estamos prontos...

Um comentário:

Kel disse...

Quanto ao vinho, conheço alguma coisa para nao ficar na mao. O duro é quando a sua uva favoritanao eh encontrada no mercado e vc nao conhece nenhuma das marcas de tempranillo que sao oferecidas. Melhor pedir ajuda aos nativos. E deu certo.
Beijos!