quinta-feira, 19 de junho de 2008

O Futuro é Agora - Parte 5 - Voar é para os Pássaros.

...se o Basi estivesse acordado, estaria regurgitando. Ele odeia altura. E eu odeio ter de pagar um mutante pra carregá-lo no ombro enquanto escalamos a parte de fora da Disco Inferno. Mas não adianta. Quando cheguei aqui, vi hélices no alto do prédio. Um helicóptero. Bolei meu plano: vou roubar essa antiguidade e transpor as muralhas do Buraco antes que meu prazo expire. Isso se eu conseguir escalar até o fim. O mutante já está lá em cima faz tempo, fazendo sinal de “que saco” e lamentando que eu não tenha pago pra ele me levar também. Estou enferrujado. Escalada nunca foi meu forte, mas arranho bem. Se eu tivesse ventosas nos dedos como ele, também já estaria no topo do prédio.

Chego esbaforido, mas vivo. O bicho faz sinal de “quero grana”. Parece um adepto de libras. Ele me dá um bilhete com seu número de crédito. Pego meu casher e digito o tal número. Abro a pálpebra chapada do Basi e coloco o casher em seu olho. O bip indica que o Basi tem algum trocado pra pagar esse miserável. Ótimo. Detestaria ter de brigar com um mutante de dois metros e meio de altura no alto de um prédio às quatro da manhã. Mostro o visor com a transferência da grana para o bicho e este dá um rugido. Bate na própria cabeça e corre para a beirada do prédio, de onde executa um belo salto mortal.

Humpf, mutantes...

Eu não estava errado. Um helicóptero-esquilo novinho em folha. Se ainda existissem museus, eles dariam uma nota por essa coisa. Coloco o Basi dentro do treco. Me posiciono no banco principal. Fones na cabeça e tenho uma surpresa ao dar a partida: um par de dados vermelhos pende por uma corrente na alavanca principal. É quando percebo que a nave não é do Drako.

(através do rádio)

- Édnei, seu filho da puta. O que tá fazendo dentro do meu helicóptero?

- Se não é o falecido Filipe Ferreira...

- Desce daí agora, porra.

- Acho que tu me deve uma explicação.

- Tu rouba meu helicóptero e eu te devo explicação??? Bebeu água do parto, então.

-.Pensei que tu tivesse morrido na Gripe. Agora descubro que tu é o maior cafetão da cidade.

- Estou falando sério. Desce daí. Eles vão te abater.

- Lamento. Já estou no ar.

Observo o movimento lá embaixo e descubro o que ele quis dizer com “eles vão te abater”. Dois pontinhos carregam uma caixa na correria. Parece um daqueles filmes sobre o Afeganistão, onde um bando de talibãs correm sorrateiramente e armam uma bazuca para tentar parar o mocinho. Dito e feito. Apontam a arma e atiram. Faço uma manobra e o míssil passa longe. Dou graças a Crom por não ser um teleguiado e sigo desviando das explosões. Ouço um grito de menina. O Basi acordou.

- Nós vamos morrer. Nós vamos morrer.

- Cala a boca, Basi. Tá tirando minha concentração.

- Voar é para os pássaros, Pedroso.

Os estilhaços de um outdoor atingido por engano desestabilizam o esquilo voador. Perco o controle e começamos a girar. Avisto a muralha e viro tudo que dá. No meio do caos e dos gritos do Basi, ouço tiros e o barulho de metal baleado. Os snipers das guaritas estão fazendo caça ao pato e só não acertam nas nossas cabeças porque giramos rápido demais. Nossa sorte está diminuindo drasticamente. Os gritos do Filipe no rádio não ajudam. Puxo o manche pra cima e damos pinotes. O Basi vomita tudo que pode, mas deixamos de ser alvos fáceis. Ficamos apenas com o total descontrole do helicóptero, que cambaleia no ar e se afasta dos portões do bairro para ganhar a liberdade sobre a parte sudeste do muro.

Saímos do Buraco.

Quando penso que vou assumir o controle e dar uma sonora gargalhada por ter saído vivo daquele lugar, acertamos em cheio um Delta 350 bordô com placa de Viamão. Malditos carros voadores. Só consigo ouvir um trovão e a voz do Basi gritando entre as chamas. Mais nada. Nós e o que sobrou do Helicóptero somos projetados como um cometa pela explosão. Me deixo levar pela lei da física e ela é fria, molhada e tem gosto de urina. Flutuo por alguns minutos, até que ouço os berros do Basi sendo interrompidos por golfadas.

- Socorro. Socorro. Eu não sei nadar.

Fomos parar no Guaibão. Sorte nossa, azar do meu casaco. Nado até onde o Basi está e o seguro firme. Devia deixar este filho da mãe beber o Guaíba todo, mas preciso dele. Ficamos como saquinhos de chá esperando pela hipotemia, até que fortes luzes batem em nossos rostos. Um megafone nos pergunta se há alguém na água. Começamos a gritar. Vejo o letreiro na lateral do imenso hovercraft e me permito uma boa risada.

Nunca pensei que fosse ficar tão feliz de ver a Polícia...

Um comentário:

Kele disse...

Quanta criatividade! Isso daqui um bom quadrinho, hein?
Ainda nao fui lá, mas vou. Tive outras coisas para resolver, como podes ler lá.
Beijos!