quinta-feira, 26 de março de 2009

O que chega com a tempestade.

Texto publicado originalmente em 17 de novembro de 2005 , na coluna Passado a Limpo, do site www.sobrecarga.com.br

Àqueles que não gostaram do gênero debatido no último texto publicado nesta coluna, sugiro que sigam para uma outra parte do site de sua preferência, pois pretendo, nas próximas linhas, abordar o segundo filme de uma leva que considero a “Santíssima Trindade” do western no cinema.

Diferente do que fiz com Matar ou Morrer no texto anterior, não precisei atravessar meio século para encontrar o próximo faroeste cuja estrutura de narrativa, sinopse, direção, atuações e roteiro me deixassem de queixo caído. Esse espécime surpreendeu em plenos anos 90.

Bingo para quem lembrou de Os Imperdoáveis, a obra prima que marcou o retorno triunfal da lenda viva Clint Eastwood ao gênero que o consagrou como ator nos anos 60 e 70.

É sabido que Eastwood não fez seu grande nome somente entre tiros e cavalos. Desde 1971 que o septagenário cineasta se aventura por trás das câmeras em dramas contundentes e aventuras contemporâneas. Com o passar dos anos e somando experiência a cada filme que dirigiu, Clint deixou o estereótipo do pistoleiro durão para trás e passou a comandar seus projetos dramáticos com a tranqüilidade e a sutileza de um grande diretor.

Curiosamente, é aí que começa a história de
Os Imperdoáveis: Will Munny (Clint) deixou para trás a vida de pistoleiro durão e cruel (o paralelo com a própria história do ator é
inevitável) e resolveu tocar uma fazenda no Kansas com a ajuda dos filhos pequenos. Ao contrário de Clint, o fazendeiro está com os bolsos vazios e, como desgraça pouca é bobagem, sua criação de porcos (único sustento da família) está adoecendo. Como que mandado pelos céus (ou pelo próprio Capeta), surge o jovem Schofield Kid (Jaimz Woolvett) e faz uma proposta a Will: uma recompensa de 1000 US$ dividido aos dois se o matador aposentado acompanhá-lo no encalço de dois vaqueiros que retalharam o rosto de uma prostituta na longínqua cidade de Big Whiskey.

Deste jeito, como se o passado de Munny batesse a sua porta, o protagonista tem o seguinte dilema nas mãos: ou volta a matar por dinheiro uma última vez, ou morre de fome. Não demora muito para vermos Will, Ned Logan (seu antigo parceiro, interpretado por Morgan Freeman) e Kid seguindo em direção à Big Whiskey, o lar dos tais vaqueiros, das prostitutas que colocaram as cabeças desses a prêmio e do violento xerife Little Bill Daggett (Gene Hackman), que não está gostando nadinha desta história, uma vez que a tal recompensa promete trazer um banho de sangue ao seu distrito.

Enquanto o trio se aproxima da cidade junto com uma carregada nuvem, outros pistoleiros chegam no lugar, atraídos pelos 1000 dólares. Dentre eles, está o famigerado Bob, o Inglês (o finado Richard Harris), um matador cuja adoração pela Rainha da Inglaterra é proporcional à sua mira.

Não demora muito para que o circo pegue fogo, pois mais do que fama ou fortuna, é um duelo de egos que está vigorando: o ex-bandido bêbado e sanguinário que se vê cada vez mais perto de seu passado aterrador, os matadores calejados que buscam a recompensa, as meretrizes com sede de vingança, o xerife que protege a cidade com uma justiça duvidosa, tudo entorna em uma fatídica e arrepiante cena final, coroada com uma tempestade que profetiza um verdadeiro massacre.

Indicado em 9 categorias e recompensado com 4 Oscars em 93 (Melhor Filme, Melhor Direção para Eastwood, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Montagem), o projeto marca a primeira parceria de Clint e Freeman nas telas, mostrando uma química difícil de se ver por aí e reprisada recentemente no ótimo Menina de Ouro. Vale a pena enumerar também a atuação impecável de Gene Hackman, que empresta frieza e sarcasmo à Little Bill (e fora agraciado com um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por isso). Num desses acasos da vida, Hackman havia recusado o papel do xerife, voltando atrás da escolha somente por muita insistência de Clint (que também é o produtor do longa), que fazia questão de tê-lo no páreo.
Consagração merecida, também, ao eterno Clint, que levou sua primeira estatueta de melhor diretor, consolidando a qualidade desse cineasta nos dois lados da câmera. Duas outras indicações nesta categoria vieram a seguir nos filmes Sobre Meninos e Lobos e Menina de Ouro, sendo que o diretor arrebatou o segundo Oscar neste último.

Nota-se, então, que Os Imperdoáveis pode ser considerado um grande marco. É um dos meus filmes favoritos e top three, para mim, no gênero western maduro, de conteúdo. Poderia enumerar uns dez filmes chamados “mais clássicos” nessa categoria, mas quantos deles nos fazem pensar?

Aguardem o próximo texto, que fechará esta trilogia do bang-bang, julgo eu, com chave de ouro. Para os mais curiosos, apenas uma dica:

Harmônica...


***

Dica de filme:

Os Imperdoáveis (Unforgiven)
Diretor: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood (Will Munny), Gene Hackmann (Little Bill Daggett), Morgan Freeman (Ned Logan), Jaimz Woolvett (Scholfield Kid), Richard Harris (Bob, o Inglês)

Duração: 131 minutos

Gênero: Western

Ano: 1992

quarta-feira, 18 de março de 2009

Frio.

Hellblazer Nº 27 - Hold Me

Não consegui pensar em imagem melhor para ilustrar o post de hoje do que a capa de Hellblazer Nº 27, escrita pelo genial Neil Gaiman e ilustrada pelo também competente Dave McKean. Na HQ, John Constantine se vê às voltas com a assombração gélida de um morador de rua morto pelo frio londrino. Tudo bem, é meio temerário comparar o inverno inglês com o de Porto Alegre, mas o fato é que o frio finalmente retornou à capital gaudéria.

Com aquela disposição de quem tomou o banho mais sinistro do ano (água morna + manhã gelada = Brrrrrrrrrrrr...) , peguei meu blazer preto de estimação e lancei-me porta afora. Confesso que já estava com saudade da brisa outonal, do clima pseudoeuropeu de todo mundo encasacado, de poder sim vestir alguma coisa além de camisetas e voltar a ter um estilo.

Está frio, mas um frio ameno, agradável. Meio que 22º com cara de 13º. Não vou escrever um tratado sobre isso. Não vou me alongar; apenas celebrar, pensar em um bom vinho e lembrar de bons momentos do inverno passado.

Agora resta apenas esperar uma certa pessoa voltar de um lugar onde também está frio, pois nada melhor do que curtir este clima gostoso da minha Porto Alegre grudadinho em quem se ama.

E como diria Erasure...

Come to me, Cover me, Hold me...

*: Curioso. Comecei o post falando de uma HQ adulta de suspense/terror e terminei com uma frase de papel de carta...bom, esta história do Gaiman também termina de uma forma...terna.=)

terça-feira, 10 de março de 2009

Porque você deve assistir Watchmen.

Nesta última sexta-feira, estreou mundialmente o filme Watchmen, do diretor e nerd de carteirinha Zack Snyder. Já havia falado sobre a espera do filme aqui, e sobre o quanto muita gente aguardava ansioso pela película (inclusive eu, há mais de 10 anos). Mas quando o vi na tela grande, no sábado, descobri que o Diretor, com este filme, conseguiu separar os espectadores em quatro grupos. São eles:

Os que leram a HQ e detestaram;
Os que leram a HQ e adoraram;
Os que não conhecem a HQ e detestaram;
Os que não conhecem a HQ e adoraram;

"Está falando comigo?"

Não há escapatória e não interessa se você leu o treco ou não: vai amar ou odiar e fim de papo. A única coisa certa aqui é que você simplesmente PRECISA assistir Watchmen. "Mas por quê?????", me pergunta o chorão lá do fundo, que ouviu falar por aí que este filme é coisa de nerd e está procurando qualquer motivo para não ter de gastar um troco suado no ingresso. Ele pergunta e eu respondo.=)

Bem, vou considerar que você NÃO LEU a história em quadrinhos na qual o filme é baseado (o que é mais provável), logo, não darei spoiler. Se não leu, sabe apenas (ou melhor, pensa que sabe apenas) que trata-se de um filme de “super-heróis”, e já tem um pré-conceito em mente. Esqueça. Esqueça o que você sabe sobre filmes ou histórias do gênero e entre na sala escura preparado(a) para uma experiência diferente de tudo o que normalmente perambula nas adaptações de quadrinhos para a tela.

As coisas estão ficando quentes por aqui...

Tem heróis, mas não há “super-heróis”. Tem ação, mas não é um filme de ação. Tem uma história considerada complexa e quase três horas de duração, mas cada detalhe, cada palavra, cada segundo de projeção é mais do que justificável para contar uma história de tantas vertentes. Inúmeros plots, que iniciam com um singelo assassinato (uma cena memorável, ao som de Unforgetable, de Nat King Cole) e culminam com um dilema moral que desconstrói todo o conceito do herói. Aliás, dizer que a cena do assassinato é magnífica é chover no molhado: com um acuro visual e uma direção de arte que beiram ao absurdo, cada segundo de tela é praticamente uma pintura, com mil referências das mais diminutas, que remetem aos saudosos anos 80 (época na qual se passa o filme), porém, em uma realidade onde fatos históricos que conhecemos são modificados pela existência de pessoas comuns que fantasiam-se para combater o crime.

Snyder e Richard Nixon

O ano é 1985. Os Estados Unidos, sob o terceiro mandato do Presidente Nixon, encara o jogo de nervos da Guerra Fria contra a União Soviética, que está a um passo de trocar bombas nucleares com sua rival, mas não ousa tomar o primeiro passo. Esta paz melindrada se mantém graças ao grande às na manga dos americanos: o Dr. Manhattan, um fisico nuclear que, graças à um acidente com um experimento, torna-se o único herói com poderes de verdade, comparáveis aos de um deus. Com exceção do Doutor e do Comediante (um herói escroto das antigas que atua como operativo americano em guerras, crises e outros eventos nos quais sua força bruta e sua experiência de guerrilha se fazem necessários), os outros “vigilantes” são colocados na ilegalidade pelo governo e passam a viver a decadência de uma vida de homens e mulheres comuns, até que um deles é misteriosamente assassinado. O vigilante conhecido como Rorschach (o único que se recusa a parar, agindo na marginalidade) entra em campo para investigar o homicídio e traça a teoria de que há um matador de mascarados na cidade.

The Minutemen - 1940 - Da esquerda para a direita: Silhouette, Traça, Dollar Bill, Coruja Original, Capitão Metrópole, Spectral Original, Justiceiro Encapuzado e Comediante (agachado).

Neste primeiro momento, o Diretor faz uso brilhante dos créditos iniciais para mostrar uma storyline da ascenção e queda dos heróis: desde a criação do primeiro grupo de vigilantes (os Minutemen), em 1940, passando pela influência destes mesmos heróis na cultura pop mundial, até a formação e dissolução do último grupo de vigilantes, quando a Lei Keene entra em vigor e tira o pessoal mascarado da ativa. Com cinco minutos de imagens quase estáticas que ilustram os momentos cruciais desta introdução, o Diretor nos presenteia com verdadeiras pérolas visuais, enquanto a música The Times They Are A-Changin, de Bob Dylan, embala uma das melhores aberturas de filmes que já vi (aliás, a trilha sonora é um espetáculo à parte, que comentarei adiante).

Bum!

A trama, que começa simples, se desenvolve em proporções que podem vir a ser cataclísmicas, colocando em cheque a realidade de inércia dos heróis aposentados e, até mesmo, o status quo do limiar nuclear (ilustrado por um “relógio do juízo final”, que mede, de forma figurada, os ânimos entre as duas potências mundiais). A cada minuto de projeção, somos catapultados para essa realidade de desconstrução, tanto dos personagens, quanto da própria história americana. Os Estados Unidos é retratado de forma fascista ao se firmar através de seu poderio bélico e, ao mesmo tempo, este plot (que vem desde a HQ, devidamente escrita por um inglês, claro) denigre qualquer mérito estadunidense ao dar a entender (dizer com todas as letras, cof, cof...) que o Governo Americano mandou estourar os miolos de John Kennedy no Texas, ou que os americanos só foram capazes de vencer a Guerra do Vietnam porque contavam com o auxílio de um super-homem azul, que findou o conflito sozinho em uma semana (nesta cena, se faz presente a Cavalgada das Valquírias, de Wagner, homenagem pra lá de bacana à Apocalipse Now).

Apocalipse Now, by Zack Snyder.

Já as peculiaridades dos personagens são demonstradas pelo dia-a-dia dos ex-vigilantes: seus problemas pessoais, suas aspirações, suas formas de tocar a vida já que agora não podem mais surrar bandidos. Do pacato Dan Dreiberg (o Coruja II), que se dedica a observar pássaros e gastar o seu tempo ouvindo as histórias mirabolantes do idoso Holli Mason (o Coruja original), até o multi-bilionário Adrian Veidt, que usa da imagem de seu alter ego, Ozymandias, para franquiar produtos e fazer rios de dinheiro.

The Watchmen - 1977 - Da esquerda para a direita: Comediante, Spectral II, Dr. Manhattan, Ozymandias, Coruja II e Rorschach.

Aliás, o que não faltam no universo de Watchmen são personagens emblemáticos. Como destrinchar a condição humana sempre foi uma nuance na maioria das obras de Alan Moore (o escritor da HQ na qual o filme se baseia), Zack Snyder acabou transpondo essas premissas para os personagens em tela: Dan se vê no ócio do cotidiano, sozinho e longe de estar em forma. Laurie tem problemas em se relacionar com seu companheiro, o Dr. Manhattan, por este último ser tão poderoso, que está se distanciando de sua humanidade cada vez mais. Veidt demonstra tendências homosexuais mesmo quando não abre a boca (uma das mudanças, em relação à HQ, que mais incomodou grande parte dos fãs), e o Comediante se apresenta como alguém sem papas na língua, antagônico, visceral e capaz de qualquer coisa, o mais próximo que um personagem do filme chega de um anti-herói, mesmo que Rorschach (o personagem preferido da maioria, inclusive o meu) seja um sério candidato a esta vaga.

Rorschach queimando algum infeliz...

Por falar no diabo, há de se tirar o chapéu pelas escolhas de elenco (quase todo desconhecido do grande público) e o desempenho do mesmo. Jackie Earle Haley já está sendo aclamado por seu desempenho como Walter Kovacs, vulgo Rorschach, um herói marginal e psicótico, de infância terrivelmente maculada, que vê no seu ofício de fazer justiça a única forma de sobrevivência, não parando de atuar como combatente do crime nem diante do apocalipse. Embora o personagem use uma máscara na maioria das cenas, Earle rouba a cena nos poucos, e cruciais, momentos em que aparece sem o seu disfarce manchado (o mais curioso é que, de 1993 até meados de 2006, o ator vivia de bicos, tais como dirigir limusines e entregar pizzas, entre outros labores menos glamourosos).

O Comediante: acho que ele não gostou da piada...

Outro que se destaca é Jeffrey Dean Morgan, no papel do insano Comediante, um herói da velha guarda que não tem pudor em meter murros em mulheres e humiliar outros heróis jogando certas verdades em suas caras. Como trata-se de um membro dos Minutemen originais, o personagem é retratado em várias épocas distintas, pelo mesmo ator, de forma muito convincente (ponto para a maquiagem, que fez um excelente trabalho em Morgan, mas não foi tããããão feliz no envelhecimento da atriz Carla Gugino, que faz a primeira Spectral nos tempos áureos e seu alter ego, Sally Jupiter, já em um asilo).

Spectral I, beeeeeem antes do asilo.

Os efeitos especiais podem desconcertar um pouco, já que quase todos eles giram em torno do Dr. Manhattan (um homem de cor azul brilhante). Em alguns momentos (raros) ele parece não convencer e talvez seja este o maior (e único) pecado técnico do
longa. Há os eventuais slow-motions (marca registrada de Snyder), espalhados por todo lado, mas eles ditam um ritmo que considero importante para condensar a gama de informações que o roteiro despeja no espectador.

Doutor (es) Manhattan, concentrado em seus afazeres.

Está aí, talvez, o segundo e maior pecado de Watchmen: na ânsia de fidelizar a HQ, o roteiro do filme, embora não aborde todas as premissas da Graphic Novel (que foi editada em 12 partes), se esforça em manter os plots principais da trama, carregando a história com tanta informação que pode acabar pegando desprevenido os chamados “leigos” (aqueles que não leram a HQ), fazendo-os nadar num mar turbulento de acontecimentos (ao passo que os leitores, que já conhecem a história, desfrutam das sutilezas do filme de forma muito mais plena). Não que você saia do cinema com aquela sensação de “não entendi”, mas esta enxurrada acaba fazendo alguns terem a sensação de desgaste da história ao longo de 163 minutos de projeção, ao invés de pegarem as referências que permeiam por todo o trajeto e deliciar-se com elas.

"Soviets call Dr. Manhattan 'imperialist weapon'."

Esta fidelidade acerca da obra é estampada em todo o filme de forma fulminante: quando os Minutemen nos são apresentados na já citada cena de abertura do filme, nota-se que as fantasias usadas pelos vigilantes são risíveis, quase carnavalescas (tal qual na HQ). Embora haverá quem dê risada nesta cena, nota-se que há um grau de coerência impressionante nesta escolha de roupas, dada a época em que se passa a história: se alguém aí duvida, basta ler os gibis de super-heróis que perambulavam pelas bancas dos anos 40 e 50, tudo muito colorido e ostensivo, conforme o que se convencionava que um herói deveria vestir naquele tempo. Esta decisão de manter os paradígmas da própria HQ (que foi usada como storyboard) pode ser um tiro no pé perante o grande público, mas denota todo um carinho tomado pelo Diretor e um respeito ímpar com os fãs dos quadrinhos. O mesmo cuidado foi tomado com quase todos os diálogos, que também são tirados “lipsis literis” da história impressa. A trilha sonora executada por Tyler Bates (antigo colaborador de Snyder em seus filmes), bem como o soundtrack escolhido a dedo (começa com Bob Dylan, segue com Simon and Garfunkel, continua com Billie Holiday, Jimi Hendrix, etc, etc, etc...) remetem qualquer um que tenha um mínimo de memória à época vintage, aliando-se perfeitamente a já comentada e estupenda Direção de Arte, que transporta cada desenho de Dave Gibbons para a tela com assustadora perspicácia (até o casaco de neve ridículo do Coruja está lá, igualzinho).

Isso deve doer...

Outra prova desta tentativa de fidelidade do Diretor está na classificação etária do filme: censura 18 anos. Como a história pesada que é, Watchmen não poupa nas cenas brutais ou eróticas e, em alguns momentos, seus momentos violentos beiram ao gore. Assim como na HQ, é normal o Dr. Manhattan pipocar pela tela com seu bilau atômico de fora. Assim como na HQ, cães dilacerados e pessoas explodindo são apenas pano de fundo para uma história muito mais intensa. Esta decisão sacrificou mais da metade do público pagante que poderia ir conferir o filme, mas a integridade adulta da obra foi mantida.


Enfim, não sei se consegui me fazer entender, mas vou tentar sintetizar tudo num último parágrafo (ah, você leu tudo até aqui???? Não precisava...): Watchmen é um produto diferenciado de tudo o que foi feito até hoje para o cinema. Alguns podem considerar uma adptação fiel e, mesmo assim, detestarem. Outros podem considerar o mesmo e pagarem pau (that’s me). Certamente existirão, aos montes, os fãs xiitas que ignoram todos os conceitos de adaptação e acharão o filme uma heresia. Terão aqueles que entrarão no cinema sem saber de nada e sairão pior do que entraram, e haverão aqueles que entrarão sim sem saber de nada, mas terão suas concepções totalmente divididas em “antes de Watchmen” e “depois de Watchmen”. Uma coisa é certa: trata-se de uma experiência visual sem precedentes, que não se sabe se será para amar ou para odiar...

...mas com certeza será para ser visto.

***

Dica de filme:

Watchmen - O Filme (Watchmen)
Diretor: Zack Snyder
Elenco: Malin Akerman (Laurie Juspeczyk/Espectral II), Billy Crudup (Jon Osterman/Dr. Manhattan), Matthew Goode (Adrian Veidt/Ozymandias), Jackie Earle Haley (Walter Kovacs/Rorschach), Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake/Comediante), Patrick Wilson (Dan Dreiberg/Coruja II), Carla Gugino (Spectral I)
Duração: 163 minutos
Gênero: Ficção/Drama
Ano: 2009

Watchmen conseguiu a proeza de desbancar Batman - Cavalheiro das Trevas como melhor adaptação de uma HQ, mesmo que seu final seja diferente do final dos quadrinhos e que muitos leitores da obra chiem por isso. Esta mudança, que altera os meios, mas mantém o objetivo proposto na HQ, se apresenta muito mais coerente e conveniente para o formato cinematográfico, e não compromete em nada o resultado impactante desta obra-prima.

sábado, 7 de março de 2009

Da série "I'm a Doctor, not..."

Dr. Leonard McCoy - Cirurgião-Chefe da USS Enterprise.

"...a bricklayer." (TOS - Episódio 1x25 - The Devil in The Dark)
"...an engineer." (TOS - Episódio 2x04 - Mirror, Mirror)
"...a mechanic." (TOS - Episódio 2x06 - The Doomsday Machine)
"...an escalator." (TOS - Episódio 2x11 - Friday's Child)
"...a coal miner." (TOS - Episódio 3x12 - The Empath)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Muito Antes de 24 Horas.

Texto publicado originalmente em 20 de outubro de 2005 , na coluna Passado a Limpo, do site www.sobrecarga.com.br

A maioria dos adeptos da fórmula de tempo real (na qual cada minuto em tela eqüivale à um minuto na vida real), apresentada na série de TV 24 Horas, devem desconhecer que tal artifício já é utilizado por grandes produções do cinema há muito, muito, muito tempo.

Anos antes de Kiefer Sutherland pensar em nascer, o diretor Fred Zinnemann (responsável por pérolas como A um Passo da Eternidade e O Homem Que Não Vendeu Sua Alma) já utilizava o recurso do tempo real para tecer um dos mais contundentes westerns de todos os tempos.

Em 1952, o filme Matar ou Morrer chegava para fazer história. O projeto contava não apenas com o timbre de Zinnemann, mas também com a estampa de dois dos maiores astros de Hollywood: o galã Gary Cooper, que já estava na sua 53ª primavera, e a belíssima Grace Kelly, que dispensa comentários.

A trama, diferente dos filmes do gênero da época (que apostavam suas fichas em tiroteios coreografados) girava em torno do xerife Will Kane (Cooper), um homem correto e respeitado em sua cidadezinha, que recebe uma carta, no dia de seu casamento, de um bandoleiro que mandara para a prisão tempos atrás. O conteúdo da missiva é direto e sem vaselina: no trem do meio-dia, Frank Miller (Ian MacDonald) e seus comparsas desembarcarão na estação de Hadleyville para matá-lo. Imediatamente, o Xerife Kane estufa o peito, convencido de que finalmente dará a Miller (casualmente ou não, o mesmo nome do criador de Sin City) a lição que ele merece. Bastava apenas reunir um contingente decente junto aos cidadãos e esperar o bando na estação, certo?

Errado!

Deste ponto em diante, cada segundo da película mostra exatamente o oposto do que se convenciona de uma cidade que, até aquele momento, era um exemplo de paz e união: Will começa a ver seu mundo ruir a cada recusa de ajuda que leva, aliados aos pedidos de Amy (Kelly), sua noiva, que roga para que o benfeitor da lei desista da idéia de esperar pelo bando e fuja da cidade o mais rápido possível. Nesta parte da narrativa, o recurso de tempo real funciona como um duelo de nervos: os minutos que passam em closes estratégicos nos relógios de parede, contra a iminência de um duelo que, com certeza, resultará em tragédia.

Além do roteiro bárbaro de Carl Foreman (baseado em estória de John W. Cunningham) e a direção impecável de Zinnemann, a atuação bombástica de Cooper (agraciado com um Oscar pelo trabalho) alavancou a qualidade do filme de tal maneira, que é quase impossível não se identificar com os sentimentos demonstrados por Kane: desde a coragem inabalável de um herói confiante (logo no início do longa), passando pela dúvida entre cumprir seu juramento de manter a lei ou salvar sua pele, até a desolação no final (numa das cenas mais marcantes que já vi) onde Will olha para os lados e não encontra ninguém em quem se apoiar, enquanto o trem das 12 chega ameaçador. Um espetáculo.

Seria sacanagem das piores se eu contasse o que acontece depois disso e privasse os leitores desta coluna de saborearem uma das melhores seqüências já registradas em tela. O resultado disso foram sete indicações ao Oscar, sendo que quatro deles foram abocanhados pelo projeto (o de Melhor Ator para Cooper, Melhor Edição, Melhor Canção Original para High Noon (Do Not Forsake Me, Oh My Darling) e Melhor Trilha Sonora). Curiosamente, o papel de Will Kane havia sido oferecido anteriormente para Gregory Peck, que o recusara por achar a personagem muito similar ao papel que havia feito em O Matador, de 1950. Um daqueles casos em que o produto saiu melhor que a encomenda.

Como se vê, tudo salva-se em Matar ou Morrer, mesmo que alguns avessos de filmes antigos reclamem que o preto e branco é coisa do passado, que o faroeste é um gênero bitolado, ou que os atores assalariados* são uma espécie em extinção. Quando um filme transcende expectativas para figurar no rol dos clássicos, nem o tempo pode lhe ser implacável.

Jack Bauer que o diga...

*: Nos idos de 1950, os grandes estúdios agregavam atores e atrizes da época como assalariados, que recebiam mensalmente mediante contrato de trabalho. Bem diferente de hoje, onde os astros são pagos por trabalho realizado e sem vínculos com as distribuidoras.

***

Dica de filme:

Matar ou Morrer (High Noon)
Diretor: Fred Zinnemann
Elenco: Gary Cooper (Xerife Will Kane), Grace Kelly (Amy Kane), Thomas Mitchell (Jonas Henderson), Lloyd Bridges (Harvey Pell), Katy Jurado (Helen Ramirez), Ian MacDonald (Frank Miller)
Duração: 84 minutos
Gênero: Western
Ano: 1952